Para os Italianos, Natal significa presépio!

Há duas coisas que, no período natalino, não podem faltar em qualquer casa da Itália: a árvore e o presépio. Abrigar em seu próprio lar a representação da Natividade doa às famílias italianas alegria e orgulho, desperta entusiasmo e acalenta os corações.

Há quem faça presépios singelos, com apenas algumas estatuetas postas em cenários muito simples, e há quem dê vazão ao seu talento artístico e constrói representações repletas de personagens, ricas em detalhes e com até efeitos especiais. Em todo caso, a preparação do presépio é vivida como um verdadeiro momento de festa, que reúne todo mundo e conta com a colaboração de grandes e pequenos!

De onde vem essa bela tradição de montar o presépio?

A narração oficial atribui a invenção do presépio a São Francisco de Assis, o qual pela primeira vez na história encenou a Natividade de Jesus. No texto a seguir você descobrirá que se trata de uma interpretação correta, mas incompleta, pois a história do presépio tem origens muito mais remotas.

Faremos uma viagem fascinante à descoberta de uma tradição milenar onde crônica e mito, fatos e lendas se misturam, dando vida a um legado histórico, cultural e espiritual que marca profundamente a tradição popular italiana. 

Presépio caseiro
Presépio caseiro. Foto: Angelafoto de Getty Images Signature / Canva

As estátuas das divindades de proteção do lar doméstico

A representação de divindades por meio de estatuetas é um hábito muito antigo, praticado já fora do Cristianismo: por exemplo, entre os antigos Egípcios e os Gregos. Os grandiosos monumentos em homenagem aos deuses expostos nos templos romanos, não impediam o homem comum de fazer as suas próprias representações para serem guardadas nos átrios das casas. Essas estatuetas eram colocadas em altares dedicados aos Lares, as divindades tutelares do lar doméstico.

Na Itália, o culto cristão das estátuas provavelmente foi trazido pelos monges orientais da ordem de São Basílio, expulsos, juntamente com os artesãos que produziam essas figuras, pelo imperador iconoclasta Leão III, que se opunha ao culto das imagens sagradas.

Lar romano de bronze do I século.
Lar romano de bronze do I século. Foto: Luis García / Commons Wikimedia (domínio público).

A importância da Natividade para os primeiros Cristãos

As primeiras representações da Natividade remontam aos primórdios da era cristã: os seguidores de Cristo costumavam esculpir ou pintar as cenas do nascimento do Mestre em seus pontos de encontro, como, por exemplo, as catacumbas. E é justamente nas catacumbas de Santa Priscila, em Roma, que encontramos o primeiro afresco, que chegou até nós, que retrata Nossa Senhora com o menino Jesus no colo enquanto o apresenta para os Magos. Ao lado dela está um homem, talvez São José ou o profeta Isaías, enquanto uma estrela de oito pontas aparece no topo. Estamos no século II d.C.. Nos anos seguintes, até o século V, encontramos muitos afrescos em catacumbas que representam Natividades ou Epifanias semelhantes.

Natividade Catacumbas de Santa Priscila – Roma.
Natividade Catacumbas de Santa Priscila – Roma. Foto: Foto: KAI40 / Commons Wikimedia (domínio público).

A Natividade: o conto dos evangelistas

Você já se perguntou quais foram as referências que os artistas dos primeiros séculos utilizaram para representar a Natividade? De ele onde pegaram as informações necessárias?

A fonte principal, sem dúvida, foi constituída pelas narrações do nascimento de Jesus que se encontram nos dois evangelhos canônicos – ou seja, oficiais, aprovados pela Igreja – o de Mateus (que informa sobre o nascimento de Jesus em Belém no tempo do rei Herodes e narra a visita dos Magos: Mt. 2, 1-12) e o de Lucas. Esse evangelista, em particular, relata o nascimento “sofrido” de Jesus com a improvisação de uma manjedoura em lugar do berço, a anunciação dos anjos aos pastores e a consequente homenagem dos mesmos a Jesus (Lc. 2, 1-20). Por outro lado, os demais dois evangelistas canônicos, Marcos e João, nada referem sobre o nascimento de Cristo.

Maria, mãe primorosa ou adoradora devota?

Por que, na representação clássica da natividade que todos nós conhecemos, Maria e José aparecem ajoelhados ao lado de seu filho? Afinal, não é essa a posição que os pais costumam assumir perante seu menino de ouro!

Pois bem, do século III ao XIII a grande maioria das representações da Natividade em baixo-relevo existentes na Itália mostram a Virgem deitada, raramente sentada, ao lado do Menino que repousa na manjedoura. Era, essa, uma imagem típica da Igreja Oriental, que ressaltava a humanidade de Maria, retratada com uma mãe doce e carinhosa que cuida da sua joia rara. Exemplos disso são:

  • o baixo-relevo do sarcófago de Adelphia e Valerio (do século IV d.C.) atualmente conservado nu museu Paolo Orsi de Siracusa, na Sicília, que alguns estudiosos apelidaram de primeiro presépio do mundo;
Baixo-relevo do sarcófago de Adelphia e Valerio.
Baixo-relevo do sarcófago de Adelphia e Valerio. Foto: Davide Mauro / Commons Wikimedia (domínio público).
  • o presépio esculpido em marfim, provavelmente realizado em Constantinopla por volta de 546 d.C., que faz parte dos painéis decorativos da cátedra episcopal de Massimiano, primeiro arcebispo de Ravenna, e que pode ser admirado na Catedral da mesma cidade;
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Detalhe do presépio em marfim esculpido na cátedra episcopal de Massimiano – Ravenna. Foto: Canva
  • e o presépio esculpido em 1268 por Niccolò Pisano no púlpito da Catedral de Siena.
Presépio esculpido em 1268 por Niccolò Pisano. Foto: Canva

Somente a partir do século XIII, com a afirmação do culto mariano, graças às elaborações teológicas de São Tomás e São Boaventura, se acreditou que o nascimento de Jesus da Virgem não poderia ser representado como o de um mortal comum: desde então Maria e José foram representados ajoelhados, adorando seu filho-Deus. As figuras que haviam encontrado espaço ao lado da “Sagrada família” desapareceram: foram retiradas as parteiras, a lactante e outros personagens que, até então, haviam encontrado espaço na Natividade. De certa forma, a retratação da Natividade perdeu um pouco de realismo em prol de seu significado teológico.

Natividade de Piero della Francesca.
Natividade de Piero della Francesca. Foto: Commons Wikimedia (domínio público).

Os infiltrados!

Em todas as representações da Natividade que se sucederam desde os primeiros séculos, há duas presenças constantes: um boi e um burro, postos ao lado do menino Jesus. O que esses dois animais têm a ver com o nascimento de Cristo? Porque ocupam a cena do evento mais importante do Cristianismo, sendo que deles não tem menção nem no texto do evangelista Mateus nem no de Lucas?  A presença do boi e do burro é narrada no evangelho apócrifo – do grego ἀπόκρυφος, ou seja, escondido: um evangelho não reconhecido oficialmente pela Igreja – chamado de Pseudo-Mateus, no qual lemos:

Maria […] foi até o estábulo e colocou a criança numa manjedoura, e um boi e um burrico o adoraram. Então aquilo que foi dito através do profeta Isaías se cumpriu: “O boi conhece seu proprietário e o burrico a manjedoura de seu senhor”. Estes animais, tendo-o no meio deles, o adoravam sem cessar.

Assim, aquilo que foi falado através do profeta Habacuque se cumpriu: “Tu serás conhecido entre os dois animais”.

É muito provável que as primeiras comunidades cristãs tenham se inspirado nesse texto para representar o nascimento de Jesus. E pouco importa que, no parecer unânime dos estudos,  o autor do Pseudo-Mateus, ao querer incluir o boi e o burro na Natividade, tenha se equivocado nas citações bíblicas. A referência ao profeta Habacuque, que mais explicitamente vincula os dois animais ao momento do nascimento de Cristo é incorreta: o autor do texto apócrifo utilizou a versão grega – chamada de “Bíblia dos Setenta” – do Antigo Testamento, mas a mesma continha em erro de tradução. O texto hebraico original fala de “idade, anos”, não de “animais” e de fato nas traduções modernas da Bíblia o versículo do profeta é: “manifeste-o, faça-o conhecido com o passar dos anos”.

Os supostos animais de Habacuque teriam se tornado um boi e um burro graças à outra citação, a do terceiro versículo do primeiro capítulo do livro do profeta Isaías. Nesse caso, o erro do autor do “pseudo-Mateus” não é de tradução, mas sim de interpretação: aquela passagem é parte de uma descrição da ira de Deus contra o povo de Israel que reclama de não ser adorado da maneira correta. É um trecho, portanto, que não faz parte das profecias sobre a chegada de um Salvador: a sua citação, referida ao nascimento de Jesus, é totalmente fora do seu contexto originário.

A Natividade Mística de Sandro Botticelli – National Gallery de Londres. Foto: Commons Wikimedia (domínio público).

Infiltrados sim, mas com dignidade!

Resta o fato, todavia, que na tradição cristã o boi e o burro nunca mais deixaram de ocupar o lugar que lhes foi designado ao lado de Jesus! Isso não deve nos surpreender, se considerarmos que o boi sempre foi um animal sagrado na Ásia Oriental e na Grécia, onde também era sacrificado nos altares dos templos. Ele simboliza um carácter forte, mas submisso, justamente como deveria ser o povo dos futuros Cristãos: fiéis ao seu mandato até ao sacrifício da própria vida. O burro também é um animal importante no Oriente Médio e no contexto das narrativas bíblicas: Dionísio e seus seguidores o montavam; na Grécia ele era sacrificado no recinto sagrado de Delfos; no Livro dos Números, que faz  parte do Antigo Testamento, ele é conhecido como o animal que entende a Deus mais do que os homens (Números 22,22); enfim, o próprio Cristo entrou em Jerusalém montado em um asno branco (Mateus 21,2).

Detalhe da obra A entrada de Jesus em Jerusalém, de Duccio di Bonisegna. Foto: Commons Wikimedia (domínio público).

Magos, Rei magos ou… quem são esses caras?

Outros personagens que ocupam a cena da Natividade são os misteriosos Magos. Eles eram em quantos? De onde vinham? Como se chamavam? O evangelista Mateus limita-se a mencionar “alguns Magos” que “vieram do Oriente” e os dons que eles trouxeram (Mt. 2, 1-12), mas não nos fornece nenhuma outra informação. Mais uma vez, é um evangelho apócrifo que se encarrega de passar mais detalhes: o assim chamado “Evangelho da Infância Armeno” fixa o número dos magos em três, os define como reis – daí, o costume de chamá-los de Reis Magos – e relata até seus nomes:

eis que os Magos do Oriente, os quais haviam saído da sua terra para marchar junto com muitas pessoas, chegaram à cidade de Jerusalém [para conferir com Herodes], após nove meses. Esses Reis dos Magos eram três irmãos: o primeiro era Melchior, reis dos Persas, o segundo Gaspar, Rei dos Índicos, e o terceiro era Baltazar, rei dos Árabes.

Como assim: três reis irmãos? E com poderes mágicos? Seja como for, a tradição popular adorou esses personagens e quis ver neles os símbolos das três idades do homem – juventude, maturidade e velhice – e das três raças até então conhecidas – a branca, a amarela e a negra (o que explica porque Baltazar tradicionalmente é retratado como negro) – que homenageiam a Jesus.

Os Magos foram ganhando um papel cada vez mais importante nas representações da Natividade e ainda hoje as estatuetas deles são tradicionalmente postas no presépio no dia da Epifania, em 6 de janeiro, em que os Cristãos justamente comemoram a chegada dos misteriosos personagens a Belém.

A Adoração dos Magos, de Andrea Mantegna. Obra conservada no Getty Museum, em Los Angeles.
A Adoração dos Magos, de Andrea Mantegna. Obra conservada no Getty Museum, em Los Angeles. Foto: Commons Wikimedia (domínio público).

O presépio, uma ideia genial de São Francisco

A história das reproduções do nascimento de Jesus registra um divisor de águas na noite de Natal de 1223, quando São Francisco, que se encontrava no vilarejo de Greccio, a poucos quilômetros de Assis, teve a ideia de encenar a Natividade.

Foi assim que o Santo pediu permissão ao Papa Honório III, o qual concedeu a possibilidade de fazer uma celebração ao ar livre. São Francisco, com a ajuda de seu amigo Giovanni Velita, senhor de Greccio,  escolheu uma gruta situada nas proximidades do centro habitado e pôs nela uma manjedoura cheia de palha, com um boi e um burro ao lado. Os camponeses da cidade correram para a caverna, os frades com tochas iluminaram a paisagem noturna e dentro da gruta foi celebrada a Missa solene de Natal.

São Franciso – que não presidiu a celebração, pois ele não era sacerdote – fez a pregação e utilizou justamente a encenação para descrever ao simples povo de Greccio, a maioria analfabeto, a Natividade.

As hagiografias relatam que, durante a celebração, na manjedoura teria milagrosamente aparecido um bebê em carne e osso, que Francisco teria acolhido em seu colo.   

A gruta da Natividade - Santuário de Greccio.
A gruta da Natividade – Santuário Franciscano de Greccio. Foto: Christopher John SSF | Stroud / Commons Wikimedia (domínio público).

Um estábulo ou uma gruta?

Por que o “Poverello di Assisi” (pobrezinho de Assis) escolheu uma gruta? Até então, a grande maioria das representações da Natividade no Ocidente cristão contextualizavam o nascimento de Jesus em um estábulo. Sendo que o evangelho de Lucas menciona a manjedoura – da qual deriva o próprio termo presépio, da palavra latina praesepium o praesaepe, que quer dizer justamente manjedoura – deduziu-se que Cristo tivesse nascido em um estábulo.

Presépio ambientado em estábulo.
Presépio ambientado em estábulo. Foto: ©lukbar | Getty Images / Canva.

No ano anterior à representação de Greccio, porém, Francisco havia estado na Palestina e tinha conhecido, em Belém, o lugar que, em 404, São Girolamo havia identificado como a gruta onde Jesus teria nascido. Na tradição cristã oriental, de fato, desde o início acreditava-se que o nascimento de Cristo tivesse acontecido em uma caverna, principalmente porque é isso que relatavam alguns evangelhos apócrifos, entre eles o Proto-Evangelho de Thiago e o já citado Evangelho da Infância Armeno.

São Francisco ficou muito impressionado pelo que ele viu e quando, no ano seguinte, se encontrou em Greccio, achou que a morfologia daquele território, rico de grutas aos pés da montanha, tivesse muitas semelhanças com Belém. Por isso escolheu justamente uma caverna nos arredores do vilarejo para representar ao vivo o nascimento de Jesus.

Gruta subterrânea em Belém.
Gruta subterrânea em Belém. Foto: Canva

O presépio ganha fama!

O episódio de 1223, magistralmente pintado por Giotto no ciclo de afrescos sobre a vida de São Francisco na Basílica Superior de Assis – embora o grande pintor contextualize o evento dentro de uma igreja – teve grande ressonância, ao ponto de incentivar a reprodução da Natividade seja com estátuas, seja ao vivo.

Presépio de Greccio
Presépio de Greccio (1295-1299 cerca), afresco de Giotto di Bondone – Basílica Superior de São Francisco de Assis. Imagem: Commons Wikimedia (domínio público).

Se aceitarmos a definição de presépio como representação tridimensional e cênica do nascimento de Jesus, podemos, sim, afirmar que o inventor dele foi São Franciso.

Entram em cena as estátuas

A primeira realização documentada de um presépio com estátuas remonta a 1283, quando o célebre artista e arquiteto Arnolfo di Cambio (cerca de 1240 – 1302) esculpiu oito figuras em mármore representando os personagens da Natividade. Este presépio se encontra ainda hoje na Basílica romana de Santa Maria Maggiore. Ele foi encomendado pelo primeiro papa franciscano, Niccolò IV (1288-1292), que era particularmente devoto ao culto da Natividade.

Do conjunto original hoje permanecem São José, o boi, o burro e os três magos, estátuas entre cinquenta e oitenta centímetros de altura feitas principalmente em alto relevo e trabalhadas apenas na parte visível, como era a prática de Arnolfo. Maria e o Menino Jesus foram reconstruídos do zero no século XVI.

Presépio de Arnolfo di Cambio, Basílica de Santa Maria Maggiore - Roma.
Presépio de Arnolfo di Cambio, Basílica de Santa Maria Maggiore – Roma. Foto: Stefano Bolognini / Commons Wikimedia (domínio público).

A partir desse momento, os presépios passaram a ser compostos por grandes figuras em mármore, madeira ou terracota, colocadas permanentemente em uma capela e expostas durante todo o ano. Foi assim até o final do século XVI.

E os pintores, ficam atrás?

Contemporaneamente, o tema da Natividade se faz cada vez mais presente na arte pictórica e todos os grandes artistas dos séculos XIII ao século XVII – como Giotto, Botticelli, Piero della Francesca, Perugino, Correggio, Rembrandt, Poussin e Rubens – se encarregam de retratar o evento mais importante da fé cristã. Podemos afirmar que todo grande artista se sentia, de certa forma, desafiado a deixar à posteridade a sua interpretação pessoal do nascimento de Jesus.

A Adoração dos Pastores, obra-prima do pintor italiano Correggio.
A Adoração dos Pastores, obra-prima do pintor italiano Correggio. Foto: Commons Wikimedia (domínio público).

A Natividade na vida do povo!

No início do século XVI, às figuras clássicas do presépio foram acrescentados outros elementos da vida popular: lojas, tabernas, moinhos, casas e gente comum como vaqueiros, lavadeiras, ferreiros, pescadores, músicos, lenhadores, padeiros, sapateiros, etc., retratados nas mais variadas poses e expressões. Isso se deve principalmente à obra de San Gaetano Thiene (1480 – 1547), que teve a ideia de enriquecer a Natividade com personagens do mundo antigo e contemporâneo. Desse modo, o santo deu vida ao que continuaria a ser uma das principais características do presépio atual: sua atemporalidade. Com razão, Gaetano Thiene pode ser considerado o inventor do presépio moderno.

Detalhe de um presépio napolitano.
Detalhe de um presépio napolitano. Imagem: ©onairda | Getty Images / Canva.

O presépio como resposta a Lutero

Outro significativo impulso para a prática do presépio veio do Concílio de Trento, que terminou em 1563: em reação à Reforma Protestante, o Concílio estabeleceu regras precisas sobre o culto dos santos e as relíquias e indicou oficialmente o presépio como uma importante expressão da tradição religiosa popular. Todas as comunidades cristãs, portanto, foram convidadas a fazer o presépio, visto como instrumento direto e genuíno de transmissão da fé. O convite se estendia às famílias mais abastadas.

Nápoles, a capital do presépio!

O verdadeiro salto de qualidade na construção do presépio deu-se sobretudo em Gênova e em Nápoles, onde, entre os séculos XVII e XVIII, a representação da Natividade se tornou uma verdadeira forma de arte.

A partir deste período, nessas cidades o presépio começa a sair das igrejas para entrar nas casas patrícias e da alta burguesia, como objeto de adoração e muitas vezes de decoração.

Os artistas napolitanos, em particular, deram vazão a toda a sua criatividade, aumentando enormemente a introdução de personagens da vida cotidiana, representados especialmente no ato de trabalhar.

Atingiram-se níveis expressivos muito originais e adornaram-se as estátuas, feitas de madeira ou terracota trabalhada a mão, com tecidos requintados e joias preciosas. As famílias competiam para contratar os artistas mais importantes e mostrar o presépio mais requintado, ao qual dedicavam um inteiro cômodo de suas residências.

O presépio genovês também adquiriu grande prestígio, com as estátuas de madeira, cerâmica ou papel machê colocadas em um cenário que reproduzia os becos do caraterístico centro histórico da cidade.

Presépio napolitano do século XVIII.
Presépio napolitano do século XVIII. Foto: Maria / Flickr

Vai com tudo!

No século XVIII assistimos a mais uma novidade: a transformação das estátuas, tanto no tamanho como no material. Das dimensões bastante grandes comuns a todo o século XVII, passa-se ao uso generalizado das assim chamadas “terzine”, ou seja, figuras com cerca de quarenta centímetros de altura. As estatuetas passaram a ser dotadas de membros feitos com arame cobertos com estopa, o que permitia qualquer tipo de pose dos personagens.

Apesar dos ventos de secularismo do Iluminismo, este foi o século de ouro para a arte do presépio napolitano, graças também a Carlos III de Bourbon, monarca mecenas que trouxe a cidade do Vesúvio de volta ao nível das maiores capitais europeias. O rei de Nápoles pretendia fazer do presépio um instrumento de propaganda religiosa e recebeu o consentimento incondicional da população. Ele próprio mandou fazer  um imenso presépio que ocupava alguns salões do palácio real, com centenas de personagens e grande atenção aos detalhes.

Presépio napolitano - Museu de Arte Sacra de São Paulo.
Presépio napolitano – Museu de Arte Sacra de São Paulo. Foto: Sailko / Commons Wikimedia (domínio público).

O presépio ganha animação

Ainda no século XVIII, começa a se difundir consideravelmente o presépio animado mecanicamente, com as estátuas que se movimentam para executar seus trabalhos ou homenagear o Menino Jesus. Não se trata, todavia, de uma novidade absoluta, pois o primeiro presépio mecânico da história havia sido realizado pelo alemão Hans Schlottheim, joalheiro e relojoeiro da Baviera, que em 1588 havia construído uma Natividade em que os pastores e os Magos desfilavam até chegar em frente ao Menino Jesus e o reverenciavam ao som de músicas natalinas, enquanto três anjos desciam acima de uma nuvem e o Pai Eterno aparecia improvisamente em uma esfera suspensa. Este presépio, construído para o Príncipe Cristiano da Saxônia, tornou-se tão popular que um exemplar semelhante foi enviado como presente ao imperador da China.

O presépio entra de fato nas casas dos Italianos

O presença do presépio em todos os lares teve sua consagração definitiva no século XIX, com a introdução de estatuetas menores, com cerca de 15-20 centímetros de altura e, em alguns casos, as roupas dos personagens eram realizadas com o mesmo material com o qual era construída a estátua: todas as famílias por ocasião do Natal começaram a montar um presépio em suas casas com estatuetas em gesso ou terracota, depois em plástico e outros materiais como cera, coral, papel machê e assim por diante, fornecidos tanto por artesãos especializados como pela produção industrial.

Esse hábito continua ainda hoje e o presépio de fato ocupa um lugar fundamental nas tradições natalinas dos Italianos. Crianças e adultos aguardam ansiosamente o dia 8 de dezembro – festa da Imaculada Conceição – para montar a representação da Natividade em sua própria casa. O momento mais solene é quando, na véspera do Natal, espera-se a meia noite para colocar o menino Jesus na manjedoura. Os Magos, segundo a tradição, entram em cena somente no dia 6 de janeiro, a festa da Epifania.

Como assim…. disputas sobre o presépio?

Nos dias atuais é ainda muito forte a cultura da exibição do presépio em cada igreja. Em alguns casos, trata-se de verdadeiras criações artísticas, obras-primas que requerem meses de trabalhos: estátuas em movimento, alternância dia-noite, simulação de chuva e neve e outros emocionantes e surpreendentes efeitos cénicos! Na região Marche, por exemplo, cinco paroquias da zona chamada de Val Metauro – Fano, Serrungarina, Montefelcino,  Mondolfo e Montemaggiore – competem entre si apresentando seus próprios presépios com peças em movimento, que ficam expostos até a Páscoa. Trata-se um evento que atrai milhares de visitantes e gera polêmicas infinitas sobre qual seria o presépio mais bonito.

Presépio de Fano. Foto: Canva

O presépio do Papa

Desde 1982, por decisão do Papa João Paulo II, um grande presépio é montado todos os anos na Praça de São Pedro. A tradição romana prevê também que as famílias levem à igreja a estatueta do Menino Jesus para receber a benção do padre antes de ocupar, na noite de Natal, o seu lugar na manjedoura.

Via San Gregorio Armeno em Nápoles

O protagonista absoluto obviamente continua sendo o presépio napolitano. No coração da cidade existe uma rua, dedicada a San Gregorio Armeno, totalmente ocupada por lojas de artesanato que durante o ano todo vendem estatuetas e cenários para o presépio. Numa extraordinária mistura de sagrado e profano, os napolitanos inserem em seus presépios figuras da tradição popular – como a máscara de Pulcinella e os atores Totò e Peppino de Filippo – e personagens contemporâneos como políticos, showman e esportistas, entre os quais ganha por destaque Maradona, ainda muito amado por ali.

Foto: Canva

Os presépios vivos

É também muito viva a prática dos presépios vivos, que são encenados em várias cidades da Itália! Entre os mais conhecidos, podemos citar o de Pietrelcina, na região de Puglia, do qual participam mais de 300 habitantes; o presépio de Costumaci, na Sicília, composto por 160 pessoas e ambientado na sugestiva gruta de Mangiapane; o presépio de Matera, local perfeito para representar a Belém de 2.000 anos atrás, que é animado por artesãos, músicos e pastores num percurso de cerca de cinco quilômetros; e o presépio de Genga, na região Marche, que se destaca por ser o maior do mundo: em um contexto natural extremamente sugestivo, 300 personagens – pastores, pescadores, camponeses, carpinteiros, padeiros, sapateiros, escultores e bordadoras – atuam em uma área de 30.000 metros quadrados com uma trilha que subindo a montanha conduz até a fascinante caverna natural dentro da qual se encontra a Natividade.

De volta às origens

Um capítulo à parte merece o presépio vivo em Greccio, onde tudo começou!

A partir de 1972, todos os anos ocorre uma reconstrução histórica do presépio criado por São Francisco. Os diálogos entre os personagens são extrapolados dos textos do primeiro biógrafo do Santo de Assis, Tommaso da Celano, e a representação se divide em 6 quadros: a cena se abre em 1246, com alguns frades que contam a vida de São Francisco em Greccio; se muda para 1223, primeiro em Roma com o Papa Honório III e depois em Greccio; e termina com o milagre do aparecimento do menino Jesus na manjedoura.

Cada detalhe é cuidado meticulosamente, desde os trajes da época, emprestados do Teatro dell’Opera de Roma, até a evocativa cenografia, que se torna ainda mais mágica pela beleza do lugar. A encenação do primeiro presépio da história é certamente um espetáculo extraordinário, único e emocionante!


Por Giacomo Cenci
Foto de capa: Angelafoto de Getty Images Signature / Canva