A Sicília Desconhecida (Parte 2): Antiguidade Clássica e Idade Média em Piazza Armerina, Scala dei Turchi e Erice

Por Adrian Theodor

 

Em nosso último texto, mostrei a vocês dois roteiros imperdíveis para se conhecer dois pontos turísticos na Sicília costumeiramente ignorados pelas principais agências de turismo do Brasil: Riviera dei Ciclopi, próximo a Catânia; e Noto, na Província de Siracusa. Se ainda não leu essas dicas imperdíveis, acesse: Sicília Desconhecida (Parte 1).

Hoje, na segunda parte sobre os recônditos desconhecidos desta magnífica ilha italiana, apresentarei a vocês a oportunidade de conhecer mais três lugares que não costumam fazer parte dos roteiros mais tradicionais para a Sicília: a Comuna de Piazza Armerina, um pedaço do Império Romano no coração da Sicília; as falésias branquíssimas da Escada dos Turcos, em Agrigento; e a Comuna de Erice, em um dos extremos do Oeste da ilha, na Província de Trapani.

Piazza Armerina

A Piazza Armerina é uma pequena Comuna localizada no coração da Sicília, dentro da Província de Enna. Raramente está dentro da rota turística mais comum de brasileiros para a Ilha e, apesar disso, deveria ser parada obrigatória para os viajantes que se dispõem a conhecer mais sobre a história da Itália. Sua ocupação Lombarda, posteriormente substituída pela invasão romana, oferece ao visitante a oportunidade de conhecer as alterações arquitetônicas somente visíveis em territórios italianos assim tão miscigenados.

O primeiro ponto obrigatório por aqui, como já está acostumado o visitante experiente em passeios pela Europa, especificamente pela Itália, é a Catedral de Santa Maria da Vitória, o Duomo da Piazza Armerina. Sede do bispado da Comuna desde o século XIX, a Catedral é um símbolo do Barroco Siciliano, tendo sido construída a partir do século XVII e somente finalizada mais de 160 anos depois do início das obras, com a construção de seu domo. Seu idealizador foi o famosíssimo arquiteto seiscentista, Orazio Torriani, responsável por diversas edificações religiosas em território italiano. O domo central é o ponto alto da visitação, possuindo o inusitado interior em forma de duas cruzes, adornado com uma série de pinturas que contam a história da crucificação e ressurreição de Cristo; além de um batistério assinado por Antonello Gagini, importantíssimo escultor do Renascimento, membro de uma família bastante influente entre os dedicados e talentosos artistas italianos do quatrocentos.

Dica: Neste roteiro, estamos apresentando os pontos principais de cada destino selecionado. Todavia, dependendo do tempo que investir na visita à Piazza Armerina, conheça também suas outras construções religiosas, tais como: a Igreja de Fundrò, e seu portal edificado em tufo; a Igreja de San Giovanni Evangelista, com afrescos do século XIV; a Igreja de Sant’Anna, um dos maiores exemplos do Barroco italiano da Piazza Armerina; a Igreja de St. Martin of Tours, construída ainda no século XII; e a Igreja de Santa Maria di Gesù, finalizada no século XVI.

Na face Leste do Duomo, está localizado o Palazzo Trigona, nomeado assim em homenagem aos seus benfeitores, uma das dinastias nobres mais influentes na Sicília, a mesma que teria empreendido a grande obra da Catedral. A majestade do Palácio é um testemunho concreto da importância desta família nobiliárquica e, assim, grande monumento histórico das diferentes influências pelas quais passou a Ilha italiana. Imponente, tem uma planta retangular e foi edificada em tijolos de terracota e arenito retirado da própria Comuna. Sua composição arquitetônica traduz a concepção artística da época, possuindo um grande pátio na face norte, cercado por uma série de pilastras, além da divisão em três andares, com a disposição de um amplo sótão. Trata-se de visita essencial para aqueles que admiram a potência artística da Itália no século XVII e suas indissociáveis influências históricas.

Agora, provavelmente o ponto alto deste roteiro esteja justamente fora da Comuna da Piazza Armerina, um pouco mais de 6 quilômetros a sudoeste. Estou me referindo a mais um dos Patrimônios Mundiais da Humanidade dentre os inúmeros localizados no Velho País, a Villa Romana del Casale.

A Villa Romana del Casale é, sem dúvida, um dos monumentos históricos mais peculiares da Sicília, por se tratar do que restou de um então suntuoso palácio datado do Império Romano, já distante de seus tempos de glória, quase ao final de seu domínio territorial no Ocidente. Empreendida no século IV (o Império deixaria de existir oficialmente no Ocidente no século V), a Villa, em suas 48 dependências, provavelmente financiada por um dos membros do Senado, é um exemplo da opulência segundo a qual vivia sua nobreza. A estrutura é completa, seguindo o padrão da refinada engenharia romana em suas salas de banho, possuindo caldário, tepidário e frigidário. O que mais chama a atenção, entretanto, é a disposição de belíssimos mosaicos por toda a estrutura das 48 dependências de sua arquitetura, representando a vida cotidiana dos romanos. Grande parte desta disposição artística foi recentemente escavada arqueologicamente, sendo testemunha raríssima do que teria sido a vida íntima dos habitantes de Roma. Mesmo para aqueles não tão afeitos à historicidade dos trajetos turísticos, é emocionante poder observar vestígios tão valiosos sobre o dia-a-dia de uma civilização que pisou a Terra há tanto tempo. E Itália esbanja esse tipo de demonstração ao mesmo tempo valiosa e carinhosa em relação ao seu passado histórico. E é sempre uma oportunidade inestimável poder fazer parte disso em um circuito turístico.

Scala dei Turchi

A mais ou menos 13 quilômetros a Oeste de Agrigento, está localizada a Escada dos Turcos, uma das paisagens mais sensacionais do litoral do Mar Mediterrâneo. A Comuna de Agrigento é mais conhecida pelo turismo brasileiro que se lança à Sicília no verão. Porém, infelizmente, não costuma ter a Scala dei Turchi em seus pacotes mais comuns. Localizada no litoral Sudoeste da Ilha, está próxima à Península de Al Huwariyah, no litoral da Tunísia, ao norte do continente africano, parte do que costumeiramente se denomina por Magrebe. Por isso mesmo, inclusive, sofreu vasta influência dos povos de origem árabe da África, desde a Antiguidade e Idade Média. O nome da Escada, inclusive, vem de uma pobre redução que acabou por denominar toda a diversidade de povos de origem árabe que entraram em contato com o litoral da Sicília de Turcos.

Diversas partes do território siciliano, em algum ponto da grande expansão do Império Árabe, ao longo da Alta Idade Média, sofreu a influência muçulmana. A história que se conta sobre a origem da Escada dos Turcos não costuma ser lembrada como um dos pontos mais saudosistas desta influência, contudo. Afinal, a nomenclatura vem das invasões de piratas de origem árabe que escalavam as falésias do litoral siciliano com o objetivo de saquear os postos avançados da Ilha em busca ou de suprimentos ou do enfraquecimento de sua proteção militar. Como dito, a população local simplificou a origem diversa desses povos, chamando-os todos de turcos, oferecendo àquele pedaço específico do litoral siciliano de Escada dos Turcos, porque era por ali que os piratas subiam e adentravam a ilha.

As falésias, no verão, chegam a cegar o turista desacostumado com seu brilho intensamente branco. Elas são formadas por uma rocha chamada de marga, de origem calcária e misturada com argila. Para aqueles não habituados à sua textura e cor, lembra muito a composição do gesso. Inclusive, para quem anda ou se senta pela rocha, tem seu corpo impregnado pelo pó branco, lembrando mesmo o que aconteceria se o mesmo fosse feito sobre o gesso se decompondo. Apesar do possível desconforto visual com o intenso brilho da marga, mesmo no verão, a rocha se mantém fria, possibilitando passeios muito satisfatórios ao turista. Trata-se de um destino muito usual aos sicilianos, principalmente os de Agrigento, no tórrido verão do Mediterrâneo. Agora, entrar na água, em Scala dei Turchi, é para os corajosos. Por estar localizada nas águas do Estreito da Sicília, no canal que a liga ao continente africano, guarda temperaturas muito baixas, mesmo no verão, por influência as correntes marítimas que passam por ali. Sem contar a intensa presença da Posidonia, uma espécie de vegetação rasteira muito parecida com a grama que tanto conhecemos no Brasil. Ela forma verdadeiras camas de vegetação que não agradam muito aos brasileiros, acostumados com grandes extensões de litoral arenoso.

Dica: Se percorreu a brilhante Escada dos Turcos e sentiu falta de entrar no mar ou de ficar de bobeira à beira da praia, indico que visite a Lido Rossello, cerca de 2 quilômetros ao Norte da Scala dei Turchi. A praia de Rossello até pode ser vista da própria falésia, que fica em uma altitude mais elevada. Por aqui, encontrará, além da areia fina tão habitual no litoral brasileiro, toda a infraestrutura hoteleira, culinária e turística que geralmente se procura quando se visita a Itália no verão.

Erice

A pequenina Comuna de Erice, com cerca de 500 habitantes, está localizada no extremo Oeste da Sicília. É raro encontrar roteiros turísticos que passem por aqui, mas é ponto obrigatório para aqueles que desejam conhecer profundamente o litoral Oeste da Sicília, por isso, reforçamos nossa recomendação.

A Comuna é justamente válida turisticamente por suas origens históricas. Conhecer Erice é como observar uma verdadeira síntese da ocupação não apenas da Sicília, mas de todo o território italiano desde a Antiguidade. Apesar de reconhecida mundialmente como um Burgo medieval que resistiu ao tempo, a origem da Comuna remonta à Antiguidade Clássica e seu caldo cultural riquíssimo. É ocupada desde pelo menos o século VIII a.C., por povos indo-europeus, itálicos e semitas, demonstrando a complexidade sociocultural a que foi submetida desde sua origem.

No topo do Monte San Giuliano, a mais ou menos 750 metros acima do nível do mar, a Comuna guarda uma parte de suas muralhas originais ainda preservada. Construída ao longo do litoral pelos primeiros povos indo-europeus que a ocuparam, ao longo do século VIII a.C., os Elimos, a muralha oferece pontos de visitação importantes para entender o funcionamento das guarnições militares na Antiguidade. Para esses povos, proteger a cidade era o ponto alto da sobrevivência. Seja pela topologia, muito íngreme e tortuosa, seja pela própria engenharia murada (permitindo acesso ao monte por apenas um de seus lados), a caminhada nem sempre é confortável, mas certamente traz a sensação mais próxima do possível no que se refere a reproduzir a vida militar nos tempos antigos. Ou seja, a ambivalência entre o risco para os invasores e a segurança para os cidadãos.

Ao que tudo indica, Erice surge como uma fortificação religiosa em homenagem à deusa Venere Ericina, cultuada pelos Elimos. É difícil mapear a origem desses povos, provavelmente uma miscigenação entre povos itálicos e indo-europeus. Há quem defenda a tese de que seriam, inclusive, provenientes da diáspora grega causada pela guerra de Troia. Entretanto, o antigo templo religioso é adaptado às tradições politeístas de seus sucessivos invasores. Os fenícios utilizaram o tempo para o culto à Astarte, deusa dos mortos; os gregos, à Afrodite, deusa do amor; finalmente, os romanos, à Vênus, em sua adoração à fertilidade. Mesmo os cristãos, após a conversão romana ao monoteísmo, viram em Erice uma possibilidade de culto religioso, construindo cerca de 60 igrejas desde os fins do Império Romano no Ocidente. Esta sequência construtiva faz da Comuna um grande centro não apenas da preservação histórica de diferentes povos antigos e medievais, como de suas tradições religiosas e, portanto, culturais.

É somente no século XIV, sob as ordens de Frederico II de Aragão, durante a ocupação espanhola da Sicília, que o templo, até então remanescente do culto romano à Vênus, é utilizado como fonte de matéria prima para a construção do Duomo de Erice, num costume, infelizmente, não apenas italiano, como europeu, de derrubar os templos pagãos e os transformar em novas estruturas religiosas dedicadas ao cristianismo. A arquitetura do novo Duomo seguiu o estilo gótico em voga à época de Frederico II e, apesar de belíssimo, traz em sua origem uma história de destruição do passado e dominação religiosa. A riqueza do estudo histórico nem sempre se dá por sua beleza ou conciliação, ou mesmo preservação; mas sim, por sua potência aniquiladora. A fachada do edifício que compõe o Duomo é conservada até hoje em seu estilo gótico. O interior, porém, foi restaurado duas vezes no século XIX, no que se habituou chamar de neogótico e chama a atenção por sua complexa e detalhadíssima estrutura trançada.

A torre da Catedral é datada da Antiguidade, não sendo modificada pela restauração de Frederico II, no século XIV. A torre teria sido construída entre os séculos IV a.C. e III a.C., como elemento de vigilância e posto avançado dedicado aos conflitos entre Roma e Cartago, no norte da África. É possível visitar a parte interna da torre e seguir até o topo, de onde se descortina, com tempo bom, grande parte da Província de Trapani e a imensidão do encontro do Mar Tirreno com o Mediterrâneo. Se o dia estiver especialmente ensolarado e limpo, é possível avistar até o litoral da Tunísia, o que pode oferecer um vislumbre do que sentiam os romanos ao ver de longe um de seus maiores oponentes em toda a sua história, Cartago. Ao longo dos 108 degraus em forma de espiral do chão até o topo, é possível parar para observar a vista através das janelas ogivais. Agora, se estiver por aqui em tempo ruim, o desafio é suportar a ventania e as baixas temperaturas lá no ponto mais alto da Comuna. Por outro lado, será como andar sobre as nuvens.

De volta ao chão, indico que caminhe pelas ruazinhas estreitas e tortuosas da Comuna. Não apenas porque elas guardam a síntese da história da Sicília, da Itália, da Europa e da própria humanidade, e sim porque é uma experiência única poder conhecer os pescadores locais, especialistas na pesca do atum, por exemplo. Ou mesmo os diversos restaurantes com quitutes típicos da culinária siciliana. Dos cannoli sicilianos às Butargas com ovas de atum, cada esquina revela uma experiência culinária única. E, claro, não deixe de imaginar as entranhas das Guerras Púnicas entre Roma e Cartago ao sabor de um delicioso vinho Marsala.

Dica: A Cenci Turismo possui um roteiro especial, que leva você à Sicília e a diversos locais completamente inéditos para o turista brasileiro. Se quiser saber mais, acesse o Fabuloso Sul.