Um roteiro incomum: o Inverno Toscano

Regiões Italianas - 20/11/2017
Por Adrian Theodor

A cada novo texto que escrevemos sobre a Toscana, percebemos o quanto é difícil preparar roteiros para esta Região da Itália, dada a imensa diversidade em sua natureza, culinária, enologia e, claro, história. Por isso, inclusive, este destino se repete tantas vezes em nossas idas ao Velho País e nas memórias deste Blog. No texto desta semana, trazemos, mais uma vez, opções de viagem para a Toscana, lembrando sempre o quão fácil pode ser deixar algo para trás. Espero que, assim como foi para mim, este trajeto dividido em três partes seja um deleite para os seus sentidos de viajante.

Monte Amiata

Localizado entre as Províncias de Grosseto e Siena, o Monte Amiata, antigo vulcão, hoje inativo, já apareceu em nosso Blog, como coadjuvante, em diversos de nossos textos sobre a Toscana. Destacamos a bela vista do Monte em nosso roteiro sobre Pienza, a partir da Via Dell’Amore, principalmente na primavera ou verão. Se ainda não leu este texto, é uma de nossas maiores recomendações em sua visita à magnífica Região da Toscana. Para acessar, clique aqui.

Todavia, destacamos hoje o Monte Amiata como ponto principal de um roteiro toscano invernal, tentando aproveitar o melhor que a Itália pode oferecer num período do ano nem sempre indicado pela maioria das agências de turismo.

Vista panorâmica do Monte Amiata

No inverno italiano, principalmente entre dezembro e janeiro, o Monte Amiata terá disponível ao visitante oito pistas de esqui, distribuídas entre cinco diferentes locais: La Vetta (ponto mais alto do Monte em que se consegue chegar de carro, a 1500 metros de altitude), Il Prato delle Macinaie, Il Prato della Contessa, Il Rifugio Cantore e Il Plan della Marsiliana.

Dica: as estâncias de esqui são acessíveis de carro, possuindo equipamentos disponíveis para a prática esportiva ou recreativa para locação. Indicamos, portanto, que, ao visitar os três pontos de nosso roteiro neste texto, use um carro alugado a partir de Siena.

Prática de esqui no Monte Amiata

Passeando por estes pontos nevados, o visitante terá duas opções principais: ou realizar uma visitação rápida, conhecendo tanto a beleza da maior floresta de Faia da Europa, vista de diferentes pontos, quanto a vista de Siena e do Mar Tirreno, proporcionada pela altitude de La Vetta, se o tempo permitir; ou efetivamente praticar recreativamente ou esportivamente as atividades relacionadas ao esqui. De qualquer maneira, acompanhe sempre o site do AMIATANEVE, para acompanhar a situação dos trajetos até os pontos de esqui indicados acima, assim como a abertura das estações, antes de montar seu roteiro. As estâncias variam em datas de abertura, conforme as condições do tempo.

Floresta de Faia que circunda o Monte Amiata na primavera

Dica: Se o seu objetivo é a prática do esqui em Amiata, recomendamos que adquira com antecedência o “SkiPass Amiata”, que garante acesso às estações de esqui. São vários os tipos de pacotes possíveis. É possível comprar o “passe” pessoalmente em uma das estações, mas recomendamos que planeje seu roteiro com antecedência, já incluindo estadia próxima ao Monte.

Para aqueles que gostam do inverno e da neve, mas não costumam praticar o esqui, no Monte Amiata é possível realizar outras atividades disponíveis. A partir do Rifugio Cantore existe a disponibilidade de uma caminhada sobre a neve, de cerca de 5 quilômetros, com guia especializado. Existem passeios disponíveis durante o dia e também de noite. Também por aqui é possível “sobrevoar” o Monte Amiata e a enorme floresta de Faia a partir de um teleférico. A vista é incrível, principalmente no inverno.

Monte Amiata no inverno

Abbadia San Salvatore

Ao sul do Monte Amiata, seguindo por mais ou menos 12 quilômetros pela Strada Provinciale Vetta dell’Amiata, encontraremos o Burgo denominado Abaddia San Salvatore, de origem medieval e, como já repetimos inúmeras vezes em nossos textos, um lugar tipicamente italiano em sua cuidadosa atenção com a própria história.

E, claro, por isso mesmo, sua visita por aqui não pode deixar de lado o centro histórico, construído desde a Idade Média, à sombra da Abadia de São Salvador, que dá nome ao burgo. Caminhe por entre as ruelas e suas casas feitas de pedra, observando atentamente como algumas portas conservam ainda os caracteres medievais. Em alguns pontos da caminhada, perceberá que é possível rever o Monte Amiata, assim como conseguir privilegiadas vistas do Val D’Orcia.

Rua de Abaddia San Salvatore

E como este é um roteiro de inverno, se programar sua visita para a época natalina, poderá observar as tochas acesas pelo Burgo, seguindo a tradição medieval de iluminação, proporcionando experiência única de algo como uma viagem no tempo. Bem no centro histórico, mesmo no frio, os locais se juntam para cantar em volta das tochas acesas, em uma tradição, talvez de origem pagã, que data desde antes do ano 1000 depois de Cristo.

Comemoração de Natal em San Salvatore

É evidente que seu passeio pelo Burgo não pode deixar para trás a Abadia de São Salvador, principal construção religiosa da localidade. Datada também do período medieval, de cerca de 750 d.C., a Abadia conserva até hoje afrescos que contam sua origem religiosa. O Rei Ratchis, de origem Longobarda (um dos povos germânicos que dividia o território da atual Alemanha), teria tido a visão fantástica de um abeto branco, o que ele considerou sagrado. Sua visão levou a construção da Abadia no mesmo território onde estaria localizada a planta. Os afrescos foram pintados no século XVI, por Francesco Nasini.

Abadia San Salvatore

A Abadia conserva também uma cripta (construção subterrânea responsável por abrigar os clérigos mais importantes de uma região, após a morte), com 32 colunas diferentes entre si. Todavia, o que chama mais a atenção é a cópia manuscrita mais antiga da Bíblia, a Bíblia Amiatina, datada do século VII. Mesmo para os espíritos não religiosos, a visão de um texto tão antigo e que até hoje carrega um simbolismo tão expressivo entre os seguidores do cristianismo, é historicamente muitíssimo relevante. E, sem dúvida, vale a visita.

Também é possível visitar o Museo Minerario di Abbadia, que aproveita os veios da antiga exploração do cinábrio, sulfeto de mercúrio, utilizado para a extração justamente deste raro metal líquido, para proporcionar um passeio por entre as artérias subterrâneas de San Salvatore. A visita é guiada por um minerador aposentado, que acaba relatando parte de sua própria biografia de trabalho braçal. É uma experiência importante não apenas pela oportunidade de olhar o Burgo por dentro, mas para conhecer histórias de vida tão ricas e emocionantes.

Termas de San Filippo

Ao Sul do Val D’Orcia, na parte oriental do Monte Amiata, seguindo pela Strada Provinciale Vetta dell’Amiata por mais 10 quilômetros, está localizada a Comuna de San Filippo, destino termal desde os tempos das ocupações etruscas ou romanas. Apesar de ainda pouco conhecido pelos turistas brasileiros, os Bagni San Filippo são destino muito frequentado pelos italianos, em todas as estações do ano.

Na Antiguidade Romana e na Idade Média, os banhos de San Filippo eram muito utilizados com fins curativos e, até hoje, são explorados com esta finalidade. Dar uma volta por entre os banhos públicos ou privados é, também, navegar pela própria história do lugar, que se manteve conservado em sua estrutura e aparência até os dias de hoje. É possível, portanto (e daí vem a grande popularidade das estâncias termais de San Filippo), conhecer as águas aquecidas, que podem chegar a até 54°C, gratuitamente, por toda a pequena Comuna.

Águas termais de San Filippo

Dica: Passamos por aqui dois dias de nosso roteiro, para aproveitar ao máximo o que os Bagni poderiam oferecer. Em algumas das piscinas naturais da localidade, o índice de enxofre é bastante alto, podendo deixar o viajante com um odor, digamos assim, peculiar. Recomendamos que, se não for passar muito tempo aqui e não tiver feito a reserva em um hotel, que faça uso dos chuveiros particulares disponíveis na Comuna, para um banho antes de continuar o passeio, ou antes do jantar.

As termas estão localizadas em um território único por sua beleza natural. As grandes barreiras calcárias, branquíssimas, construídas naturalmente pela deposição ao longo de séculos, formam um espetáculo à parte. Porém, também é possível admirar a paisagem do entorno, entre os bosques e pequenas florestas que se formam ao longo das margens do Rio Orcia. Aliás, grande parte dos banhos públicos está localizada ao longo deste mesmo rio, facilitando a visita de quem chega a San Filippo. É só seguir a margem e mergulhar nas águas termais ao longo do trajeto.

Os primeiros locais para banho, inclusive, são bastante rasos e não permanecem aquecidos por muito tempo, principalmente no inverno. Recomendamos, portanto, que siga o caminho até as áreas mais profundas. Até que se depare, finalmente, com o lugar mais importante e belo e conhecido dos Bagni: a Baleia Branca, parte do grande complexo calcário chamado de Fosso Branco. Na Balena Bianca, como é denominada em italiano, as quentes fontes termais se encontram com as temperaturas mais baixas do rio, dano às formações calcárias um aspecto que misturam o branco e o azul. Esse jogo de cores, contrastado com os tons mais escuros da vegetação da floresta, oferece um cenário fascinante, especialmente nas baixas temperaturas do inverno. A intensidade do calor das águas recebe o frescor do ar frio soprando no rosto. Foi uma das sensações mais incriveis de nossos roteiros pela Toscana.

Detalhe das Termas de San Filippo

É também possível conhecer a região em seus aspectos históricos, geográficos e geológicos através de visitas guiadas. Fizemos isso em nosso segundo dia em San Filippo e o aprendizado foi mesmo essencial para valorizar uma região que resiste às transformações do tempo desde a Antiguidade. Acredito ser essencial, sempre, conhecer o mais profundamente possível meus pontos de parada nos diversos roteiros pela Itália. O encontro entre as belezas naturais e o esforço em preservar a história é sempre algo marcante por aqui.

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