A Sicília Desconhecida (Parte 1): a Mitologia em Riviera dei Ciclopi e o Barroco de Noto

Regiões Italianas - 21/02/2018
Por Adrian Theodor

Em nossos dois últimos textos sobre a Ilha Siciliana, começamos um grande périplo que pretende abarcar todo o seu território, tão rico em história quanto em pontos turísticos que são paradas obrigatórias para quem tem o desejo de conhece-la na íntegra. Se ainda não teve contato com estes roteiros essenciais, indico que leia: Messina e Taormina – o Litoral Oriental da Sicília e Catania e Siracusa – Atividade vulcânica e mitologia grega ao leste da Sicília.

Litoral de Taormina na Primavera

No texto de hoje, gostaria de viajar com vocês para dois pontos da Sicília costumeiramente ignorados pelos roteiros turísticos mais comuns para a Ilha italiana. Não indicarei aqui um guia completo relacionado às cidades mais famosas, porém, sugestões de viagem para aqueles ávidos exploradores que apreciam a arte de caminhar por terras praticamente inéditas para os brasileiros habituados a conhecer a Itália.

As minhas escolhas de hoje vão para dois pontos de encontro que facilmente podem ser inseridos em sua viagem para Catânia, no caso da Riviera do Ciclope; e para Siracusa, visitando a Comuna de Noto. No segundo texto que indicamos acima, você pode encontrar dicas mais completas sobre essas duas magníficas cidades italianas.

Riviera dei Ciclopi

“Naquelas quarenta e oito horas, fizemos tudo o que se pode fazer em Acitrezza: passeamos na poeira da rua e subimos aos rochedos; com o pretexto de aprender a remar (…) A aurora nos surpreendeu no alto do recife, uma aurora modesta e pálida, que ainda está diante de meus olhos, sulcada por largos reflexos violeta, sobre o mar pintado de verde escuro, reunida como uma carícia sobre aquele grupinho de casebres, que dormiam quase enrolados na praia…”

Retirado do conto Fantasia, de Giovanni Verga, escritor siciliano
Riviera dei Ciclopi

Um de nossos literatos favoritos em língua italiana, o siciliano Giovanni Verga, sintetiza bem, neste breve, porém belíssimo, trecho de seu conto Fantasia (que posteriormente se transformaria na base para a criação de um de seus mais estupendos romances, Os Malavoglia), nossa sensação ao passar pela Riviera dei Ciclopi, localizada a menos de 12 quilômetros a nordeste de Catânia. Desde a beleza rochosa do Burgo de Aci Trezza, até a impressão marcante e perene de seu nascer do sol, como visto do alto dos recifes.

Como o próprio nome sugere, a Riviera é, além de destino turístico destinado à apreciação litorânea, em suas mais diversas formas, também um território muito identificado com suas supostas origens mitológicas. Antes de guia-los para um roteiro imperdível por mais um destino completamente desconhecido no Brasil, convido-os para uma viagem à Antiguidade Clássica.

A mitologia nos conta que Ácis, um pastor siciliano, filho de Pã (deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores) estava apaixonado por Galateia, uma ninfa marinha belíssima e, como o próprio nome sugere, alva como o leite. Ao se conhecerem, passaram a viver uma intensa história de amor. E, como não poderia deixar de ser nas grandes histórias mitológicas, há sempre um antagonista que tempera a tragédia. Este era Polifemo, um ciclope, filho de Poseidon, que vivia isolado em uma montanha próxima ao Etna. O ciclope sentiu muito ciúme do amor entre Ácis e Galateia, atirando no jovem pastor uma enorme rocha, esmagando-o nas profundezas. Galateia, assim que soube da morte de seu amado, inconformada e extremamente triste, em um paroxismo de dor, derramou toda a lágrima que cabia em seu corpo no lugar onde Ácis jazia esmagado pela rocha de Polifemo. Os deuses, bastante penalizados pela dor da ninfa, transformaram o sangue de Ácis em um delicado rio que desce do Etna e deságua no que hoje seria a Riviera dei Ciclopi.

Ácis, Galateia e Polifemo representados por François Perrier, no século XVII

O rio realmente existe, mesmo sendo quase que completamente subterrâneo, até desaguar na Riviera, numa vila de pescadores em Capo Mulini. E sua cor avermelhada, muito provavelmente sob a influência do solo vulcânico do Etna, dá a ele, até hoje, entre os pescadores da região, o nome carinhoso de “o sangue de Ácis”. Ácis, inclusive, inspira a nomenclatura dos dois burgos principais que indicaremos hoje para a sua visita: Aci Trezza e Aci Castello. Outras tantas localidades em Catânia trazem também este prefixo, “Aci”, em homenagem ao velho e trágico conto mitológico.

Aci Trezza – O Burgo de pescadores de Aci Trezza tem sua própria identidade de origem mitológica. Também relacionada ao ciclope gigante Polifemo, que desta vez teria enfrentado Ulisses e sua tripulação, conforme narrado na famosíssima Odisseia de Homero.

Para conseguir fugir do gigante de um olho só, Ulisses teria o embebedado, até que dormisse. Antes de ir embora, numa tentativa de evitar a reação de Polifemo, a tripulação que sobrara do primeiro ataque furou o olho do gigante! Este, bastante atordoado e possesso de raiva, atirou contra os navegantes diversos rochedos. Heroicos, os viajantes conseguiram escapar, mas os rochedos teriam dado origem às formações geográficas mais características da região: os farelhões (faraglioni, em italiano), também conhecidos pela denominação de Isole dei Ciclopi (Ilha dos Ciclopes).

Vista dos farelhões

Independentemente dos interesses mitológicos que traga para Aci Trezza, é importante conhecer as Ilhas dos Ciclopes. Há sempre uma série de pescadores ávidos por um dinheiro extra à disposição no litoral para passeios de barco. Os valores variam de acordo com a época do ano e o verão, claro, é o período com maior movimento. Os sicilianos, principalmente os de Catânia, viajam muito para cá. É também o período que aconselhamos para o seu retiro de férias na Sicília.

Dica: Se estiver mesmo no Burgo no verão, poderá notar o quanto o mar é límpido e coberto por um azul cristalino. Aproveite o passeio de barco para mergulhar em algum ponto das Isole dei Ciclopi. Imperdível!

Ao passear pelas Ilhas, deverá também conhecer a maior delas, que faz companhia aos faraglioni, chamada de Isola Lachea. Juntamente com os farelhões, hoje é uma reserva ambiental, protegendo as espécies animais e vegetais arriscadas de extinção. E, também, mais uma vez segundo a belíssima história mitológica, teria sido o imenso rochedo atirado contra o pobre Ácis. Sempre reflito sobre como a Itália é incrível nesta mistura entre a beleza paralisante da natureza e sua massiva riqueza histórica. E a Ilha Lachea é o lugar ideal para esta doce contemplação.

Ilha Lachea

De volta à Riviera, invista um pouco do seu tempo na praia de Aci Trezza. Ela é muito diferente do que estamos acostumados no Brasil, onde temos quilômetros abundantes dos mais variados tipos e cores de areia fina, confortável sob os pés descalços. O litoral do Burgo é inteiramente coberto por pedras, como já mencionamos diversas vezes em outros roteiros pela variadíssima costa italiana. Os locais não se importam, e as praias são cheias no verão. O Lido dei Ciclopi, estabelecimento que atende aos turistas e locais à beira do mar, no verão, estende uma plataforma sobre as pedras, facilitando o acesso pelo mar através de uma escada, como em uma enorme piscina ao ar livre.

No que se refere à culinária, aproveite Aci Trezza no que ela tem de melhor: inúmeros restaurantes especializados em frutos do mar. Tudo fresco, tudo bem cuidado para uma experiência gastronômica inesquecível. É possível almoçar ou jantar com bastante tranquilidade. Mas é sempre importante se preparar para o verão, o Burgo fica bastante ocupado pelo turismo, mesmo local; os restaurantes também.

Aci Castello – Ainda na Riviera, recomendamos também que visite a Comuna de Aci Castello, localizado um pouco mais de 1 quilômetro de Aci Trezza, ainda no litoral da Catânia.

Diferentemente do Burgo que acabamos de descrever, Aci Castello tem sua origem histórica um pouco distante da mitologia, fincada na história mais tradicional do próprio castelo construído no século XI, após as invasões medievais normandas.

Originalmente, o território onde está localizado o castelo era uma ilha vulcânica, resultado do derramamento basáltico do Etna. Era, claro, um ponto de observação dos normandos e também posto avançado de vigilância. No século XII, o Etna entra mais uma vez em erupção, desta vez de forma bastante violenta, derramando sua lava a tal ponto que a ilhota do castelo é agora conectada ao litoral de Catânia, formando uma pequeníssima península. Observar esta formação geológica é um misto de admiração das forças naturais e sua estética (todo o solo que forma a base do castelo e o litoral circundante é preenchido por uma cor negra intensa) e uma sensação de temor pelo poder de destruição desta mesma atividade natural.

Vista aérea de Aci Castello

O castelo está aberto para visitações todos os dias, inclusive aos domingos. A sua visita valerá a apena não apenas pela observação da estrutura arquitetônica da fortificação em si, mas pela vista que ela proporciona do litoral da Catânia. Apreciar a vista do mar de dentro de um castelo medieval sempre será uma experiência marcante para qualquer visitante, mesmo para aqueles que não prestaram lá muita atenção nas aulas de história do colégio. A estrutura do castelo é também um museu, sendo possível, para além da vista para o mar, entrar em alguns de seus cômodos e conhecer alguns objetos retirados de sítios arqueológicos anteriormente ativos na Comuna. Saindo do castelo, é possível também conhecer um jardim de cactos e suculentas, que proporcionam uma visão belíssima em contraste com o solo arenoso da Sicília, principalmente ao pôr do sol.

Todo o litoral de Aci Castello é bastante acidentado e tomado pelas erupções vigorosas do Etna. Claro, os locais aproveitam bastante o verão pela costa, todavia, não é muito frequentado pelo turismo internacional, não oferecendo, assim, as mesmas estruturas que existem em Aci Trezza, por exemplo. Assim, além da visita ao castelo normando, talvez não exista mais grandes atrativos turísticos por aqui. Uma dica valiosa seria aproveitar bastante a comuna no que ela pode oferecer de histórico e geológico, e depois voltar para Aci Trezza e seu litoral rochoso badalado no verão.

Noto

A Comuna de Noto está dentro da Província de Siracusa, a um pouco mais de 30 quilômetros ao Sul da Capital. Recomendamos, então, que passe por aqui como parte de sua viagem de reconhecimento de Siracusa, para aproveitar a proximidade. O ideal é chegar à Comuna no início da manhã. Logo veremos que a observação arquitetônica em Noto, ao nascer do sol, deixará marcas inesquecíveis em sua memória.

Vista aérea de Noto

A primeira informação que deve saber sobre a Comuna é a de que todo o seu centro histórico é, como já revelamos tantas vezes sobre pontos turísticos italianos, reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Isto se dá, porque Noto precisou ser reconstruída praticamente do zero após o terrível terremoto de 1693, que a destruiu por completo. Apesar da tragédia, a reconstrução proporcionou um dos maiores testemunhos não apenas da capacidade siciliana de se reerguer, como também da magnificência do Barroco Siciliano, estilo sob o qual o território devastado foi restabelecido.

Conhecida como Jardim de Pedra, Noto revela, no tom amarelado do tufo (material calcário sobre o qual foi reconstruída), detalhes estéticos incríveis, mesmo para o visitante que conhece tão pouco sobre os detalhes artísticos e técnicos de obras arquitetônicas. É neste sentido que oferecemos a você a dica de chegar aqui ao nascer do sol. Conforme ele sobe no céu, o visitante pode observar as fachadas barrocas dos edifícios mudando os tons de amarelo em gamas talvez jamais vislumbradas em outro lugar. É muito comum parar nas ruas da Comuna e perceber-se entortando o pescoço para cima, como quem reage naturalmente a mais uma luz refletida em um tom mostarda nunca visto antes. O jogo de luz e sombra, definidor do estilo Barroco, em Noto, ganha matizes inimagináveis para quem nunca passou por lá. Do arco na entrada principal ao Duomo, cada matiz de amarelo irá surpreender.

Noto possui cerca de 50 igrejas e 15 palácios, reconstruídos após o terremoto por uma equipe de arquitetos dos séculos XVII e XVIII, sob a supervisão do Duque Giuseppe Lanza, Duque de Camastra, importantíssimo na época por acompanhar diversas obras de restauro e remodelação, após o trágico terremoto de 1693. Assim, se o seu roteiro por aqui for de apenas um dia, como parte do reconhecimento de Siracusa, é possível que seu agente de viagens organize o trajeto usando como ponto de partida a Via Vittorio Emanuele, a rua principal da Comuna. É a partir de seu arco principal que será possível visitar os pontos mais importantes de Noto, assim como suas características mais marcantes.

Ao longo da Via Vittorio Emanuele, não se pode perder de vista, claro, o Duomo da Comuna, dedicado a São Nicolau. Certamente é a obra barroca mais marcante por aqui, dada a sua grandiosidade, principalmente externa. Todavia, não deixe de conhecer o máximo possível das igrejas locais. Tanto em sua parte externa, quanto interna. São todas verdadeiras aulas de história da arte barroca a cada passo que se dá. Em algumas delas, inclusive, é possível subir alguns andares e avistar Noto do alto, proporcionando não apenas uma nova perspectiva, como também fotos memoráveis. São imperdíveis: o Duomo, a Igreja de São Domenico e a Igreja de São Francisco.

Catedral de Noto

Dica: Sugerimos com bastante ênfase que planeje visitar todas as igrejas que conseguir ainda na parte da manhã. Elas fecham para visitação mais ou menos das 13h até às 16h, quando termina a pausa para o longo almoço, típica dentre as pequenas cidades ao Sul da Itália, após a longa influência do domínio espanhol. Uma dica especial aos amantes de fotografia é sempre tentar diversas tomadas diferentes das fachadas dos edifícios. Como já dissemos, os tons de amarelo e o jogo entre luz e sombra compõem efeitos incomparáveis com outros locais da Itália. E, claro, aproveite a influência do slow food em Noto e não tenha pressa. Por aqui, vale mais absorver ao máximo os detalhes do que acumular uma série exaustiva de visitações que acabam perdendo o sentido e não marcando a memória.

Para além da arte barroca dedicada à reflexão religiosa, conheça também, em frente à Catedral, o Palazzo Ducezio, finalizado apenas no século XIX e hoje sede da prefeitura da Comuna. Nomeado em homenagem ao fundador da Comuna, o Palácio carrega não apenas a estética do barroco tardio siciliano, como também influências da arquitetura francesa do século XVII, principalmente em seu mobiliário inspirado na Corte de Luís XV.

Palazzo Ducezio

Passe também pela Via Corrado Nicolaci, especialmente pelo Palazzo Nicolaci di Villadorata, para contemplar a vista inferior de suas detalhadíssimas sacadas. Uma das alas do Palácio é aberta para a visitação pública, entretanto, apenas a apreciação destas engenhosas sínteses mitológicas em forma de arte barroca vale toda a visita por Noto. É como observar um microcosmos não apenas da arte barroca, ou da própria Comuna, ou mesmo da mitologia romana que as inspira, porém, sim, de toda a história da Itália, recheada por patrimônios que deveriam mesmo ser conhecidos por toda a humanidade.

Dica: Se a sua viagem coincidir com o terceiro fim de semana do mês de maio, poderá presenciar, na Via Corrado Nicolaci, em frente ao Palácio que citamos acima, o famoso festival da Infiorata, quando a rua fica completamente forrada por um imenso tapete de flores. O auge do espetáculo se dá no domingo, quando um grupo de atores, vestido com roupas típicas do século XVIII, percorre a cidade em homenagem ao período que marcou a arquitetura e a história de Noto para sempre. O cortejo Barroco é uma atração muito especial na Comuna e merece sua visita!

Festival da Infiorata

E para aqueles que apreciam descobrir os sabores locais, não deixem de conhecer a gastronomia da Comuna. Logo em frente ao portal da cidade, por exemplo, será possível encontrar uma espécie de pequena feira com a disposição de produtos culinários locais; ou, como eles mesmo preferem chamar, os prodotti tipici del território (produtos típicos do território). Por aqui encontrará desde o tradicional tomate seco, até uma diversidade incontável de azeites de oliva e o incrível Zibibbo, vinho branco siciliano feito de uma variedade específica de uva moscada. Também conhecido por Moscado de Alexandria, o vinho tem origem egípcia e foi reconhecido na Sicília, em 2014, como Patrimônio da Humanidade.

Agora, imperdível mesmo é experimentar a Granita! Típico sorvete de Noto, uma versão absolutamente superior ao que chamaríamos aqui no Brasil de “raspadinha” (perdoem-me a infame comparação), é menu obrigatório para qualquer visitante. No Caffe Sicilia é possível escolher no menu a degustação de vários sabores diferentes. Passe pelas amêndoas de Noto, pelas amoras, pelo limão ou pela mistura de tomate com morango. Não importa. A memória do final de tarde em Noto será sempre acompanhada pelos sabores de sua Granita!

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