Caravaggio é celebrado como um dos maiores nomes da pintura de todos os tempos, criador de um estilo único e inconfundível que influenciou gerações de artistas. Mas as cores e tons intensos e plenos de contraste não foram uma caraterística só dos seus quadros: artista do gênio forte, o pintor teve uma biografia difícil e conturbada, constelada de agressões e escândalos. Conheça melhor a história de Michelangelo Merisi, o Caravaggio.

Retrato de Caravaggio feito por Ottavio Leoni, dez anos após a morte do pintor. Foto: Wikipedia (domínio público).

Os primeiros anos

Caravaggio nasceu em Milão em 1571 e foi batizado com o nome de Michelangelo Merisi. Ainda pequeno, fugindo da peste que assolava a cidade, foi morar com a família na pequena cidade de origem dos pais, chamada Caravaggio: daqui o apelido com o qual o garoto se tornaria em seguida famoso. A terrível peste daqueles anos não poupou nem seu avô nem seu pai, que vieram a falecer. Devido à apertada situação financeira, poucos anos depois, Caravaggio voltava a Milão, mandado pela mãe, para trabalhar como ajudante na oficina de um pintor, contribuindo dessa forma com a renda da família: o garoto tinha então 13 anos de idade.

Desse primeiro período de aprendizagem não temos muito relatos, exceto que Caravaggio já demonstrava os primeiros sinais de “extravagância” e “impetuosidade” que caracterizariam toda a sua biografia. Mas deve ter sido um período também muito intenso e profícuo artisticamente: quando “reaparece” nas crônicas alguns anos depois, em Roma, Caravaggio não só domina a técnica do pintar, mas já manifesta aquele seu estilo original e peculiar que revolucionaria a pintura de toda uma época.

Crucificação de São Pedro (1601), abrigado na Igreja de Santa Maria del Popolo na homônima Piazza del Popolo em Roma. Foto: Wikipedia (domínio público).

O estilo único e revolucionário

A maior inovação de Caravaggio está no seu modo naturalístico, e quase cru, de representar seus personagens, algo que causou grande escândalo e balbúrdia na época. As pessoas, até então, estavam acostumadas a contemplar na pintura as cenas perfeitas e idealizadas típicas do Renascimento, com seus grandes personagens heroicos e até mesmo divinos – mas Caravaggio rompe bruscamente com essa tradição: nos seus quadros aparecem personagens velhos, pobres ou deturpados na pele de grandes santos do Cristianismo, assim como prostitutas e miseráveis no papel de mulheres importantes na história da Igreja.

Leia também SIMONETTA VESPUCCI, A VÊNUS DE BOTTICELLI

Deposição de Cristo (1604), abrigada na Pinacoteca do Vaticano em Roma. Foto: Wikipedia (domínio público).

Essa escolha artística de Caravaggio não era uma simples ostentação a fins de escândalo, mas sim uma tomada de posição em relação à função da pintura. Por exemplo: repare como nas obras de Caravaggio as roupas que os personagens da Bíblia vestem são aquelas da sua época, do século XVI, e não as vestes de uma antiguidade bíblica remota e idealizada. Caravaggio dessa forma atualiza e traz para o presente, para a sua época, os grandes acontecimentos da religião, repudiando qualquer vã idealização, mostrando-os na sua verdade nua e profunda. Um ótimo exemplo a propósito é o quadro Vocação de São Mateus:

La vocazione di San Matteo, abrigada na igreja San Luigi dei Francesi, perto de Piazza Navona. Foto: Wikipedia (domínio público).

A famosa cena do chamado de Mateus narrada no Evangelho é transferida para uma taverna do século XVI, como mostram as roupas dos personagens, bem diferentes das belas túnicas com as quais os santos eram geralmente representados durante o Renascimento. Jesus entra na taverna e convoca seu novo apóstolo; Mateus, todavia, sequer parece notá-lo: cobrador de impostos, continua a contar curvado as moedas sobre a mesa, enquanto seus companheiros de taverna parecem surpresos que Jesus tenha vindo chamar um deles. Caravaggio, com uma escolha genial, preferiu representar não a conversão de Mateus, mas o instante imediatamente anterior: o segundo precedente ao momento em que Mateus levantará a cabeça e, como sabemos, mudará para sempre de vida. Mas no quadro, Mateus nos aparece na sua nua humanidade – humanidade que poderia ser a de qualquer contemporâneo de Caravaggio, encontrado numa taverna.

A incredulidade de São Tomé de Caravaggio
A incredulidade de São Tomé, abrigado hoje em dia na Bildergalerie em Potsdam. Foto: wikipedia (domínio público).

Um estilo tão pessoal e revolucionário encontrou certamente muitos difamadores, mas encontrou também não poucos patronos, principalmente em Roma, que apoiaram e mantiveram financeiramente Caravaggio, encomendando-lhe numerosos quadros, à medida que sua fama crescia: dentro de poucos anos, o pintor se tornou uma espécie de lenda viva, influenciando gerações e gerações de artistas, italianos e europeus.

Leia também O DAVID DE MICHELANGELO, GLÓRIA DE FLORENÇA!

Natividade com São Lourenço e São Francisco de Caravaggio
Natividade com São Lourenço e São Francisco, infelizmente, roubado em 1969, continua desaparecido. Foto: Wikipedia (domínio público).

A personalidade complicada

Mas a fama e as importantes encomendas não só não acalmaram, como parecem até mesmo ter atiçado ainda mais a já irascível índole de Caravaggio: os episódios de alvoroços e brigas se tornavam cada vez mais frequentes e violentos. Em 1601, aos trinta anos, o pintor foi preso após agredir com um bastão um jovem da nobreza; solto após alguns meses, foi condenado de novo, dois anos depois, por difamação de um outro pintor. Mas o fato mais grave, que mudaria para sempre a vida de Caravaggio, aconteceria dali a pouco, em 1606.

Judite e Holofernes de Caravaggio
Judite e Holofernes, abrigada no Palazzo Barberini em Roma. Foto: Wikipedia (domínio público).

Em uma briga violenta, durante um jogo em Roma, com um seu antigo rival amoroso, Caravaggio acabou por causar-lhe uma ferida que o levou à morte. A pena era grave: Caravaggio foi condenado à decapitação, que poderia ser executada por qualquer cidadão que o reconhecesse pelas ruas. O pintor, ajudado por um de seus mecenas, conseguiu escapar para Nápoles e, em seguida, para Malta e para a Sicília. Todavia, mesmo tendo fugido à pena, o medo de poder ser reconhecido a qualquer momento e decapitado se tornou para Caravaggio quase uma obsessão: muitos quadros desse período apresentam cabeças cortadas, algumas das quais são até mesmo autorretratos do pintor, como no seu famoso David:

Davi com a cabeça de Golia de Caravaggio
David con testa di Golia, hoje na Galleria Borghese em Roma: a cabeça de Golias é um autorretrato de Caravaggio. Foto: Wikipedia (domínio público).

Os últimos e conturbados anos de Caravaggio

Alguns anos depois, em 1610, chegou notícia a Caravaggio de que o papa Paulo V (da família Borghese, ricos colecionadores de arte) estava preparando a anulação da sentença de morte em troca de alguns de seus quadros. O pintor, mesmo muito doente, logo decidiu embarcar rumo à Roma, no quente verão italiano. Seu plano de fazer escala e aguardar a revogação da sentença no pequeno feudo de um de seus mecenas, todavia, não deu certo: a guarda costeira o deteve, e o barco, com seus preciosos quadros, foi obrigado a prosseguir a viagem. Caravaggio, já muito adoecido, e ainda mais debilitado pela viagem, tomado pelo desespero de perder os quadros com os quais reconquistaria finalmente sua liberdade, poucos dias depois acabou falecendo.

O Sacrifício de Isaac de Caravaggio
O Sacrifício de Isaac, abrigada na Galleria degli Uffizi, numa seção dedicada a Caravaggio. Foto: Wikipedia (domínio público).

Morria assim Caravaggio, um dos maiores pintores de todos os tempos. Uma personalidade forte, impetuosa, demolidora que permeou sua vida, bem como seus quadros. O estilo de Caravaggio é inconfundível: um fundo escuro, iluminado por uma luz repentina, faz com que os personagens de seus quadros pareçam atores sobre um palco, vistos no momento culminante da ação. Essa é a maior virtude da pintura de Caravaggio: conseguir reencenar no teatro de suas telas, sem o filtro da idealização, a força grandiosa e profunda das ações humanas.


Por Yuri Borges Loyola
Foto de capa: Os Trapaceiros (1594), uma das primeiras obras de Caravaggio, hoje abrigada no Kimber Art Museum nos EUA. Wikipedia (domínio público).