Pompeia, uma cidade sob as cinzas

Cidades Históricas - 16/10/2019
Por Yuri Borges Loyola
Foto de capa: Por ElfQrin – Obra do próprio, CC BY-SA 4.0

Mesmo passados dois milênios, a trágica história de Pompeia continua a despertar o nosso assombro e curiosidade. Talvez porque poucas vezes na História uma inteira cidade foi suprimida de modo tão repentino e assustador; ou então porque uma tragédia deplorável como essa nos abriu, todavia, uma rara janela da qual observar o mundo antigo que tanto nos fascina. Conheça melhor o que aconteceu no fatídico dia 24 de outubro de 79 d.C., o último da cidade de Pompeia.

Rua de Pompeia
Rua de Pompéia, uma das tantas pela qual se pode andar para conhecer a cidade antiga que foi soterrada pelas cinzas do Vesúvio. Foto: Ralph Bukiewicz / Flickr

A erupção do Vesúvio

Parecia ser uma tarde ensolarada como outra qualquer, ao litoral da Campânia. Por volta do meio-dia muitos Romanos, como de costume, comiam algo leve, devido ao calor, enquanto descansavam protegidos do sol, ainda quente, de outubro. Começa a despontar, porém, algo de estranho e curioso ao longe, sobre os montes: uma nuvem de forma e dimensão inusitadas, que por enquanto provoca mais admiração do que preocupação nos Romanos que a veem.

Vesúvio
Vesúvio ao horizonte visto do golfo de Nápoles. Foto: Aliaksandr Vlasik / 123rf.

Tamanha admiração não se devia somente à grandeza da nuvem que começava a ser expelida, mas sobretudo ao fato de que os Romanos, até então, ignoravam completamente que o Vesúvio fosse um vulcão: todos o tomavam por uma simples montanha, visto que a última grande erupção havia acontecido milhares de anos antes, quando os povos latinos sequer habitavam a Itália. A erupção pegou os Romanos completamente desprevenidos.

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Quadripórtico dos Teatros em Pompeia
Quadripórtico dos Teatros, em Pompeia, numa tarde ensolarada. Foto: Viacheslav Lopatin / 123rf

Diante de um fenômeno sem precedentes, para descrever a forma daquela nuvem imensa alguns recorreram a uma metáfora tirada da natureza quotidiana: assim como nós descrevemos a forma típica da explosão de uma bomba atômica como “cogumelo”, alguns Romanos compararam o aspecto da nuvem ao pinheiro marinho: árvore típica do litoral mediterrâneo, do tronco longo e com ramos que se expandem só no alto, bem servia para descrever a massa colossal de fumaça e cinzas que o Vesúvio começava a lançar no céu.

Pinheiro marinho (pino marittima), típico do litoral italiano: sua forma foi a metáfora melhor para descrever o cogumelo de fumaça causado pela explosão vulcânica. Foto: Jakobradlgruber / 123rf

Mas o cenário era completamente diferente para quem habitava em Pompeia, aos pés do Vesúvio. Choviam do céu, com velocidade sempre maior, flocos de cinza quentes e espessos, bem como fragmentos de pedra-pomes. Olhando para o Vesúvio viam-se labaredas enormes e a encosta da montanha que pegava fogo de fora a fora. A esta altura, o tempo para escapar do desastre era pouco.

Vesúvio visto de Pompeia
Vesúvio visto de Pompeia a cidade se encontra ao pé do vulcão. Foto: Alex Popov / 123rf

Muitos moradores de Pompeia, no desespero do momento, tomaram uma decisão que então parecia sensata: trancaram-se dentro de casa, embaixo do teto, para se proteger das cinzas quentes e das lascas de pedra que caíam do céu. Mas tal decisão se revelou fatal: a quantidade de material vulcânico que o Vesúvio lançava era tanta que, em apenas 5 horas, a cidade já estava coberta por um metro de cinzas. O peso acumulado sobre o teto das casas era muito: e de fato a maior parte da população vítima da erupção morreu sob o desabamento da própria casa. Muitos, num certo ponto, se deram conta do perigo, mas era tarde demais: Pompeia já estava embaixo de dois metros de cinzas – àquela altura era praticamente impossível abrir as portas das casas. Os poucos que conseguiram, foram de encontro à asfixia, devido à fumaça espessa que envolvia toda a cidade.

Fórum de Pompeia com o Vesúvio ao fundo. Por Heinz-Josef Lücking, CC BY-SA 3.0

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Templo de Júpiter em Pompeia
Templo de Júpiter em Pompeia. Foto: Alex / Flickr

Após quatro dias de erupção ininterrupta, Pompeia jazia embaixo das cinzas, sepultada por um estrato de 6 metros de altura. Emergiam, aqui e ali, somente o topo dos edifícios mais altos e de algumas colunas – a cidade tinha sido completamente enterrada com seus habitantes. As escavações dos arqueólogos nos revelaram os últimos momentos de alguns dos moradores de Pompeia, preservados pela aridez das cinzas: uma mãe que escapa com a filha, cuja cabeça protege com um travesseiro; um casal de esposos, de mãos dadas; um sacerdote que tenta salvar o tesouro do próprio templo; um cachorro que não consegue se soltar da coleira.

Ruínas de Pompeia.
Foto: Riccardo Ravelli / Flickr
Foto: Ralph Bukiewicz / Flickr

O desastre inesperado impressionou toda uma geração de Romanos e, passado o pior, não se quis nem mesmo reconstruir a cidade. Pompeia continuou sepultada por anos e anos até que, enfim, desta se perdeu completamente a memória. Somente em 1748 começaram as primeiras escavações dos arqueólogos, que continuam até hoje, visto que alguns bairros da cidade ainda estão completamente embaixo da terra.

Jardim dos Fugitivos
Jardim dos Fugitivos, com os moldes em gesso das vítimas do Vesúvio. Por Lancevortex – Obra do próprio, CC BY-SA 3.0

Esse triste desastre possibilitou, todavia, um verdadeiro milagre arqueológico, isto é, que uma inteira cidade do mundo antigo chegasse até nós quase inteiramente preservada. Graças à Pompéia pudemos conhecer muito melhor a arte antiga, visto que as casas mais luxuosas da elite romana eram decoradas por muitas pinturas e estátuas, que hoje se encontram no Museu Nacional de Nápoles; graças aos grafites sobre os muros das casas, pudemos aprender mais sobre a língua, o cotidiano, os hobbies e até mesmo sobre as eleições na Roma Antiga – é realmente difícil estimar quanto a redescoberta de Pompeia tenha contribuído no avanço dos estudos sobre a Antiguidade. Ainda hoje, Pompeia nos provoca esta sensação única, acrescida pela presença do Vesúvio ao horizonte, de que saímos do nosso mundo e entramos, mesmo que por um instante, em uma época diferente.

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Sítio arqueológico de Pompeia
Sítio arqueológico de Pompeia. Foto: Wiesław Jarek / 123RF

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