Veneza, cidade sobre as águas

Arte e Arquitetura - 07/08/2019
Por Yuri Borges Loyola
Foto de capa: Viacheslav Lopatin / 123RF

Mais que por seus belos edifícios e fascinante Carnaval, Veneza é conhecida em todo o mundo principalmente pelos seus canais percorridos por gôndolas e pela maré alta, que com frequência toma as praças e ruas da cidade. Ao longo dos séculos sua população teve que se adaptar com criatividade à presença invasiva da água: conheça um pouco a história dessa relação, não sempre fácil, entre Veneza e o mar.

Piazza San Marco
Piazza San Marco – Veneza. Foto: Scaliger / Bigstock

Antes de tudo, Veneza é desde sempre uma cidade em constante transformação. Na Idade Média, por exemplo, sua fisionomia era bem diferente daquela que vemos hoje. Quando a população da região, para escapar dos ataques de povos invasores, decidiu se refugiar às margens do Canal Grande e fundar aquilo que viria a ser Veneza, o nível da água não era tão alto como hoje em dia. Naquela época a maré não atingia ainda os edifícios e havia pequenas praias às margens do rio, onde os Venezianos organizavam feiras e podiam praticar o comércio.

Gôndola com turistas
Gôndola com turistas e a famosa ponte de Rialto em segundo plano sobre o Canal Grande, núcleo originário de Veneza. Foto: Aleksandrs Kosarevs / 123RF.

Mas com o passar do tempo o nível da água na laguna foi subindo e subindo, submergindo aos poucos as praias e margens dos rios e ameaçando invadir até mesmo as casas. No entanto, o povo de Veneza, que vivia em simbiose há séculos com as águas, ao invés de fundar um novo núcleo mais seguro nas proximidades, decidiu se adequar com criatividade à presença do mar. E assim aos poucos surgia a Veneza que conhecemos hoje, uma inteira cidade sobre as águas.

Gôndola navega em um pequeno canal
Gôndola navega em um pequeno canal que separa duas ilhas da cidade, ligadas por uma ponte. Foto: Mihai Andritoiu / 123RF.

A reconstrução da cidade seguiu um método de certa forma simples. Primeiramente, fincavam-se em profundidade no terreno enormes estacas de madeira que afundavam completamente sob a lama, uma do lado da outra, formando uma espécie de paliçada embaixo d’água. A madeira, embora enfiada no lodo da laguna, não apodrece, pois a falta de oxigênio impede a proliferação de bactérias. Além disso, a água salgada e lamacenta do mar preenche as brechas da madeira, tornando-a assim com o tempo ainda mais robusta e resistente.

Vista do famoso Canal Grande
Vista do famoso Canal Grande: hoje em dia não há mais praias ou margens, completamente engolidas pela laguna. Foto: Jakobradlgruber / 123RF.

Em seguida, sobre essa paliçada subaquática eram entrelaçados horizontalmente longos postes de madeira, que deviam servir de apoio à base em pedra das casas. Formava-se assim sobre a paliçada uma espécie de jangada de madeira gigante, sobre a qual em seguida se erguiam os edifícios. É como se, de certa forma, toda a cidade de Veneza boiasse sobre enormes jangadas de madeira escondidas embaixo d’água!

Canal pitoresco de Veneza com ponte.
Canal pitoresco de Veneza com ponte. Note como a base dos edifícios é em pedra; essa se apoia sobre uma camada de madeira escondida embaixo d’água. Foto: Sborisov / 123RF.

Finalmente, sobre essa camada subaquática de madeira era apoiada a base em pedra dos edifícios. Para tal, os venezianos escolheram a Pedra de Ístria, um tipo de pedra compacto e impermeável que não absorve a água do mar, a qual banha constantemente a parte baixa das casas da cidade. Em cima dessa fundação em pedra, enfim, eram construídas as casas e os edifícios. Essa forma de edificar foi tão eficaz que os alicerces de madeira de Veneza, embora tenham mais de 500 anos, ainda hoje não demonstram fraqueza ou sinal de desgaste!

Famosa Ponte dos Sospiros
Famosa Ponte dos Sospiros, construída inteiramente em Pedra de Ístria, que ligava o Palazzo Ducale ao antigo cárcere da cidade. Foto: Sergey Belov / 123RF.

Mas a história não termina aqui, pelo contrário. O nível da água desde então continua a subir: pouco a pouco, mas incessantemente todos anos. Visto que os alicerces já estão postos e os edifícios construídos, por enquanto há pouco o que se fazer além de se habituar à intrusão das águas. Principalmente no outono e na primavera é comum, por causa dos ventos, que a maré suba, alagando muitas partes da cidade: é o fenômeno da acqua alta, que diverte os turistas e ao qual os venezianos estão mais do que acostumados. Em dias como estes a prefeitura coloca plataformas elevadas pelas ruas de Veneza, criando uma espécie de passarela que permite às pessoas caminhar pela cidade. Já os venezianos muitas vezes, habituados como são à acqua alta, simplesmente vestem suas longas galochas e enfrentam a água para evitar as tumultuadas passarelas.

Praça San Marco com acqua alta
Praça San Marco com acqua alta: alguns turistas se movem sobre as passarelas para evitar a água, enquanto outros pisam no chão com suas galochas. Foto: Jean-Pierre Dalbéra /
Flickr.

Mas os desafios para o futuro que aguardam Veneza e os venezianos não são poucos. A expectativa é que o nível da água continue a subir incessantemente, talvez até mesmo de um metro nos próximos cem anos, o que exigiria uma re-elaboração total da urbanística da cidade. Alguns acreditam que será necessário barrar a entrada da água durante as marés altas; outros, mais drásticos, especulam que será preciso isolar completamente a cidade do mar, caso contrário essa poderá ser submersa pela laguna. Nós, que somos mais otimistas, acreditamos que, quaisquer que sejam as condições no futuro, o povo de Veneza, criativo e engenhoso na sua longa relação com o mar, saberá dar conta mais uma vez de manter viva, bela e ditosa a extraordinária cidade que herdaram de seus antepassados.

Gondoleiro transporta turistas pelo Canal Grande num dia ensolarado.
Gondoleiro transporta turistas pelo Canal Grande num dia ensolarado. Foto: Zqmai / 123RF.

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