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A Toscana Religiosa – San Galgano e Sant’Antimo

Arte e Arquitetura - 01/12/2017
Por Adrian Theodor

Em praticamente todos os textos que já escrevemos sobre a Itália, destacamos seu cuidado com a própria história, principalmente no que se refere à forte presença da tradição católica neste território. Outra presença cada vez mais intensa em nossos textos é a paixão pela Toscana e sua infinidade de possibilidades, roteiros, riquezas históricas, belezas naturais e, claro, sabores enogastronômicos.

O texto de hoje traz justamente a união entre estas duas definições do que a Itália representa. De um lado, a intensidade religiosa da história milenar deste país. De outro, mais um tesouro da encantadora estética Toscana, tão afeita a surpreender em locais onde muitas vezes não se imagina encontrar belezas tão tocantes.

Abadia de San Galgano

Nossa primeira parada se dá a um pouco mais de 40 quilômetros ao Sul de Siena, pela Estrada Regional 2 e Estrada Provincial 73 bis, na Comuna de Chiusdino. Por aqui, visitaremos o complexo religioso da Abadia de San Galgano (foto de capa) e do Eremitério do Monte Siepi.

A história do Eremitério é anterior ao da abadia, porém ambas circundam a figura enigmática de seu Santo padroeiro, Galgano. Galgano Guidotti teria sido um personagem um tanto quanto atípico no que se refere às histórias de cavalaria no início da Baixa Idade Média na Europa. Apesar dos rígidos códigos de conduta em voga na época, Galgano fora um cavaleiro indisciplinado, violento e propício à satisfação de seus prazeres terrenos. Até que, na região onde hoje se encontra o Eremitério, no Monte Siepi, recebera uma visão divina o convidando à conversão e redenção de seus pecados. A partir daí, no século XII, Galgano se dedicara com exclusividade às causas católicas, fincando com força sua espada na rocha e jurando o fim de sua devassidão criminosa e fidelidade religiosa até o fim de seus dias. O relato permaneceu reconhecido na Itália ao longo dos anos e, para muitos, inclusive, seria a própria origem do mito de Lancelot e do Rei Artur, mantendo intacto o relato da espada em forma de cruz fincada na rocha.

Espada fincada na rocha por Galgano Guidotti

A origem do Eremitério no Monte Siepi, portanto, vem da devoção de Galgano às causas espirituais. Ali, onde teve a visão do arcanjo Miguel, escolheu se recolher para suas orações e pregação do evangelho. A partir de 1185 o oratório construído anos antes em homenagem a Galgano, agora canonizado pela Igreja, foi consagrado como lugar oficial de oração e peregrinação. O Eremitério guarda uma espada que, segundo diversos analistas, é efetivamente da mesma época em que Galgano a teria fincado na rocha. Pesquisas recentes demonstram que existe de fato uma espada inteira dentro da pedra, numa demonstração riquíssima de como a preservação histórica pode ser emocionante. Inclusive, por consequência de diversos atos de vandalismo, o cabo da espada teria sido destruído. Porém, recentemente, foi restaurado com exatidão, mantendo intacta sua originalidade. Seria, portanto, a própria espada do santo? Levar tal inquietação para uma visita ao Eremitério é o convite que hoje fazemos a você.

Vista do Eremitério no Monte Siepi

Mas foi somente a partir do século XIII, mais especificamente a partir de 1218, que a Abadia começa a ser construída. Muitos fiéis ao santo, em constante peregrinação ao local de sua visão mística, espalhavam-se pela Comuna de Chiusdino, sem local específico para expressar sua devoção. E é neste contexto que a comunidade monástica começa a ser construída.

Sua construção, levando em conta a tecnologia disponível na época e seu pioneirismo no que se refere à arquitetura (é a primeira construção religiosa em estilo gótico na Itália), foi relativamente rápida e, em 1288, ela já era consagrada pela Igreja como local oficial de culto.

Infelizmente, a trajetória de sua decadência é tão intensa como a de sua edificação. Fruto de problemas de administração ao longo da Idade Média, sucessivos saques inimigos em uma região estratégica no caminho para Siena e a passagem devastadora da peste negra no século XIV, a Abadia de San Galgano é continuamente destruída e quase totalmente devastada. Todavia, parte de sua estrutura é conservada, mantendo possível o estudo do estilo gótico de sua composição arquitetônica, a primeira, como dissemos, em todo o Velho País.

Vista interna da Abadia de San Galgano

A conservação das atuais ruínas, inclusive, permitiu que San Galgano fosse palco de variadas cenografias para o cinema. Um dos exemplos mais famosos é sua aparição em O Paciente Inglês, de Anthony Minghella.

Dica: Mesmo para os espíritos não afeitos às tradições religiosas, esse roteiro de peregrinação é bastante importante para entender não apenas a história italiana, como também sua riqueza arquitetônica. O período medieval na Europa, principalmente em sua parte ocidental, representa uma síntese entre história e religião, sendo impossível dissociá-las. Conhecer, portanto, a tradição católica italiana é conhecer sua própria identidade histórica.

Abadia de Sant’Antimo

Continuando nossa peregrinação, seguiremos para a Comuna de Montalcino, a mais de 60 quilômetros a sudeste de Chiusdino. Aqui, conheceremos mais uma das Abadias importantes para a compreensão medieval da Toscana, assim como sua própria identidade histórica.

Dica: Montalcino é uma das comunas mais importantes para se conhecer em seu roteiro para a Toscana. Recomendamos a leitura de nosso texto sobre esta Comuna: A Essência Toscana: Vinhos e Renascimento em Montalcino e Pienza. Este texto poderá ser muito útil se o seu objetivo na Toscana for conhecer dois dos vinhos tintos mais importantes não apenas da Região, como da Itália e em todo o mundo.

Vista de Montalcino – Toscana. Foto: Arseniy Krasnevsky/ 123RF

A origem da Abadia é, como em San Galgano, cercada por lendas e, possivelmente, mitos. Ela teria sido construída como local de culto católico por ordem do Imperador Carlos Magno, no século VIII, durante a expansão do Império Franco e sucessiva construção de um caminho entre a França e Roma, conhecido por Via Francigena. Segundo a lenda, a tropa de Carlos Magno, ao passar pela região, foi acometida de grave peste. Pedindo uma cura a Deus e se aproveitando do conhecimento local sobre o uso de ervas medicinais, a caravana foi salva e, em homenagem ao suposto milagre, Carlos Magno teria erigido um local de culto que posteriormente seria transformado em Abadia.

Os primeiros relatos escritos, porém, sobre a existência de uma construção religiosa no Vale do Rio Orcia, em Montalcino, só aparecem a partir do século IX, descrevendo um local de culto pertencente à ordem dos beneditinos. Ainda no século IX, documentação escrita da época marca o abandono da manutenção da Abadia, reduzindo-a a oratório. Foi apenas a partir da Baixa Idade Média, nos séculos XI e XII, que a construção Românica, símbolo deste estilo arquitetônico na Toscana, passa por sucessivos processos de restauro até alcançar sua estrutura atual.

Abadia de Sant’Antimo

Contudo, antes mesmo de alçar visão ao estilo arquitetônico, a Abadia de Sant’Antimo impressiona por sua localização. A construção em travertino, rocha calcária típica da região, se associa intimamente à paisagem rural que a cerca, no Vald’Orcia. Tipicamente românica, a Abadia consegue, apesar de sua imponência, mesclar-se com maestria à paisagem circundante, fazendo parte dela. Essa ambiguidade paisagística foi, para mim,  um dos fatores mais impressionantes na vista da Abadia. Ao mesmo tempo em que é possível ver sua construção de longe, é igualmente verdadeira a percepção do quanto ela está camuflada pela paisagem circundante de vinhedos e oliveiras.

Abadia de Sant’Antimo, Montalcino – Toscana. Foto: Stevanzz/ 123RF

Finalmente às bordas da Abadia e em seu interior, é possível contemplar um belíssimo exemplo das construções Românicas da Alta Idade Média. Inspirados nas construções do período da ocupação romana, sobrecarregado de trocas de poder, invasões e disputas militares, os templos religiosos românicos se confundem com verdadeiras fortalezas militares. Paredes espessas e ambiente soturno, de janelas limitadas pela necessidade de abrigo militar, dão o tom fortificado típico da época em que foi construída. O madeiramento das naves religiosas da Antiguidade é substituído por edificações em pedra maciça, em trabalho tão complexo que somente seria superado em capacidade tecnológica cerca de 300 anos depois pela sofisticada arquitetura Gótica.

Vista interna da Abadia de Sant’Antimo

Mais uma vez, mesmo para aqueles completamente distantes de qualquer tradição religiosa, a visita é imperdível para a compreensão histórica de tamanho esforço para deixar ali um marco tão grandioso quanto a fé de quem foi capaz de erigir tal memória arquitetônica. E, claro, também retrato histórico de uma ocupação latifundiária que necessitava de um templo religioso que funcionasse ao mesmo tempo como fortaleza militar capaz de afugentar os diversos invasores dispostos à ocupação daquelas terras férteis ao redor de uma das vertentes do Rio Orcia.

Ao conhecer a Abadia, é possível também ter acesso a um aspecto importantíssimo relacionado aos mitos de sua origem histórica como consequência da expansão do Império Franco na Península Itálica. Como já dissemos, a tradição medieval de Sant’Antimo era a produção de medicamentos a partir das plantas locais. Na Sala do Tesouro da Abadia, ainda hoje, é possível adquirir parte desta riqueza herbácea, como lavandas, azeite de oliva, pimenta preta e diversas frutas e ervas, consideradas curativas. Inclusive o Amaro, confeccionado com a Erva Carolina, famosa por supostamente ter curado o exército do já citado imperador Franco.

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