Trento – uma síntese histórica das ocupações humanas ao Norte da Itália

Vista panorâmica de Trento. Foto: Stefania Valvola

Por Adrian Theodor

 

A cidade de Trento está localizada na Região de Trentino-Alto Ádige, ao Norte da Itália, a mais ou menos 100 quilômetros de Verona. Entre seus diversos pontos turísticos relacionados à imponente arquitetura italiana, possui história complexa, que nos remete às ocupações anteriores à expansão romana, e que merecem um pouco de nossa atenção.

Assim, dividiremos esta apresentação em duas partes: primeiramente dedicaremos uma porção de nosso tempo em conhecer um pouco mais da história desta cidade italiana ainda quase desconhecida pelo turismo brasileiro; para posteriormente visitar alguns de seus destinos de visitação mais importantes. Afinal, assim como em outras localidades italianas, parece impossível separar a trajetória histórica de Trento de seus pontos turísticos de maior interesse.

Vista da Cidade de Trento. Foto: arkanoide

Vista da Cidade de Trento. Foto: Arkanoide

UM POUCO DE HISTÓRIA

As origens de Trento, como já dissemos, datam da Antiguidade, quando o território nortenho foi ocupado pela civilização Rética, possivelmente de origem céltica. A região era então importante ponto de passagem de diversos povos diferentes, constituindo-se como de alto valor estratégico. A partir de 81 a.C., passa a ser parcialmente ocupada pela expansão romana, que transforma Trento em município de Roma entre os anos 50 e 40 a.C., apesar da contínua resistência dos locais. Capitulando sob o domínio destes, finalmente, em 15 a.C., sob a égide de Druso e Tibério. Importantes sítios arqueológicos ainda encontram resquícios da ocupação romana no subsolo de Trento, tornando a região um importante centro irradiador da cultura romana da Antiguidade.

O período medieval de Trento é caracterizado pela intensidade de diversas ocupações humanas, no contexto da queda do Império Romano do Ocidente e a consequente incursão de inúmeros povos bárbaros. Destacam-se, dentre eles, os Ostrogodos, Lombardos e Francos. Foi totalmente dominada pelo Sacro Império Romano Germânico, a partir do século X, recebendo o nome de Trient, de onde possivelmente deriva sua nomenclatura atual. O Centro Histórico de Trento, até hoje apelidado de “bairro alemão”, é também fruto histórico da longa ocupação germânica. O lugar chega a ter até 30% de ocupantes alemães, caindo em porcentagem e sendo habitado pela sua maioria italiana atual apenas ao longo do século XIX. Ao longo dos séculos XIII e XIV, Trento é ocupada por bispos alemães provenientes do já citado Sacro Império, com o apoio de relações de vassalagem com a nobreza do Tirol, composta principalmente de membros da família austríaca de Habsburgo. Neste contexto, Trento se torna importantíssimo centro de minério da prata, conhecendo seu apogeu político e econômico.

A Era Moderna de Trento, a partir do século XV, é essencialmente caracterizada pela força do Renascimento italiano, compondo inovações na estrutura urbana e arquitetônica que sobrevivem até os dias atuais. As construções góticas, tão importantes para a época germânica, são alteradas segundo o novo estilo renascentista, compondo construções ecléticas que marcam definitivamente a paisagem da cidade. O século XVI é marcado pela coroação imperial de Maximiliano I de Habsburgo, no interior do Duomo de Trento, construído já no período medieval, sobre os escombros de uma antiga basílica datada do período romano, demonstrando o quanto a cidade ganhara relevância política e religiosa desde a ocupação do bispado germânico. Exemplo máximo deste fato se dá na formação do Concílio de Trento, de 1545 a 1563, centro da configuração da chamada Contrarreforma, ou Reforma Católica, segundo a qual a Igreja empreende sua reação de combate à Reforma Protestante, que conquistara muitos adeptos importantíssimos para as novas religiões europeias formadas a partir de ícones como Martinho Lutero na Alemanha e João Calvino na França e Suíça.

A Fonte de Netuno, em primeiro plano, com o Duomo de Trento ao fundo. Foto: Jorisvo

A Fonte de Netuno, em primeiro plano, com o Duomo de Trento ao fundo. Foto: Jorisvo

O intenso domínio dos Condes do Tirol em Trento somente seria questionado de forma estrutural com as invasões napoleônicas, já no Período Contemporâneo, a partir de 1802, quando o ainda Cônsul francês impõe a abdicação do Imperador Francisco I da Áustria. O Norte da Itália, então em parte ocupado pelo Império Austríaco, acaba por ser invadido como consequência deste fato histórico. Apesar de ter capitulado e feito parte então dos domínios de Bonaparte na Itália, Trento, sob a liderança da nobreza tirolesa, resiste às imposições do Iluminismo em seu território, travando sucessivas batalhas contra Napoleão, que somente seriam concluídas em 1809, com mais de 4 mil tiroleses mortos. Trento passa a se chamar Dipartamento dell’Alto Adige, iniciando um processo de alterações administrativas e as primeiras tentativas de “italianização” do território, modificando sobrenomes de origem alemã e expulsando os descendentes dos Habsburgo. Este terrível procedimento higienista somente seria completado com a unificação da Itália, a partir do século XIX.

Ainda no século XIX, após a derrota de Napoleão na campanha da Rússia e o consequente Congresso de Viena, em 1815, Trento é restaurada sob o domínio do agora Império Austro-Húngaro, com amplo apoio popular. Esta autoridade somente seria questionada no contexto do processo de unificação da Itália, através das campanhas militares de Giuseppe Garibaldi, que tomam o Reino Lombardo-Vêneto das mãos dos austríacos. Trento se torna o centro de uma tensão nacionalista que se dividia entre o pangermanismo da nobreza do Tirol, desejosa da unificação com os territórios alemães; o expansionismo militar do gigantesco e multicultural Império Austro-Húngaro e a luta dos Reinos da Sardenha e Piemonte em nome da Nova Itália, que então lutava por sua definitiva unificação territorial. A resistência tirolesa às conquistas italianas acaba por resultar em um embargo econômico imposto pelo Reino da Itália, que gera intensa carestia entre os camponeses da região, obrigados a abandonar sua terra natal em direção aos territórios austríacos. Mesmo uma parte das elites do Tirol acabam por abdicar de seu território, num segundo processo de “italianização”, que transformaria totalmente a configuração populacional e linguística da região, apesar da resistência e permanência de vários descendentes de alemães e austríacos. Em 1896, como símbolo do domínio linguístico italiano, uma estátua de Dante Alighieri é inaugurada em Trento.

Estátua de Dante Alighieri, construída no século XIX, como símbolo italiano da Cidade de Trento. Foto: Joaquin Ossorio-Castillo

Estátua de Dante Alighieri, construída no século XIX, como símbolo italiano da Cidade de Trento. Foto: Joaquin Ossorio-Castillo

Paradoxalmente, o início do século XX é marcado pela aliança militar entre o recém unificado Reino da Itália e o poderoso império Austro-Húngaro, no contexto que antecede à Primeira Grande Guerra, formando a Tríplice Aliança. Apesar de possuir já uma maioria italiana e de o país ter logo mudado de lado no conflito, cerca de 60 mil trentinos se alistam no exército austríaco, como parte de uma força de guerra que acabaria por implodir o império em diversos fragmentos nacionais após 1918, matando mais de 10 mil soldados de Trento. Aqueles que sobreviveram acabarem por migrar da Itália, ou com direção a Áustria, ou em diáspora para as ilhas do Sul do país.

A partir do século XX, agora sob o rígido domínio do fascismo, Trento passa por um novo processo de “italianização”, este imposto por Benito Mussolini, que proíbe qualquer manifestação de origem germânica nos territórios do Norte do país. Migrações em massa de italianos são incentivadas pelo líder fascista, o que resulta em menos de 4% de habitantes de origem alemã ou austríaca na região. A histórica denominação de “Tirol” acaba por ser utilizada apenas no lado austríaco e a parte italiana é dividida em duas, uma com o título de Província de Trento e outra como Província de Bolzano. Esta Província, inclusive, apesar de todo o histórico de domínio italiano, mantém atualmente a oficialidade das duas línguas, o italiano e o alemão, como forma de valorização desta minoria étnica.

Trento passa por uma vasta alteração arquitetônica, transformando as edificações sob uma estética considerada tipicamente italiana, eliminando quaisquer elementos que marcassem sua origem germânica. Não à toa, portanto, a cidade acaba por ser um dos maiores redutos resistentes ao fascismo italiano, lutando contra ele da década de 20 até o fim do governo de Mussolini, quando toda a localidade finalmente se estabelece como a Região autônoma Trentino-Alto Ádige, existente até os dias atuais.

TURISMO EM TRENTO

Como acabamos de notar, a cidade de Trento é palco histórico de vastíssimo valor cultural, recebendo ao longo dos séculos de sua existência outro tanto de alterações territoriais e arquitetônicas, numa síntese que acaba por contar a própria história da Norte da Itália, principalmente na zona fronteiriça com a Áustria.

Neste sentido, destacamos agora os principais pontos turísticos que devem ser conhecidos por quem decida passar pela região e conhecer mais profundamente sua trajetória histórica milenar. As diversas mudanças pelas quais passou a cidade não são exemplos exatos de preservação histórica, já que parte de sua narrativa é justamente a da transitoriedade. Todavia, é justamente esta constante metamorfose o ponto alto de quem aprecia visualizar o dinamismo que pode adquirir os caminhos trilhados pela História e seus agentes. Ao contrário da visão tradicional que pode adquirir a compreensão histórica da realidade, ela nem sempre é resultado da permanência e da rigidez, podendo ser justamente uma sucessão de relatos divergentes sobre a própria mudança em si mesma. E, em Trento, essa possibilidade se transforma em verdadeira potência criadora, mesmo que, sob alguns aspectos, tenha sido absolutamente destrutiva.

Castello del Buonconsiglio – não se trata apenas de um Castelo, mas sim de um imenso complexo arquitetônico, uma das maiores estruturas fortificada dos Alpes, que começa a ser construído no século XIII e passa por diversas alterações em sua edificação original, conforme a ocupação humana que sofre Trento ao longo de sua longa trajetória histórica. Seria possível, inclusive, contar toda a história da cidade somente explicando as várias camadas constitutivas do Castello, numa síntese histórica que acaba por compor uma das mais ricas estruturas humanas não apenas da Itália, como do mundo. Iniciado na Idade Média, e passando por alterações marcantes ao longo do Renascimento e durante a ocupação de Bonaparte, o Castello é uma das mais incríveis aulas de história existentes em Trento.

Visão Panorâmica do Castello del Buonconsiglio, uma das estruturas mais marcantes na paisagem da cidade de Trento. Foto: Fabian Meseberg

Visão Panorâmica do Castello del Buonconsiglio, uma das estruturas mais marcantes na paisagem da cidade de Trento. Foto: Fabian Meseberg

Piazza del Duomo – A Piazza é o grande centro vivo da cidade, desde a época medieval, quando já era utilizada como palco das principais estruturas administrativas da época. Ao longo do Renascimento recebeu a construção de belíssimos palácios, o que alterou completamente sua paisagem, todavia seguindo a ser um principal centro de convivência de seus habitantes. No século XVIII recebe a construção da famosíssima Fonte de Netuno, sob o desenho do arquiteto Francesco Antonio Giongo, marco paisagístico que pode ser apreciado até hoje. Atualmente, a Piazza recebe semanalmente uma feira livre, mantendo a tradição de grande centro humano, que pulsa sempre com habitantes locais e turistas do mundo todo.

Piazza del Duomo, com destaque para a Fonte de Netuno. Foto: Luca Lorenzelli

Piazza del Duomo, com destaque para a Fonte de Netuno. Foto: Luca Lorenzelli

Duomo – a Catedral, no interior da Piazza del Duomo, começa a ser construída no século XII, em estilo eclético, misturando o Gótico e o Românico. Conservando parte de sua narrativa histórica secular, a Catedral mantém em sua cripta subterrânea os restos constitutivos de uma antiga basílica paleocristã. Foi aqui que ocorreram as reuniões mais importantes do Concílio de Trento, como já citamos anteriormente, no qual a Igreja Católica organiza sua grande resistência contra a Reforma Protestante, e suas inúmeras tentativas de alterar os dogmas defendidos milenarmente pelo catolicismo, ao longo do século XVI.

Domo da Capela do Crucifixo, interior da Catedral de São Virgílio, o Duomo de Trento. Foto: loren62

Domo da Capela do Crucifixo, interior da Catedral de São Virgílio, o Duomo de Trento. Foto: Loren62

Palazzo Pretorio, Torre Grande e Museo Diocesano – a leste da Piazza del Duomo está localizado o Palazzo Pretorio, símbolo do poder político medieval de Trento. Antes da construção do Castello del Buonconsiglio, o Palazzo era a sede administrativa ocupada pelos bispos do Sacro Império Romano Germânico, que administravam o território dividindo-se entre seu poder religioso e secular. É uma estrutura arquitetônica grandiosa, inteiramente construída em blocos de pedra calcária. Na sacada existente na face Norte da edificação, já no início do século XX, o Palazzo recebe a notificação e consequente celebração da anexação de Trento ao território italiano, como já descrevemos na seção histórica deste texto. No interior do Palazzo fica o Museo Diocesano, que se divide em diferentes salas, exclusivamente com acervos de origem religiosa, contudo bastante ricos em informações sobre a história da arquitetura trentina, além de vestes litúrgicas, peças em prata e ouro, manuscritos raros e tapeçarias que contam a trajetória da cidade após o Renascimento. Ao visitar o Palazzo será também possível contemplar sua igualmente imponente Torre Grande, conhecida como Torre do Relógio, edificação essencial para quem passa por aqui.

Detalhe da Torre do Relógio, ou Torre Cívica, ao lado do Palácio Pretório e dos afrescos dos Palácios de Case Cazuffi-Rella, datados do século XVI. Foto: Alberto Masnovo

Detalhe da Torre do Relógio, ou Torre Cívica, ao lado do Palácio Pretório e dos afrescos dos Palácios de Case Cazuffi-Rella, datados do século XVI. Foto: Alberto Masnovo

Tridentum (Trento Romana) – como já mencionamos anteriormente, a história de Trento remonta à ocupação Rética, na Antiguidade, depois tomada pelas invasões romanas, tornando-se ponto de passagem e território estratégico para diversas civilizações que acabam por transitar pela Europa. Em alguns pontos da cidade, é possível contemplar vestígios materiais arqueológicos que datam do período romano, encontrados nos subterrâneos de seus limites geográficos. O próprio Museo Diocesano, que já apresentamos aqui, possui parte desses vestígios, apesar de não ser sua especialidade. Assim como os restos materiais da basílica paleocristã localizados em seu subsolo. Também é possível avistar alguns destes achados no Spazio Archeologico Sotterraneo del Sas, sob a Piazza Italia.

MUSE – o Museu de Ciência de Trento é uma das obras arquitetônicas do século XXI mais importantes não apenas da cidade, como de toda a Itália. Está localizado ao Sul do Palazzo delle Albere, no bairro residencial de mesmo nome. Foi projetado pelo renomado arquiteto italiano Renzo Piano, que assina obras como a Biblioteca Nacional da Grécia, a expansão do Instituto de Arte em Chicago, a nova sede do The New York Times, entre vastíssimo portfólio arquitetônico espalhado pelo mundo todo. É inaugurado em 2013, com cinco pisos e cerca de 20 salas de exposição, dividindo-se em diversas áreas relacionadas ao conhecimento biológico e científico; além de uma belíssima vista aérea de Trento, no quinto andar.

Visão Panorâmica do MUSE, Museu de Ciência de Trento, desenhado pelo arrojado arquiteto italiano Renzo Piano. Foto: isaac74

Visão Panorâmica do MUSE, Museu de Ciência de Trento, desenhado pelo arrojado arquiteto italiano Renzo Piano. Foto: Isaac74

Piazza Fiera – a Piazza Fiera é também centro histórico importante para conhecer alguns edifícios importantes na cidade, como a Chiesa di Sant’Apollinare, onde se podem ver lápides datadas do período romano do Imperador Augusto, por exemplo. Ou ainda caminhar pelas ruas estreitas de Sant’Apollinare até o Mausoléu de Cesare Battisti, para apreciar mais uma oportunidade de vista panorâmica de Trento. Como no restante de seu território, a Piazza oferece um pouco de uma síntese histórica extremamente relevante ao visitante, sendo, ela mesma, uma metonímia das ocupações humanas ao Norte da Itália.