Segesta e Castellammare del Golfo – Potência Histórica e Beleza Litorânea a Noroeste da Sicília

Cidades Históricas - 02/04/2018
Por Adrian Theodor

Em nossos dois últimos textos sobre a Ilha da Sicília, tratamos sobre sua longa história e cronologia de ocupações humanas, desde a Antiguidade Oriental. Seja em Marsala e Mazara del Vallo, ou em Agrigento e Selinunte, a Ilha possuiu vasta rede, composta por dezenas de diferentes intersecções humanas. Todas elas, direta ou indiretamente, compuseram aquilo que conhecemos da Sicília contemporânea, tão rica quanto profundamente escarificada. Hoje, visitaremos mais um trecho deste longo percurso siciliano, que não trata apenas de sua própria história, como também da trajetória da própria Itália e, por que não dizer, da humanidade nela mesma.

Dica: Se ainda não entrou em contato com nossos textos sobre este segmento específico da história da Sicília, não deixe de ler as seguintes sugestões de roteiro: Pontos Estratégicos a Oeste da Sicília – Mazara del Vallo e Marsala e Agrigento e Selinunte – A Magnífica Antiguidade Histórica a Oeste da Sicília.

Sairemos hoje da Sicília Oriental, chegando ao Noroeste, ainda na ampla Província de Trapani, e visitaremos um pouco mais das origens históricas da Ilha, em Segesta; e, finalmente, entraremos em contato novamente com a leveza e delicada beleza do litoral siciliano, em Castellammare del Golfo.

Segesta

Os dois pontos de chegada mais importantes de Segesta são, ambos, originários da Antiguidade Ocidental, também chamada de Clássica, especificamente do período de dominação grega: o Templo, do século V a.C.; e o Teatro, do século III a.C. Porém, antes de tratar deles em específico, gostaria de convidar você a uma breve reflexão sobre a devastadora história desta antiga cidade siciliana.

Templo grego em Segesta

Atualmente, Segesta é, praticamente, um Grande Parque Arqueológico, resultado temporal daquilo que um dia foi uma das mais imponentes cidades da Antiguidade Clássica sob a ocupação grega. Em sua origem, foi habitada por povos Elímios, provavelmente antigos moradores da Península da Anatólia, estabelecidos em comunidades familiares no que seria hoje o território da Grécia. Na grande Diáspora que daria origem ao imenso território da Magna Grécia, quando gregos se estabeleceram no Sul da Itália, os Elímios teriam ocupado parte da Sicília Oriental e o Noroeste da Ilha, formando, por volta de V a.C. o que hoje conhecemos por Segesta.

A formação elímia se deu no topo do Monte Bárbaro, sob terra incrivelmente fértil, e visão privilegiada dos arredores, atingindo inclusive, em tempo bom, a visão do mar. Mais uma vez, o valor estratégico do posicionamento geográfico, na Sicília, iniciou longa e trágica disputa, atraindo a atenção da população de Selinunte, que logo se tornaria a maior rival de Segesta. Por volta de 409 a.C., com a ajuda providencial e ao mesmo tempo interessada de Cartago, Segesta derruba a tentativa de invasão de Selinunte, não sem pagar caro, todavia, com a destruição parcial de seu próprio território. A primeira de, infelizmente, muitas outras que viriam a seguir.

Já no século IV a.C., nova investida de Selinunte, agora aliada de Siracusa, termina em total arrasamento das terras de Segesta, mesmo esta contando com o apoio militar da poderosa Atenas. Apesar de um breve florescimento no período de domínio romano, a cidade nunca mais seria a mesma, sofrendo severas consequências de suas contendas com sua oponente siciliana. A própria intervenção romana, mesmo que perene, é interrompida, já em nossa era, por novas investidas inimigas, como a dos povos Vândalos, por exemplo, levando Segesta a nova onda de completa destruição e abandono.

Apesar dos sucessivos desmantelamentos pelos quais foi submetida, existem duas construções, datadas da Antiguidade, muitíssimo preservadas no Parque Arqueológico de Segesta: o Templo, e o Teatro. A seguir, enfim, contaremos um poncho da história destes dois grandes sobreviventes. São pontos obrigatórios não apenas para aqueles que se interessam pela história da Sicília ou mesmo da Itália. São passagens turísticas importantíssimas para que entremos mais uma vez no íntimo, na origem e na essência da cultura Ocidental.

O Templo – é bastante curioso visitar o Templo de Segesta. Ele representou, para mim, uma ambiguidade bastante relevante sobre a passagem do tempo. Como eu disse anteriormente, a história desta região da Sicília poderia ser sintetizada na palavra “destruição”. As guerras foram tão intensas por aqui, que poucos sinais sobraram para que possuíssemos testemunho concreto sobre o que realmente aconteceu. Tucídides e Plutarco são exemplos relevantes de relatos escritos preservados até os dias atuais sobre os acontecimentos do período histórico em questão. Todo o resto, os vestígios materiais por assim dizer, foi levado pela areia do tempo. Porém, o Templo, próximo ao topo do Monte Bárbaro, é uma das construções religiosas mais conservadas em toda a Itália. Sua localização estratégica, a centelha elementar de praticamente todas as invasões ocorridas por aqui, pode ser justamente o motivo da superação desta obra arquitetônica às intempéries bélicas. Longe do litoral, afastado do centro da antiga cidade, resistiu aos saques inimigos e à total deterioração.

Templo grego em Segesta

Construído em estilo Dórico, o Templo possui 6 colunas frontais arredondadas, e mais 14 laterais, totalizando mais de 60 metros de comprimento. Imponente, como somente ao vivo se pode constatar com veracidade e emoção, mais uma vez atesta a ambiguidade de Segesta: sua edificação nunca foi concluída, provavelmente postergada ao infinito depois do cerco de Selinunte. E, mesmo assim, é capaz de trazer à tona sentimentos profundos de pertencimento histórico. Mesmo para os viajantes mais experientes, a conexão íntima entre a paisagem natural circundante e a altivez do Templo, possibilita profundo momento de contemplação. Não se sabe a que divindade ele era dedicado, não se sabe exatamente quando sua construção foi iniciada – em algum momento do século V a.C. –, tampouco como conseguiu resistir aos abalos a sua volta. Contudo, ali está ele. Para quem quiser ver. Nunca deixará de me impressionar.

O Teatro – ainda mais alto, agora sim, finalmente, no topo do Monte Bárbaro, está o Teatro romano de Segesta. Construído em algum momento do século III a.C. (é impossível precisar uma data), durante a ocupação romana, oferece ao visitante visão privilegiada dos arredores. Em dias limpos de sol, inclusive, torna-se possível até avistar Castellammare del Golfo, a mais de 20 quilômetros de distância (e também a próxima parada deste roteiro).

A edificação foi organizada em um tipo de obra de engenharia e arquitetura bastante comum à época do Império Romano, apesar de permanecer até os dias atuais como bastante ousada e complexa. Escavado nas rochas do Monte e finalizado com blocos calcários do mesmo local, o Teatro possuía capacidade de 4 a 5 mil pessoas e primava, como era hábito na Antiguidade, pela excelente acústica. Até hoje é utilizado, principalmente no verão, para mostras musicais e de dança, oferecendo a quem tiver a oportunidade raríssima de estar presente um fôlego de vida do que poderia ter sido uma apresentação por aqui no dia-a-dia dos seus habitantes locais, na Antiguidade. Sentar-se na mesma rocha por onde sentou um morador de Segesta ou um membro do Império Romano não é algo que se pode viver todos os dias. Isso, sem mencionar ainda o impacto visual que temos do teatro, localizado no topo da colina. É verdadeiramente incrível, magnífico. Esta vista, assim como todo o momento presente por aqui, ficará reservado em sua memória, no compartimento mais profundo do coração.

Teatro romano de Segesta

Castellammare del Golfo

Localizada a Noroeste da Sicília, Castellammare era conhecida na Antiguidade como Segestanorum Emporium, ou Porto de Segesta. E funcionava como ponto de entrada e saída para o comércio dos povos Elímios, que fundaram Segesta, como já contamos a você neste roteiro. Era, portanto, estabelecimento estrutural para a economia do local.

Vista aérea de Castellammare

No início da Idade Média, foi ocupada pela expansão do Império Árabe, que acabou por dominar parte do Sul da Europa e vários territórios sicilianos, principalmente na banda Oriental, como já tratamos em outros textos. Durante o domínio árabe, Castellammare serviu como ponto avançado de vigilância e proteção, recebendo a construção de um Castelo, que é um dos pontos históricos mais visitados da Comuna (recomendaremos uma visita guiada ao Castelo, mais adiante). Ao longo da presença arábica, Castellammare recebe o apelido de Al Madarig, ou seja, “Os Degraus”, denotando, claro, a geografia bastante acidentada do lugar, que pode ser observada até os dias atuais, principalmente quando se sai do centro histórico em direção ao porto, numa descida sem fim.

Enfim, já no século XIII, no contexto da Baixa Idade Média, foi invadida por povos de origem Normanda, mantendo sua tradição de posto avançado e fortaleza militar. Posteriormente, como já mencionamos inúmeras vezes no que se refere à história da Sicília, chegou a pertencer ao Reino de Aragão, vivendo longo período de degradação. O Reino espanhol é expulso, finalmente, pelas tropas de Garibaldi, no contexto ambíguo da libertação em nome da unificação da Itália, até então dividida em diversos reinos.

Entretanto, quando se pensa em Castellammare del Golfo, logo se associa ao seu belíssimo, diverso e delicado litoral. A Leste do Centro Histórico, encontramos a costa típica do território brasileiro, arenosa e badalada. A Oeste, contudo, somos recebidos pela beleza rochosa característica do solo siciliano, representado por praias cheias de pedrinhas, como aquelas recorrentes ao redor da Itália. Apesar de pequena, a Comuna de Castellammare tem uma estrutura incrível quando se tratam de suas praias, e vale muito a pena recorrer a elas, principalmente se o roteiro que organizou pela Sicília já passou por tantas andanças históricas, como sugerimos aqui em nossos textos para este Blog. Parar um pouco é sempre bem-vindo. Seja para aproveitar o sol da Ilha no rosto, seja para ler as palavras de um bom autor siciliano à beira-mar, apreciar a comida típica de Castellammare ou simplesmente descansar os olhos no mar cor de vinho, como apelidado por Sciascia. Logo indicaremos alguns pontos de parada paradisíacos (e não menos famosos) por aqui.

O que podemos ver em Castellammare, afinal? A seguir, indicamos alguns pontos que não podem ficar de fora de um roteiro por aqui. Sempre lembrando da importância em se ter um bom agente de viagem ao longo de sua caminhada pelo Sul da Itália. Por mais receptivo que seja o seu território, considero essencial consultar especialistas quando se trata do Velho País, porque eles não nos deixam perder nada!

Centro Histórico – como já mencionamos, a Comuna é bastante pequena, fazendo de seu passeio algo muito mais tranquilo do que visitar grandes centros, como Roma ou Milão. Mesmo assim, não deixe de percorrer toda a extensão da Corso Garibaldi, a rua principal. Nela, prove em qualquer um dos cafés abertos, uma genuína Granita Siciliana, uma espécie mais distinta de sorvete, preparada com suco de fruta natural. Se ainda não leu nosso primeiro texto sobre o que há de desconhecido na Sicília, por favor, acesse: A Sicília Desconhecida (Parte 1): a Mitologia em Riviera dei Ciclopi e o Barroco de Noto. Aqui falamos sobre a Granita Siciliana e muito mais!

Corso Garibaldi

Piazza Matrice – é, claro, como tradicionalmente encontramos pelos nossos roteiros italianos, a Praça principal da cidade. É por aqui que, inclusive, encontramos a Parrocchia Maria Santissima del Soccorso, construída pelo Reino de Aragão, durante a ocupação espanhola da Comuna, no início do século XVIII, pelo arquiteto Giuseppe Clemente Mariani. Chama a atenção seu interior, delicado, porém bastante decorado, em tons de branco e dourado; além da representação escultórica, ricamente iluminada, da Nossa Senhora do Socorro, que dá nome à Paróquia, por ser a patrona da Comuna.

Nossa Senhora do Socorro

Castello Arabo Normanno – o Castelo é, obviamente, o ponto alto da visita histórica à Castellammare. Construído inicialmente pelos árabes, ainda no início da Idade Média, foi intensamente modificado pelos Normandos, já no século XIII, mantendo até os dias atuais características arquitetônicas deste povo em específico. Além da construção em si, é possível visitar em seu interior um pequeno museu com diversos achados arqueológicos da própria Comuna, além de objetos agrícolas e de pesca locais, de vários períodos diferentes.

Castello Arabo Normanno

Belvedere Castellammare del Golfo – a Noroeste do Castello, a um pouco mais de 2 quilômetros, podemos encontrar uma localização privilegiada da Comuna, com diversos pontos panorâmicos, de onde se avista praticamente toda a extensão de Castellammare, permitindo fotografias “aéreas” incríveis. Não há nada de muito “histórico” por aqui, contudo, é um ponto de parada obrigatório para aqueles que gostam de fotografar. A vista é incrível e mudar um pouco a perspectiva do olhar é sempre um convite que devemos aceitar de bom grado. A imagem que abriu esta parte de nosso texto, inclusive, foi feita por aqui.

Praias – como já mencionamos aqui, as praias de Castellammare são diferentes, conforme passamos pelo litoral. Uma parte da costa é arenosa, como conhecemos aqui no Brasil. A outra, mais a Oeste, é pedregosa, tipicamente siciliana. Praticamente todo o litoral da Comuna é passível de visitação e de bons dias de praia, com a presença de estrutura bastante convidativa ao turista, mesmo internacional.

Uma das mais conhecidas, La Playa, é arenosa, muito utilizada por famílias, por exemplo, locais ou internacionais. Para quem aprecia excursões por reservas naturais, há a Riserva dello Zingaro, território de 4 mil hectares extremamente preservados e com 7 enseadas por onde se pode acessar o litoral. Os acessos são diversos e com níveis de dificuldade variados. Entretanto, vale muito a pena. Agora, a grande preciosidade de Castellammare e uma das partes de seu litoral mais visitadas, é a Praia de Scopello. A visão dos faraglioni, formações rochosas em alto mar que despontam para acima da superfície, é surpreendente. Imagino que não há face dessas rochas que já não tenha sido fotografada e editada e compartilhada à exaustão. E não é por menos, é realmente uma visão inesquecível.

Faraglioni na Praia de Scopello

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