Carnaval na Itália: História, Tradições e Carnavais Regionais

O que é o Carnaval na Itália?

O Carnaval na Itália é uma celebração ligada ao calendário cristão e posicionada nas semanas que antecedem a Quaresma. Em termos históricos, ele se estrutura como um tempo socialmente reconhecido para a festa pública antes do período de contenção quaresmal. O termo carnevale costuma ser associado à expressão latina carnem levare, relacionada à retirada da carne no contexto das práticas alimentares durante os quarenta dias que antecedem a Páscoa. Essa origem lexical ajuda a compreender o lugar do carnaval no calendário, mas a sua importância cultural se formou sobretudo na cidade: nas ruas, nas praças, nos ritos coletivos e na teatralidade que cada região desenvolveu conforme sua própria trajetória.

Desde o século XIII, diversas cidades italianas registram celebrações carnavalescas em documentos e crônicas. Em muitas comunas medievais, o carnaval integrava a vida urbana com regras, calendários e práticas reconhecidas. Havia jogos públicos, cortejos, representações e, em certas regiões, o uso de máscaras com funções sociais específicas. O carnaval, nessa perspectiva, revela uma Itália profundamente urbana, na qual a cultura se organiza no espaço público: o centro histórico se converte em palco, e a comunidade se reconhece ao participar de formas compartilhadas de festa.

No Renascimento, as cortes e as elites urbanas passaram a patrocinar espetáculos, carros, encenações e performances com forte componente visual. Essa camada acrescentou refinamento teatral e uma estética mais elaborada em algumas cidades. A partir do século XIX, com mudanças políticas e administrativas, certos carnavais se reorganizaram em moldes associativos modernos, com comissões, fundações e calendários anuais de produção artística. Em paralelo, tradições rituais de matriz comunitária permaneceram vivas em áreas onde máscaras, gestos e personagens preservam continuidade cultural de longa duração.

O resultado é um mosaico: o Carnaval na Itália se expressa como conjunto de tradições regionais, cada uma com vocabulário próprio — máscara, sátira, batalha ritual, barroco, liturgia local, rito insular — e cada uma com modo particular de ocupar a cidade e narrar a própria memória.

Os 12 principais carnavais regionais da Itália

Carnaval de Veneza (Vêneto): máscara, anonimato e cidade-teatro

Carnaval na Itália em Veneza com traje tradicional Bauta veneziana
Grupo de amigos vestindo a tradicional Bauta veneziana — tricorno, tabarro e máscara (larva). Foto: Federicofoto / 123RF.

O Carnaval de Veneza recebeu reconhecimento oficial em 1296, quando o Senado da República declarou o dia anterior à Quaresma como festividade pública. Ao longo dos séculos, a celebração se expandiu e tornou-se uma das referências europeias de carnaval urbano. Veneza desenvolveu um repertório próprio de máscaras — Bauta, Moretta, Volto — que funcionavam como código social e como instrumento de circulação no espaço público.

A Bauta, em especial, é exemplar: sua forma permite falar e alimentar-se sem ser removida, favorecendo permanência prolongada do anonimato. O anonimato reorganiza relações sociais, amplia possibilidades de encontro e transforma a cidade em teatro permanente. Ao mesmo tempo, Veneza estruturou esse jogo por meio de normas: períodos autorizados, contextos permitidos e controles definidos por regulamentações. Assim, máscara e disciplina coexistem no mesmo fenômeno cultural, o que ajuda a explicar a sofisticação histórica do carnaval veneziano.

Após 1797, com a queda da República e as transformações políticas do período napoleônico, a celebração perdeu continuidade pública. Em 1979, o carnaval foi oficialmente retomado em formato organizado, recuperando referências históricas e consolidando a imagem contemporânea de Veneza como cidade em que a máscara se torna linguagem estética e cultural.

Carnaval de Roma (Lazio): tradição histórica e centralidade urbana

Roma possui tradição carnavalesca associada à centralidade de sua vida urbana e à sua posição política e religiosa. Registros se tornam especialmente visíveis a partir do século XV, com fortalecimento renascentista da cidade e maior ênfase em espetáculos públicos. A Via del Corso, eixo urbano central, tornou-se palco tradicional de corridas, desfiles e manifestações populares, integrando o carnaval ao ritmo da capital.

A história do carnaval romano atravessa transformações: mudanças administrativas, reorganizações urbanas e diferentes formas de enquadramento público conforme períodos políticos. Ainda assim, sua marca permanece ligada ao caráter de “cidade-cenário”, em que o espaço público concentra práticas festivas e a celebração ganha dimensão de rito urbano. Roma demonstra como o carnaval, na Itália, também se constrói como linguagem de cidade: ruas e praças adquirem papel cultural e simbólico no calendário.

Carnaval de Fano (Marche): antiguidade e participação direta

Carnaval na Itália em Fano com desfile e lançamento de doces durante o getto
Representação ilustrativa do Carnaval de Fano, conhecido pelo tradicional “getto”, o lançamento de doces ao público durante os desfiles. Imagem gerada por inteligência artificial para fins editoriais.

O Carnaval de Fano é frequentemente citado entre os mais antigos da Itália, com referências medievais em crônicas e tradições locais. Ele preserva um elemento distintivo de grande valor antropológico: o getto, prática de lançar doces e pequenos objetos ao público durante os desfiles. O gesto cria interação direta e imediata entre quem desfila e quem assiste, reforçando participação coletiva como parte da estrutura do evento.

A dinâmica do getto também transforma a percepção do desfile: a rua não é apenas corredor para a passagem de carros, mas espaço compartilhado de troca. Fano integra tradição histórica e organização contemporânea, mantendo a festa como expressão de comunidade e como calendário urbano reconhecido.

Carnaval de Viareggio (Toscana): sátira monumental e técnica do papel machê

Carnaval na Itália em Viareggio com carro alegórico monumental durante desfile
Desfile do Carnaval de Viareggio, na Toscana, conhecido pelos carros alegóricos monumentais. Foto: Gagliardi Photography (licença via Canva).

Fundado oficialmente em 1873, o Carnaval de Viareggio nasceu em contexto moderno, quando a Itália já atravessava reorganização nacional. Sua identidade se formou em torno da sátira pública, transformada em escultura monumental por meio de carros alegóricos de grande escala. A técnica do papel machê, aperfeiçoada ao longo do século XX, permite volumes imponentes, formas expressivas e, em muitos casos, mecanismos articulados.

A sátira em Viareggio funciona como comentário social: figuras políticas, líderes internacionais, temas culturais e questões contemporâneas tornam-se matéria visual. O carnaval assume, assim, caráter cívico: a cidade expõe, debate e interpreta seu tempo por meio de arte pública efêmera. A organização associativa e institucional — com planejamento anual, regras e julgamento — reforça a dimensão técnica do evento e explica por que Viareggio se tornou referência de carnaval artístico na Itália.

Carnaval de Ivrea (Piemonte): memória medieval como rito cívico

Carnaval na Itália em Ivrea durante a Battaglia delle Arance
Battaglia delle Arance no Carnaval de Ivrea, Piemonte. Foto: Lupo – Associazione Aranceri Mercenari, CC BY-SA 2.5, via Wikimedia Commons.

Ivrea organiza seu carnaval em torno da Battaglia delle Arance, uma encenação coletiva associada à narrativa medieval de resistência popular. A tradição se estrutura por regras, equipes e papéis definidos. A cidade se divide em grupos identificados por cores, e a dinâmica do confronto entre participantes a pé e grupos em carroças obedece a regulamentações específicas.

Essa organização transforma o evento em rito cívico. A batalha funciona como linguagem de pertencimento, preserva memória coletiva e reforça identidade local por meio da performance. Ivrea mostra como o carnaval italiano pode se construir como ritual histórico: um acontecimento que se repete anualmente, estruturando a cidade em torno de uma narrativa compartilhada.

Carnaval de Castrovillari (Calábria): teatro popular e folclore regional

O Carnaval de Castrovillari, com referências históricas no século XVII e consolidação moderna como Carnevale del Pollino, integra teatro popular, cortejos e um forte componente folclórico. A celebração articula tradição regional e intercâmbio cultural, frequentemente com presença de grupos e manifestações que ampliam o alcance do evento.

Castrovillari expressa o carnaval como palco de tradição viva: a festa se organiza em torno de linguagem performática e comunitária, em que o território — a Calábria e a área do Pollino — aparece como matriz cultural. É um carnaval que valoriza a dimensão do encontro, do rito público e da preservação de formas expressivas regionais.

Carnaval de Acireale (Sicília): barroco, luz e elaboração artística

Carnaval na Itália em Acireale com carro alegórico artístico
Carro alegórico do Carnaval de Acireale, na Sicília. Foto: Effems – Opera propria, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Com registros desde o século XVII, o Carnaval de Acireale ocupa posição destacada na Sicília. Seu traço mais reconhecido está nos carros alegóricos elaborados e frequentemente iluminados, que dialogam com a sensibilidade estética barroca siciliana — uma cultura visual marcada por excesso formal, teatralidade e impacto cenográfico.

A preparação envolve associações culturais e trabalho prolongado de construção, com esculturas, estruturas e coreografias que acompanham os desfiles. Durante o período festivo, Acireale assume configuração de cidade-cenário: a experiência do carnaval se dá tanto no desfile quanto no ambiente urbano transformado por luz, som e ocupação contínua do espaço público.

Carnaval de Loano (Ligúria): litoral e sociabilidade comunitária

Carnaval na Itália em Loano com desfile temático pelas ruas da cidade
Desfile do Carnaval de Loano, na Ligúria, com temática ligada à tradição marítima da cidade. Foto: scrisman (licença via Canva).

Em Loano, pequena cidade costeira da Ligúria, o carnaval assume a escala da própria vida local. Não se trata de um grande evento turístico, mas de uma celebração organizada por associações e grupos da comunidade, que mobilizam moradores de diferentes gerações.

Os desfiles percorrem as áreas centrais próximas ao mar, ativando o eixo entre o centro histórico e o passeio litorâneo. Em cidades costeiras de menor porte, onde os fluxos se concentram em poucos espaços, o carnaval intensifica essa dinâmica: ruas, praças e orla tornam-se lugares de encontro prolongado, reforçando vínculos e visibilidade social.

Mais do que espetáculo, o carnaval de Loano funciona como ritual de coesão comunitária. A participação familiar, a presença constante das associações locais e a repetição anual do evento consolidam uma tradição ancorada na continuidade da vida cotidiana.

Carnevale Ambrosiano (Milão, Lombardia): calendário litúrgico singular

Milão possui particularidade importante: o Carnevale Ambrosiano segue o rito ambrosiano, tradição litúrgica própria da arquidiocese milanesa. Isso produz um calendário distinto, com encerramento do carnaval em data posterior ao restante do país. A diferença mostra como a Itália preserva diversidade religiosa interna, mesmo dentro de uma matriz cristã compartilhada.

O carnaval milanês integra desfiles, eventos culturais e ocupação do espaço urbano conforme esse ritmo litúrgico particular. A singularidade do calendário se torna, por si, componente cultural: o tempo da festa em Milão segue a identidade histórica da cidade.

Carnaval de Cento (Emilia-Romagna): desfiles estruturados e tradição técnica

Carnaval na Itália em Cento com carro alegórico durante desfile
Carro alegórico do Carnaval de Cento, na Emilia-Romagna. Foto: EvelinaRibarova, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

O Carnaval de Cento destaca-se por desfiles organizados e carros alegóricos de grande porte, com ênfase em planejamento e produção artística. Ao longo do século XX, consolidou intercâmbio cultural com outras tradições, ampliando projeção e reforçando sua identidade no panorama italiano.

A dimensão técnica — construção, coordenação, calendário — aparece como elemento estruturante. Cento compõe, com Viareggio, um eixo italiano em que o carro alegórico monumental e a organização associativa ganham centralidade.

Carnaval de Putignano (Puglia): continuidade e calendário prolongado

Putignano apresenta um dos carnavais mais antigos, com referências associadas a 1394 e à chegada das relíquias de Santo Estêvão. A celebração desenvolveu calendário prolongado e formas próprias de sátira e produção alegórica. Associações locais organizam a programação anual e a construção dos carros, mantendo a festa como parte do ciclo cultural da cidade.

Putignano evidencia como o Sul da Itália também preserva carnavais de longa duração com estrutura própria. A continuidade histórica se manifesta na repetição anual do calendário, na participação comunitária e na preservação da memória local como elemento central da festa.

Mamoiada (Sardenha): máscaras arcaicas e identidade insular

Carnaval na Itália em Mamoiada com Mamuthones usando máscaras tradicionais e sinos
Representação ilustrativa dos Mamuthones no Carnaval de Mamoiada, na Sardenha, conhecidos pelas máscaras escuras e pelos sinos cerimoniais. Imagem gerada por inteligência artificial para fins editoriais.

Na Sardenha, o carnaval assume dimensão ritual profunda. Em Mamoiada, as figuras dos Mamuthones e Issohadores utilizam máscaras e trajes tradicionais associados a práticas ancestrais.

Os Mamuthones vestem peles escuras e carregam sinos pesados nas costas. O desfile segue ritmo cadenciado e coreografia transmitida entre gerações. A presença dos Issohadores, com cordas simbólicas, complementa a estrutura ritual.

A celebração preserva identidade insular e continuidade cultural que antecede a unificação italiana. Em Mamoiada, o carnaval articula memória coletiva, simbolismo e transmissão comunitária de saberes.

A pluralidade do Carnaval na Itália

O Carnaval na Itália constitui um mosaico de tradições regionais consolidadas ao longo dos séculos. Ele reúne modalidades diversas: máscara como linguagem social em Veneza; centralidade urbana histórica em Roma; participação direta em Fano; sátira monumental em Viareggio; rito cívico em Ivrea; teatro popular em Castrovillari; barroco e elaboração artística em Acireale; sociabilidade litorânea em Loano; calendário litúrgico singular em Milão; técnica e organização em Cento; continuidade prolongada em Putignano; rito insular em Mamoiada.

O eixo comum está na ocupação simbólica do espaço público antes da Quaresma e na forma como cada cidade afirma sua memória coletiva por meio da festa. Assim, o Carnaval na Itália se revela como expressão cultural de longa duração: uma celebração que combina tradição religiosa e criatividade comunitária, preservando diversidade regional como parte de sua própria identidade.


Foto de capa: Paolo Motti (Pexels) — licença via Canva.

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