Um desafio na Toscana – a Via Francigena

Pontos Turísticos - 01/12/2017
Por Adrian Theodor

Imagino que todos já ouvimos alguma vez a expressão “todos os caminhos levam a Roma”. Claro, a origem histórica desta figura de linguagem tão comum, mesmo em português, vem da Antiguidade Clássica, quando o Império Romano, em suas diversas conquistas e sucessivas dominações estrangeiras, partiu de seu núcleo militar romano com direção a praticamente toda Europa, norte da África e parte da Ásia, englobando, assim, boa parte do que era o então “mundo conhecido” da civilização ocidental. E tamanha expansão veio acompanhada de intensas obras de infraestrutura, principalmente no que se refere à logística, seja material, seja humana. Um dos maiores exemplos do desenvolvimento tecnológico empreendido por Roma para conectar as terras por ela conquistadas é a Via Ápia, estrada que ligava Roma à Cápua, posteriormente estendida até Brindisi, num trajeto impressionante de mais de 600 quilômetros.

E, mesmo que não tendo sua origem na Antiguidade, é um pouco sobre esta tradição romana que escrevo hoje a vocês. Compartilho neste texto breve para o Blog da Cenci Turismo um pouco da minha experiência num dos trajetos de peregrinação mais incríveis de toda a bagagem pedestre que já pude experimentar na Europa: a Via Francigena, de Canterbury, na Inglaterra, até Roma, na Itália. Com atenção especial aos trechos que atravessam a Toscana, definitivamente a personagem principal de meus textos mais recentes, justamente pela intensa marca que deixou em mim nas últimas experiências que provei na Velha Bota.

Uma das milhares de placas indicativas da Via Francigena

Um pouco de história

A Itália é um ponto de passagem central na Europa desde a Antiguidade Clássica, com a expansão do Império Romano. Entretanto, mesmo na Idade Média, com o crescimento das peregrinações para o túmulo de São Pedro, em Roma, e para Brindisi, na Púglia, como ponto de partida para a Terra Santa, em Jerusalém, o Velho País permaneceu como centro de grandes movimentações humanas, principalmente de cunho religioso. E a Via Francigena, apesar de não passar apenas pela Itália – cruzando também a Inglaterra, França e Suíça –, é parte desta história de transumância.

O primeiro relato escrito desta longa via, de mais de 1700 quilômetros de extensão, é do século IX, num pergaminho de 876 d.C., encontrado na Província de Siena e arquivado até os dias atuais na Abadia de San Salvatore, no Monte Amiata. Porém, claro, a rota, mesmo que intermitente, já existia há muito tempo antes deste relato, usada como trajeto das tropas romanas ou mesmo com objetivos religiosos.

Abadia de San Salvatore

Dica: Reservei um roteiro bastante interessante sobre o Monte Amiata e a Abadia de San Salvatore neste Blog. Acesse: Um roteiro incomum: o Inverno Toscano.

Ao longo dos séculos, claro, principalmente durante a Baixa Idade Média, a Via Francigena passa por diversas alterações e interrupções em seu trajeto comum. Seja pela formação dos Estados Nacionais na Europa e sua recorrente reformulação de fronteiras, seja por conflitos territoriais típicos do próprio período histórico em questão. Entretanto, mesmo assim, é possível encontrar nos diários de Sigerico, arcebispo de Canterbury, no final do século X, um roteiro com 79 paradas ao longo de seu percurso saindo da Catedral de Canterbury, na Inglaterra, com destino à Roma. Seu objetivo era receber o Pálio das mãos do Papa, representando o símbolo oficial de seu bispado e consequente domínio sobre as terras de que era responsável na Inglaterra.

Até os dias atuais, mesmo com tantas alterações sofridas no percurso hoje chamado de Via Francigena, a rota de Sigerico é usada como referência para peregrinos do mundo todo que perfazem este percurso, seja de bicicleta, seja a pé.

A Via Francigena na Itália

O trecho da Via Francigena em território italiano perfaz mais de 1000 quilômetros de extensão, sendo o maior dos quatro países que compõem o trajeto. E é possível completa-lo a pé ou de bicicleta, assim como em todo o resto da Via. Seja lá qual for a sua opção, é importante se preparar para longas caminhadas ou pedaladas. Afinal, se a sua opção for fazer todo o trajeto original, terá longos dias pela frente.

Dica: É possível saber todos os detalhes sobre os percursos da Via Francigena, desde a Inglaterra até Roma, acessando o site oficial do caminho: viefrancigene.org. Aqui, você encontrará informações detalhadíssimas não apenas dos mapas a serem percorridos, inclusive com dados para inserir no seu GPS, como também dicas de terreno e nível de dificuldade para cada seção da trilha. Para uma versão em português, é necessário outro acesso: viafrancigena.com.br.

Em meu contato com a Via Francigena, não percorri toda a sua extensão, concentrando atenções em 8 comunas toscanas de todo o caminho. Passei por San Miniato, Gambassi Terme, San Gimignano, Monteriggioni, Siena, Ponte D’Arbia, San Quirico D’Orcia e Radicofani. Todo o percurso ultrapassou 300 quilômetros e foi fundamental um planejamento prévio. Ao decidir realizar quaisquer dos trechos da Via Francigena, assim como em qualquer outra experiência de peregrinação, planeje bem os pontos de parada e repouso. Isso será essencial para que sua experiência turística não se transforme em um terror de dores e sacrifícios. Mais uma vez, verifique com antecedência o nível de dificuldade da trilha que irá percorrer, assim como as indicações meteorológicas no período em que planeja fazer os trajetos.

Mas não se deixe desanimar pelas dificuldades. Mesmo para quem não tem intenções de peregrinação religiosa, a Via Francigena é um instrumento incrível para entrar em contato com vias de acesso históricas importantíssimas, além de colocar o viajante em proximidade com os aspectos naturais e arquitetônicos muito diversos, que não poderiam ser vistos de outra forma. Além, é claro, de representar a vitória humana contra os elementos naturais, sejam ele próprios do clima, sejam do relevo. E esse tipo de conquista é sempre algo a ser celebrado, ao fim de cada novo trecho.

A seguir, destaco alguns trechos do caminho, assim como algumas particularidades que me chamaram a atenção:

San Miniato – Gambassi Terme: Distância: 23,9 Km. Tempo estimado de percurso: 6 horas em ritmo médio. Dificuldade: Semipesada, Nível 6. Esta seção é particularmente bela, pois praticamente todo o trajeto é formado por áreas de colinas pertencentes ao Val d’Elsa, com vistas panorâmicas em todos os sentidos. Já escrevemos sobre o Vale do Rio Elsa neste Blog, destacando paisagens de tirar o fôlego. Leia: A Toscana Desconhecida. Se planejar bem este trajeto, inclusive será possível descansar os pés nas águas termais de Gambassi, o ponto de chegada deste trecho.

Colina em Val d’Elsa

Gambassi Terme – San Gimignano: Distância: 13,4 Km. Tempo estimado de percurso: menos de 3 horas em ritmo médio. Dificuldade: Leve, Nível 2. Eu optei por fazer todos os trajetos a pé, pois não tenho muita familiaridade com as bicicletas e sei que elas vão precisar de manutenção ao longo das trilhas. Porém, para quem é fã do ciclismo, vai gostar muito deste trecho. Não apenas por ser um dos mais planos de toda a seção toscana, mas porque ele é bastante preenchido por edifícios especializados em receber ciclistas, ou seja, acessíveis. Dependendo do horário em que decidir fazer esta parte do trajeto, poderá passar o dia na histórica San Gimignano, considerada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Temos um roteiro especial reservado para você que tomar esta decisão: 3 preciosidades da Toscana.

Piazza della Cisterna, San Gimignano

San Gimignano – Monteriggioni: Distância: 30,9 Km. Tempo estimado de percurso: 7 horas em ritmo médio. Dificuldade: Variada. Maior dificuldade: Semipesada, Nível 5. Considerei este trecho um dos mais marcantes de toda a seção toscana da Via Francigena. E isto se deu por dois aspectos principais. Um, a paisagem ao longo do caminho é aquela que costumamos ter como a Toscana mais típica, com extensos planaltos ondulados ocupados pela produção vinícola. E, dois, por ter em seus pontos de saída e chegada duas das comunas medievais mais icônicas da Região, as muradas San Gimignano e Monteriggioni. Se o fôlego ou as pernas permitirem, aproveite a chegada para conhecer a histórica Monteriggioni, citada por Dante Alighieri na Divina Comédia.

Vista aérea de Monteriggioni

Monteriggioni – Siena: Distância: 20,6 Km. Tempo estimado de percurso: 6 horas em ritmo médio. Dificuldade: Moderada, Nível 3 ou 4. A diferença de paisagem é uma das características mais marcantes deste trecho da seção toscana da Via Francigena. O andarilho encontrará ao longo deste curso que sai de Monteriggioni desde terras beneficiadas para a produção agrícola, até florestas de faia espessas. A chegada a Siena se dará pela Porta Camollia, o portão principal ao norte da cidade. Mais uma vez, se possível, aproveite a chegada para conhecer um pouco de Siena. Se o tempo for curto, ou o cansaço demasiado, recomendamos que ao menos passe os olhos pelo Duomo, pela Piazza del Campo e, claro, pelo Hospital Santa Maria della Scala, um marco histórico de recepção aos peregrinos, exaustos, que chegam a Siena.

Interior do Duomo de Siena

Siena – Ponte d’Arbia: Distância: 25,7 Km. Tempo estimado de percurso: 7 horas em ritmo médio. Dificuldade: Semipesada, Nível 5 ou 6. Neste trecho da Via Francigena o ponto mais marcante é a mudança brusca de paisagem ao longo do caminho. As colinas se tornam menos elevadas, não mais cobertas pelos bosques densos de faia e cada vez menos ocupadas por vinhedos e olivais. O cenário agrícola vai se ocupando pela produção de grãos e os aspectos naturais definem a visão do famoso Crete Senesi, área caracterizada pela presença da argila toscana, a mattaione, oferecendo à visão uma ampla perspectiva acinzentada que, para muitos, é semelhante ao que se concebe como o solo lunar. A Grancia di Cuna, um antigo celeiro fortificado, já na Comuna de Monteroni d’Arbia, é a principal atração histórica deste trecho.

Crete Senesi

Ponte d’Arbia – San Quirico: Distância: 26,2 Km. Tempo estimado de percurso: 6 a 7 horas em ritmo médio. Dificuldade: Semipesada, Nível 5 ou 6. Um dos últimos trechos que passará pelas paisagens típicas do trigo e das vinhas, sendo carregado pela presença gratificante dos girassóis. Considerei esta parte do percurso crucial para a continuidade da peregrinação. A paisagem das estradas brancas, praticamente áridas, era muito repetitiva em relação ao que já tinha percorrido nos outros dias e cheguei a pensar em desistir. Contudo, a visão que tive do Val d’Orcia foi espetacular, e me permitiu pequenas pausas para fotos únicas. Sem contar um breve repouso e descanso em Buonconvento, com seu centro histórico pequeno, porém adaptado para os peregrinos.

Centro histórico de Buonconvento

San Quirico – Radicofani: Distância: 32,2 Km. Tempo estimado de percurso: um pouco mais de 7 horas em ritmo médio. Dificuldade: Pesada, 7. Ainda mais difícil do que o trecho anterior, pois é carregado de colinas muito mais acentuadas. Entretanto, é o último trajeto e, para aliviar as dores nos pés e nas costas, aproveitei algumas paradas em Bagno Vignoni e Bagni di San Filippo. Suas águas termais fazem todo o esforço não só possível, como muitíssimo satisfatório. Mais uma vez, indicamos que leia nosso texto sobre o inverno toscano, para conhecer com maior detalhe as águas termais de San Filippo.

Águas termais de San Filippo

E então? Tem fôlego para esta aventura toscana? Tenho certeza de que as paisagens desta Região, os pontos históricos e, claro, a força da superação, farão todo o esforço valer a pena. Para mim, foi inesquecível.

Dicas Cenci

Receba promoções e novidades antes de todo mundo!
Whatsapp
Precisa de ajuda? Atendimento por WhatsApp

Atendemos de segunda a sexta, das 09h00 às 18h00

Clique para iniciar o atendimento