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Panorama de Cefaù - Sicília.

Uma Introdução Poética à Sicília

Regiões Italianas - 11/12/2018
Por Adrian Theodor
Foto de capa: Andrew Mayovskyy / 123RF

Gostaria de convidar você, hoje, não apenas para a organização de um roteiro de viagem, mas sim, a trilhar um caminho imaginário a um dos locais mais incríveis não apenas de toda a Itália, como de todo o mundo: a Sicília.

Diferentemente dos textos que costumo deixar aqui no Blog da Cenci Turismo, meu desejo íntimo aqui é conversar um pouco com você leitor sobre a história profunda e as paisagens naturais arrebatadoras desta ilha tão intensa quanto complexa. Conhecer a Sicília, para mim, é associar intimamente o itinerário turístico a uma viagem poética de retorno à própria origem da civilização humana. A Sicília é, mesmo sem pretender, para mim, a síntese da humanidade e seu contato com a terra.

Um pouco de História

A ilha da Sicília tem uma história milenar, que remonta ao período da Antiguidade Oriental, de ocupação anterior aos Fenícios do século IX a.C. Para nós brasileiros, descendentes da história da conquista portuguesa com um pouco mais de 500 anos e um abandono generalizado no que se refere às preocupações com ocupações anteriores a 1500, é bastante desafiador compreender como se formam identidades, sejam nacionais ou não, em territórios com relatos tão antigos quanto o próprio conhecimento histórico. Quando, por exemplo, na escola, aprendemos sobre as civilizações que deram origem ao Ocidente, sejam gregos, sejam romanos, tudo nos parece muito distante, quase abstrato. Entretanto, os sicilianos, mesmo a milênios de distância no tempo, fazem parte desta origem conflituosa do que denominamos Civilização Ocidental. Até porque já estavam ali, formando uma das identidades mais complexas não só da Itália, como do mundo inteiro, antes mesmo da Grécia existir.

Sucessivamente ocupados pelos Antigos sículos, fenícios, gregos, cartagineses, romanos; pelos Medievais vândalos, ostrogodos, bizantinos, árabes, normandos e aragoneses; pelos Modernos espanhóis, piemonteses e franceses; e, finalmente, pela própria Itália nortenha dos unificados Reinos de Piemonte e Sardenha, sob a força de Garibaldi; os sicilianos formam uma identidade carregadíssima de um senso de pertencimento à própria terra, rejeitando com veemência memorável qualquer interferência dominadora estrangeira. A própria unificação com a Itália, que acabamos de citar, é questionada hoje tanto quanto fora no século XIX, quando foi finalizada. Um siciliano, antes mesmo de se dizer italiano, assume a identidade da Sicília, mantendo-se fiel à sua resistência.

Ruína de templo grego

Paralelamente, construindo ambivalência extraordinária, o povo siciliano é amplamente afetuoso com o visitante estrangeiro. É como se, na mesma medida, as recorrentes mudanças de posse do território, tivessem marcado o povo siciliano (muito diverso entre si, vale ressaltar) com uma capacidade enorme tanto de resistência, quanto de convivência. Uma das experiências mais marcantes em nossa passagem no interior da Catânia, por exemplo, foi com camponeses locais, ávidos por compartilhar sua história, suas origens, relatos de memória, mesmo que a língua, muitas vezes, fosse um empecilho. Aliás, cabe já aqui uma dica valiosíssima: claro que ao estar na ilha, deve-se conhecer seus clássicos pontos turísticos – as praias de Taormina estão entre as mais belas de todo o mundo –, porém, invista parte de seu roteiro e de seu tempo em tentar contato com ao menos a história do povo local. Eu prometo que não irá se arrepender.

Rua comercial em Taormina

A linguística é, em si, uma questão complexa na ilha. O italiano, apesar de oficial e dominado pela quase totalidade da população siciliana, não é a única língua falada ali. O Arbëreshë, falado em Palermo, por exemplo, tem origem Albanesa; muito diverso não só do italiano, como do próprio siciliano, de origem românica, falado em toda a ilha, e muito comum ao sul. O que não impede, por outro lado, o siciliano em sua tentativa de se comunicar com o estrangeiro. O esforço é constante, e o resultado sempre muito rico. Mais uma vez, recomendo!

Identidade Siciliana

Como já dissemos, parte da formação identitária siciliana passa pela íntima relação com seu território. Apesar de tal afirmação parecer uma grande obviedade, afinal qualquer formação de identidade, mesmo que não nacional, passa pelo meio onde atua; na Sicília, a terra parece viva, personificada, muito mais do que paisagem, muito mais do que “aquilo que os sentidos alcançam”, segundo a definição dura da Geografia.

Detalhe do litoral siciliano

A linguagem literária siciliana guarda, com bastante força, esta intimidade entre seus personagens e o meio em que estão inseridos. Indivíduos ganham traços da aridez do território. O território é personificado, recebendo traços humanos. O Etna ganha vida, sentindo as emoções próprias de um humano grandioso, por exemplo. Esta relação dialética, em que o meio ambiente e o humano se interconectam, transformando-se em algo diverso e complexo, é uma marca das letras italianas originais da Sicília, seja em Pirandello, Sciascia ou Verga. Observe este trecho de “Pão Amargo”, escrito na transição do século XIX para o XX, de Giovanni Verga:

“Mas ela possuía uma nuca alva, como todas as ruivas, e, enquanto mantinha a cabeça baixa, com todos aqueles pensamentos dentro dela, o sol lhe dourava os cabelos cor-de-ouro, atrás das orelhas e as faces cuja pelugem era fina como a dos pêssegos. Santo olhava seus olhos azuis como a flor do linho e o peito lhe enchia o busto, ondulando tal qual a plantação”.

Vista aérea do vulcão Etna

Note como a descrição inicia tratando apenas da moça ruiva, que tem dentro dela pensamentos acumulados. E parece que o texto entrará em sua cabeça, nos mostrando, finalmente, que pensamentos seriam estes. Todavia, Verga, em um tom muito siciliano, inicia um diálogo entre as percepções do observador e as referências que ele teria à sua disposição, ou seja, o meio em que ele vive, como camponês siciliano. E a moça se transforma em sol, pêssego, linho, plantação. Além de ser uma das obras primas da literatura mundial, o texto de Verga encarna a belíssima tradição siciliana que associa intimamente seu povo à sua terra. E, viajar para a Sicília e ter a oportunidade de conhecer ambos, povo e terra, em uma simbiose tão tradicional quanto poética, é das oportunidades que não se pode deixar para trás em seu trajeto para o Velho País.

Conhecer a Sicília, em sua longa história, e em sua intimidade, é uma obrigação não apenas pelas praias mais bonitas do mundo, ou pelos inúmeros patrimônios da humanidade reconhecidos pela UNESCO localizados no interior de suas fronteiras, mas porque ela representa uma síntese da história da humanidade em si mesma. In a nutshell, como diriam os ingleses, se fosse possível sintetizar a história dentro de uma casca de noz, a Sicília nos serviria para entender de forma intensa as migrações humanas em toda a sua história, do Oriente ao Ocidente; assim como a complexa formação da identidade das civilizações humanas em seu íntimo contato com os limites de seu território.

Vista aérea de Taormina

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