Casas caiadas de branco, uma arquitetura singular representada pelos trulli, mar em tons azul-turquesa e uma herança histórica que atravessa milênios fazem da Puglia uma das regiões mais fascinantes do sul da Itália. Localizada no chamado “salto da bota”, a região combina castelos medievais, igrejas barrocas, centros históricos preservados, mercados tradicionais e extensas áreas litorâneas.
Poucos territórios europeus concentram, em um mesmo recorte geográfico, sítios arqueológicos, cidades barrocas e uma relação tão direta entre paisagem urbana e litoral. A Puglia reúne diversidade cultural, paisagens marcantes e uma identidade própria, o que explica seu crescente interesse do ponto de vista histórico e cultural.
Ao longo do texto, reunimos 12 cidades fundamentais da Puglia, para apresentar um pouco mais da identidade da região.
Onde fica a Puglia
A Puglia está localizada no sul da Itália, na porção leste da península, sendo banhada pelo Mar Adriático a leste e pelo Mar Jônico a oeste. Sua capital é Bari, principal porta de entrada da região e um dos centros urbanos mais relevantes do sul italiano.
Além da relevância geográfica, a Puglia possui uma história particularmente antiga. A região foi colonizada pelos gregos micênicos, que a chamaram de Iapygía, nome associado às três principais tribos iapígias que habitaram o território durante o primeiro milênio a.C. Essa ocupação inicial ajuda a explicar a riqueza arqueológica da região e a forte influência cultural que ainda se percebe na arquitetura, na organização urbana e nos costumes locais.
A Puglia e suas principais cidades – o que fazer na Puglia
A Puglia é formada por dezenas de cidades históricas. Entre as mais conhecidas estão:
- Bari (capital da região);
- Brindisi;
- Lecce;
- Taranto;
- Foggia;
- Barletta;
- Andria;
- Trani;
- Ostuni;
- Polignano a Mare;
- Locorotondo;
- Alberobello.
A seguir, destacamos algumas das cidades que ajudam a compreender a diversidade histórica, urbana e cultural da Puglia.
1. Bari, a capital da Puglia
Capital da região, Bari está situada às margens do Mar Adriático e desempenha, há séculos, um papel central como porto, eixo comercial e ponto de contato entre o sul da Itália e o Mediterrâneo oriental. A cidade reúne patrimônio histórico relevante e uma vida urbana intensa, resultado de uma ocupação contínua que atravessa diferentes períodos históricos.
Seu centro histórico, conhecido como Bari Vecchia, preserva uma malha urbana compacta, composta por ruas estreitas e sinuosas, onde igrejas, residências e o Castelo Normando-Suevo coexistem em proximidade direta. O cotidiano permanece integrado a esse espaço histórico: portas abertas, conversas entre vizinhos e roupas estendidas nas varandas fazem parte da paisagem urbana, oferecendo um retrato fiel da permanência de práticas tradicionais no contexto contemporâneo do sul da Itália.
2. Trani
Trani é conhecida por sua rica história, arquitetura, belas praias e excelente gastronomia. Um dos principais marcos da cidade é a Catedral de Trani, dedicada a San Nicola Pellegrino, construída em pedra calcária clara diretamente voltada para o Mar Adriático. Considerada um dos exemplos mais elegantes da arquitetura românica na Puglia, a catedral se destaca pela harmonia de suas proporções, pelo campanário esguio e pela relação direta entre o edifício religioso e a paisagem marítima.
O Castelo Svevo, erguido por Frederico II, reforça a importância estratégica de Trani ao longo da Idade Média, enquanto o porto histórico permanece integrado à vida urbana. O centro histórico, formado por ruas charmosas, praças e edifícios preservados, permite compreender a formação e o desenvolvimento da cidade ao longo dos séculos.
3. Polignano a Mare
Polignano al Mare é uma das cidades mais emblemáticas da Puglia, construída sobre falésias rochosas voltadas para o Mar Adriático. O centro histórico se organiza em ruelas estreitas que conduzem a terraços panorâmicos, estabelecendo uma relação direta entre o tecido urbano e o mar, elemento central da paisagem local.
A Lama Monachile, praia encaixada entre paredões calcários, tornou-se um dos cenários mais reconhecidos da cidade, marcada pelas águas cristalinas e pelo contraste entre natureza e arquitetura. Polignano também está associada à figura de Domenico Modugno, nascido na cidade e responsável por projetar a música italiana internacionalmente com Nel blu dipinto di blu (Volare). Essa ligação cultural se expressa no espaço urbano e reforça a identidade simbólica da cidade, historicamente vinculada ao mar e ao imaginário mediterrâneo.
Entre seus marcos mais singulares está o Ristorante Grotta Palazzese, instalado em uma caverna natural voltada para o Adriático, frequentemente citado entre os restaurantes mais conhecidos da Itália pela singularidade de sua localização.
4. Alberobello e os trulli
A presença dos trulli é um dos elementos arquitetônicos mais emblemáticos da Puglia. Alberobello, frequentemente associada a esse tipo de construção, foi reconhecida pela UNESCO em 1996 por representar um exemplo excepcional de técnicas construtivas derivadas de práticas pré-históricas que permaneceram em uso e funcionamento ao longo dos séculos.
O trullo é uma pequena construção em pedra calcária, erguida a partir de rochas coletadas nos campos vizinhos e montadas sem argamassa, com paredes espessas e telhado cônico. Embora Alberobello concentre o maior conjunto preservado desse tipo de edificação, os trulli também podem ser encontrados em outras cidades do Vale d’Itria, como Locorotondo, Martina Franca, Cisternino e Fasano.
Em Alberobello, essas construções se organizam principalmente na área histórica conhecida como Rione Monti, onde a concentração de trulli permite compreender a lógica urbana e social que moldou a cidade. Entre os exemplares mais conhecidos está o Trullo Sovrano, localizado atrás da Igreja de Santi Medici Cosma e Damiano. Trata-se do único trullo com dois pavimentos, atualmente adaptado como espaço museológico. Outro exemplar singular é o Trullo Siamese, reconhecido por suas duas cúpulas unidas centralmente.
Já o Rione Aia Piccola preserva um conjunto mais discreto, com cerca de 500 trulli inseridos em um contexto urbano menos transformado. A área mantém uma relação mais próxima com o uso residencial original dessas construções, oferecendo uma leitura mais próxima da organização histórica e cotidiana da cidade antes da intensificação do fluxo turístico.
5. Ostuni, a cidade Branca
Situada na província de Brindisi, Ostuni é conhecida como a Cidade Branca (La Città Bianca) devido ao conjunto de casas baixas e ruas estreitas marcadas pelo uso da pedra calcária. O centro histórico se desenvolve em diferentes níveis, com escadarias antigas que revelam a estratificação histórica da cidade e concentram tanto espaços residenciais quanto estabelecimentos que mantêm a área viva ao longo do dia e da noite. Ostuni também abriga diversas masserias, antigas fazendas típicas do sul da Itália, que fazem parte da paisagem rural do entorno.
O tecido urbano de Ostuni, formado por fachadas brancas, vielas sinuosas e volumes compactos, cria uma paisagem contínua e luminosa. Essa configuração reflete influências históricas diversas, entre elas a presença da cultura grega antiga na Puglia, perceptível na relação entre arquitetura, luz e território, cujos vestígios ainda podem ser reconhecidos na organização da cidade.
6. Lecce
Frequentemente chamada de “Florença do Sul”, Lecce é assim conhecida pela concentração e pela qualidade de seu patrimônio barroco, comparável, em termos de riqueza ornamental e coerência estética, ao papel desempenhado por Florença no centro-norte da Itália durante o Renascimento. No caso de Lecce, essa identidade se construiu a partir do barroco desenvolvido no sul do país, com características próprias e forte unidade visual.
A cidade abriga numerosas igrejas e praças, entre elas Santa Maria della Provvidenza, a Piazza Addolorata e a Basílica de Santa Croce, considerada um dos exemplos mais elaborados do barroco local. Um dos elementos mais característicos de Lecce é o uso da pietra leccese, pedra calcária clara e de fácil escultura, amplamente empregada na construção dos edifícios da cidade antiga e responsável pela riqueza ornamental de suas fachadas.
A tradição cultural de Lecce também se expressa na culinária regional, com preparações típicas da Puglia, como a orecchiette e as polpette, integradas ao cotidiano local.
7. Locorotondo
Locorotondo se destaca pela organização de seu centro histórico, marcado por arquitetura branca e pela inserção em uma paisagem de vinhedos e olivais que caracteriza o Vale d’Itria. No núcleo antigo da cidade encontra-se a Igreja de San Giorgio, construção barroca situada no coração urbano, reconhecida pela composição de sua fachada e pelos afrescos preservados em seu interior.
A tradição vitivinícola também faz parte da identidade local. Locorotondo está associada à produção de vinhos brancos leves e frescos, resultado da combinação entre clima, solo e práticas agrícolas tradicionais que moldam a paisagem e o cotidiano da região.
8. Castel del Monte
Castel del Monte é um dos monumentos mais enigmáticos da Itália, em grande parte devido à incerteza em torno de sua função original. Construído por volta de 1240 por Frederico II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, o castelo foi erguido no topo de uma colina isolada na região de Andria, dominando o Vale da Murgia e mantendo uma relação visual distante com o Mar Adriático.
Sua planta octogonal, com oito torres igualmente octogonais, não encontra paralelos diretos na arquitetura militar medieval. A ausência de estruturas defensivas convencionais — como fossos, muralhas externas ou espaços claramente destinados à guarnição — levou historiadores a questionar se o edifício teria sido concebido como fortaleza. Hipóteses recorrentes sugerem funções simbólicas, representativas ou ligadas ao pensamento científico e filosófico de Frederico II, conhecido por seu interesse em matemática, astronomia e cultura clássica.
Em 1996, o Castel del Monte foi reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO, tanto pela singularidade de sua arquitetura quanto pelo caráter ainda debatido de sua concepção, que permanece aberta à interpretação histórica.
9. Matera
Matera, localizada na região da Basilicata, é amplamente conhecida pelos Sassi, um complexo urbano formado por casas, igrejas e edificações escavadas diretamente na rocha. A cidade apresenta vestígios de ocupação humana com mais de 9.000 anos, o que a coloca entre os núcleos habitados mais antigos do mundo ainda em atividade.
Durante grande parte do século XX, no entanto, Matera permaneceu à margem dos principais circuitos culturais e turísticos da Itália. Os Sassi, associados a condições precárias de habitação, chegaram a ser abandonados, e a cidade ficou por décadas distante de um reconhecimento mais amplo de seu valor histórico e urbano. Esse cenário começou a se transformar com a inscrição dos Sassi de Matera como Patrimônio Mundial da UNESCO em 1993.
Desde então, Matera passou por um processo gradual de revalorização, recuperando seu patrimônio escavado e reintegrando-se ao panorama cultural italiano. Esse percurso ganhou projeção internacional quando a cidade foi escolhida Capital Europeia da Cultura em 2019, marco que consolidou sua presença no cenário cultural contemporâneo. O Parque das Igrejas Rupestres, que reúne igrejas e capelas talhadas na rocha e integradas à paisagem natural, é um dos exemplos mais claros dessa redescoberta, revelando a complexa relação entre território, arquitetura e permanência humana ao longo dos séculos.
10. Otranto
Otranto está localizada a cerca de 72 km da Albânia, posição estratégica que, ao longo dos séculos, a expôs a sucessivas invasões. O episódio mais marcante ocorreu em 1480, durante o cerco otomano que resultou na destruição de grande parte da cidade. A Catedral de Otranto, no entanto, sobreviveu ao ataque, ainda que com danos parciais, preservando um dos conjuntos artísticos mais singulares do sul da Itália.
Construído entre 1163 e 1165, o piso de mosaico da catedral cobre integralmente o interior do edifício e está entre os maiores da Europa. Seu tema central é a Árvore da Vida, apoiada sobre elefantes — símbolo associado à pureza — e cercada por ramos que entrelaçam narrativas bíblicas e pagãs, refletindo a complexidade cultural do período medieval.
Em uma das capelas encontram-se os restos mortais dos 800 mártires de Otranto, que resistiram ao cerco otomano e se recusaram a abandonar a fé cristã. A presença dos crânios, expostos em contraste direto com a delicadeza do mosaico, confere ao espaço uma atmosfera solene e intensa, marcada pela sobreposição entre arte, memória e violência histórica.
11. Gallipoli
Gallipoli é uma cidade litorânea situada ao longo da costa de Salento, organizada em duas áreas distintas: a cidade antiga, construída sobre uma ilha de calcário, e a parte mais recente, ligada à ilha por uma ponte. No núcleo histórico encontram-se a Fontana Greca, monumento de origem renascentista, a Catedral de Sant’Agata, um dos mais representativos exemplos do barroco em Salento, e a Igreja de Santa Maria della Purità, conhecida por seu piso de majólica.
O conjunto urbano é completado pelo Castelo de Gallipoli, fortaleza defensiva integrada à cidade antiga e marcada pela Torre del Rivellino. Governada pelos gregos entre os séculos VII e II a.C., a cidade teve seus vestígios desse período praticamente apagados durante a dominação romana. A maior parte da arquitetura visível atualmente data da Idade Média, refletindo as transformações históricas que moldaram Gallipoli ao longo dos séculos.
12. Martina Franca
Martina Franca é a maior cidade do Vale d’Itria e apresenta uma configuração urbana distinta dentro da região. Menos exposta aos fluxos mais concentrados do turismo, preserva um ritmo próprio e um centro histórico marcado pela combinação entre barroco dourado e arquitetura branca, com influência grega perceptível nas proporções e na organização dos volumes. O núcleo antigo abriga numerosos palazzi e edifícios religiosos, entre eles a Basílica di San Martino, construída no século XVIII em estilo rococó.
Próxima ao centro histórico, a Piazza Maria Immacolata se destaca como um dos principais espaços urbanos da cidade, cercada por edifícios barrocos com varandas de ferro e pórticos que se abrem para as ruas laterais. As vias estreitas e os volumes uniformemente claros criam uma paisagem contínua, pontuada por vasos de flores — azaleias, begônias e petúnias — que introduzem cor de forma discreta e reforçam o caráter visual do conjunto urbano.
Quando ir à Puglia
A Puglia pode ser visitada ao longo de todo o ano, com mudanças perceptíveis no ritmo das cidades e na paisagem conforme as estações. Entre a primavera e o início do outono, especialmente de maio a outubro, as temperaturas tendem a ser mais amenas ou quentes, favorecendo a vida ao ar livre e a relação com o litoral.
Os meses de verão, em especial julho e agosto, concentram maior movimento, com temperaturas elevadas e maior presença de visitantes, sobretudo nas áreas costeiras. Já o inverno apresenta um ritmo mais tranquilo, com menor fluxo turístico e uma vivência mais próxima do cotidiano local, ainda que algumas atividades ligadas ao turismo funcionem de forma reduzida.
Como chegar à Puglia
Não há voos diretos entre o Brasil e as cidades da Puglia. O acesso à região costuma ocorrer por meio de conexões em grandes centros italianos, como Roma ou Milão, a partir dos quais é possível seguir para o sul por diferentes meios de transporte.
Além das conexões aéreas internas, a Puglia também está integrada à malha ferroviária italiana, o que permite o deslocamento por trem a partir de outras regiões do país. Os aeroportos de Bari e Brindisi funcionam como principais portas de entrada aérea, recebendo voos domésticos e europeus e articulando os acessos às diferentes áreas da região — lógica que costuma ser considerada na organização de roteiros pela Puglia.
Roteiros Cenci Turismo pela Puglia
A Puglia reúne cidades históricas, áreas rurais, sítios arqueológicos e um extenso litoral distribuídos ao longo de um território amplo e diverso. A organização dos deslocamentos e a coerência entre os diferentes núcleos urbanos influenciam diretamente a experiência da região.
Conheça nossos roteiros pela Puglia, organizados a partir dos principais destinos da região, com atenção ao ritmo, às distâncias e à diversidade do território.