Pontos Estratégicos a Oeste da Sicília – Mazara del Vallo e Marsala

Por Adrian Theodor

 

No texto de hoje, continuamos navegando o périplo da Sicília. Agora a Oeste da Ilha, visitaremos Mazara del Vallo e Marsala, dois territórios com origem na Antiguidade Oriental e, portanto, carregados de história.

Agregamos estes dois roteiros não apenas pela proximidade geográfica, no litoral Ocidental da Ilha, como também por suas similitudes na ocupação histórica. Dos Fenícios aos Árabes, ambos foram pontos estratégicos tanto para as intensas redes comerciais daqueles, quanto para a disputa territorial a Leste da África para estes. Localizados na Província siciliana de Trapani, estes territórios possuem, por outro lado, particularidades que merecem ser contadas.

MAZARA DEL VALLO

Como já dissemos, Mazara del Vallo, Comuna italiana pertencente à Província de Trapani, está localizada a Oeste da ilha da Sicília, em posição estratégica em relação aos territórios africanos. Tal informação, ambivalente em si mesma, é relevante para entendermos a história da ocupação deste posto avançado no litoral, desde a presença dos Fenícios, que o fundaram, já no século IX a.C. Por um lado, favoreceu os negócios comerciais deste povo, por outro, tornou a Comuna um constante palco de invasões e ofensivas militares. Denominada de Mazar (a Rocha), pelos Fenícios, chegou a ser tomada diversas vezes, passando para o domínio dos gregos, cartagineses (vindos do Norte da África), romanos, vândalos, ostrogodos e bizantinos; numa sucessão de poderes que acabou por sintetizar a própria história humana da Sicília.

Foi a ocupação Árabe, a partir do século IX da nossa era, contudo, que deixou as maiores marcas no território de Mazara del Vallo. A expansão do que seria o gigantesco Império Islâmico confirmou a Comuna como importantíssimo centro comercial, além de transformá-la em relevante centro de aprendizagem em língua árabe. Ao contrário da visão rasteira que se costuma ter, principalmente na Europa e América do Norte, sobre as limitações culturais e intelectuais dos muçulmanos, o vasto Império, ao longo de suas ocupações militares, na Alta Idade Média, propiciou legado imprescindível aos povos ocupados. Grande parte do que se conservou da filosofia grega na Península Ibérica, por exemplo, foi graças ao cultivo da memória empreendido pelos mouros. O mesmo se pode dizer sobre o conhecimento matemático e astronômico. A Oeste da Sicília, a marca indelével se dá nas influências que podem ainda ser notadas na formação arquitetônica do centro histórico desta Comuna, denominado até os dias atuais, não à toa, de Kasbah.

No século XI, os Normandos expulsam os árabes do território siciliano, fundando novo governo, como parte da expansão europeia inspirada no movimento militar e religioso das Cruzadas. Não por coincidência, o mesmo período histórico marca a expulsão dos reinos árabes em Portugal e na Espanha. Já no século XIII, marco cronológico importante da grande crise da Idade Média, a Comuna passa para as mãos dos espanhóis de Aragão. Transitando de reino em reino (Dinastias de Aragão, Saboia, Habsburgo e Bourbon), a Era Moderna de Mazara del Vallo é marcada por intensos processos de centralização e consequente isolamento de seu perímetro, sendo acentuado o declínio econômico.

Até que, finalmente, já no século XIX, é libertada pelas invasões de Garibaldi, no contexto do violento processo da Unificação da Itália. Num primeiro momento, a chegada de Garibaldi, como acontece em outras localidades sicilianas, é recebida como a tão esperada libertação dos invasores estrangeiros. Entretanto, com o passar do tempo, torna-se amarga na medida em que se decompõe no domínio dos Reino Sardo-Piemontês, que unifica o território italiano sob sua coroa. Em toda sua complexidade histórica, a Unificação da Itália sempre foi recebida com, ao menos, ambiguidade, pelos povos do Sul da Península, tendo na Sicília seus maiores opositores.

Atualmente, Mazara del Vallo recebe ainda um número muito grande de imigrantes vindos do Magrebe, região do Norte da África. Seja na forma do turismo marítimo e histórico, seja na tentativa de encontrar por aqui melhores condições de trabalho e sobrevivência. A proximidade com o continente africano, como já dissemos, guarda influências na Comuna até os dias atuais. Não é incomum ouvir o árabe sendo pronunciado no centro histórico da cidade, por exemplo.

Apesar de litorânea, o que mais chama a atenção dos turistas que visitam Mazara del Vallo é sua tradição arquitetônica e histórica. A seguir, destacamos alguns pontos de parada que são obrigatórios em sua chegada por aqui:

Duomo – a Catedral da Comuna foi construída originalmente ainda no período Normando. Construída na Piazza della Republica, o Duomo foi restaurado no século XVII, tendo a fachada reformulada em estilo barroco. Logo na entrada, existe um alto-relevo  do Conde Rogério sobre seu cavalo, representando sua luta contra os Árabes no século XI. Na parte interna, chama atenção a construção de seis grandes estátuas de mármore, na parte de trás do altar, representando a Ascenção de Cristo aos céus.

Palazzo del Seminario – ainda na Piazza della Republica, encontramos o Seminário de Mazara del Vallo, construído no século XVIII, sob a ótica da arquitetura Neoclássica. A estrutura do Seminário é imponente, composta por 16 arcos e 20 pilares em estilo toscano, retomando as técnicas arquitetônicas etruscas, tão fortes em toda a Sicília. Por aqui, atualmente, no piso térreo, funciona o Museu Diocesano, que exibe o assim chamado “tesouro dos bispos”, com objetos sagrados como crucifixos e relicários.

Piazza Mokarta – recebe o nome de um importante general árabe do século XI, que teria sido vencido por Rogério I, o mesmo que aparece em alto-relevo na Catedral. A Praça possui um arco do período Normando, em homenagem à conquista contra o Império Árabe. Atualmente, é muito utilizada como ponto de encontro para se caminhar pela Corso Umberto, uma das ruas principais da Comuna, onde se pode fazer compras ou parar para aproveitar a culinária local em um de seus vários restaurantes típicos.

Piazza del Plebiscito – esta praça representa a própria colcha de retalhos que é a Comuna, por possuir influências tão diversas como suas ocupações territoriais. Por aqui, encontramos o Colégio dos Jesuítas, fundado no século XVII, apresentado por sua imponente fachada e seu pátio central, ladeado por longos arcos. É possível, ainda, visitar as variadas atrações de um Centro Cultural que abrange o Museu Cívico, a Biblioteca Pública, o Museu de Atividades de Pesca e o Arquivo Histórico. Na antiga Chiesa di Sant’Egidio, também na praça, funciona o atual Museu do Sátiro, que abriga a famosa escultura do Sátiro Dançante, encontrada no litoral da Comuna por pescadores, ao final do século XX e possivelmente datado do século IV a.C. A estátua de bronze representa uma dança contorcida, bastante semelhante aos achados arqueológicos relacionados aos cultos a Dionísio, na Antiguidade Clássica.

Kasbah – localizada a Noroeste da Comuna, a Kasbah é a representante mais fiel da presença árabe neste território. Também conhecida como Distrito Tunisino, possui as maiores influências da arquitetura mourisca de toda a Mazara del Vallo. Corresponde a uma espécie de quadrilátero entre a Via Pescatori, Via Bagno, Via Paolo Ferro e Via S. Nicoli. Apesar de já ter sofrido diversas reconstruções em estilo barroco, ao longo da Idade Moderna, em decorrência de diversos terremotos, o Distrito preserva as tradições do Norte da África, oferecendo ao visitante, mais uma vez, a perspectiva diversa da formação territorial e identitária da Comuna; dando a sensação, até, de já termos cruzado o estreito, com destino à África Islâmica.

Chiesa di San Nicolò Regale – ainda navegando pelas belezas arquitetônicas da Comuna, encontramos a Igreja de São Nicolau, com sua estética Árabe-Normanda. Sólida e à primeira vista com poucas entradas de luz, faz lembrar as características românicas das construções Normandas. Ao mesmo tempo, as ameias, pontos de vigilância no topo do edifício, trazem aspectos da influência árabe. Seu interior é surpreendentemente bem iluminado, além de delicado e decorado à moda árabe. Mais um gracioso exemplo das múltiplas camadas históricas pelas quais foi submetida a Comuna ao longo de sua permanência neste mundo.

MARSALA

Assim como Mazara del Vallo, Marsala está localizada na Província de Trapani, no extremo mais Ocidental da Sicília. Devido a sua posição geográfica – como já mencionamos anteriormente –, estratégia por excelência, a Comuna passou também por diversos domínios ao longo de sua existência. Confundem-se, assim, os relatos de ocupação destas duas comunas tão relevantes para a história siciliana.

Fundada por Fenícios ainda no século VIII a.C., a partir da Ilha de Mozia, muito utilizada para gerenciar o comércio Ocidental desta poderosa civilização, foi devastada pelas invasões da vizinha Siracusa, a partir do século IV a.C. Assim, a própria origem da Comuna é cercada, ao mesmo tempo, por uma urgente imponência comercial e concorrências bélicas por seu território. Fato que levou os Fenícios a murar praticamente toda a Comuna, na tentativa vã de proteção militar, já que Marsala volta a ser ocupada, agora por Cartegineses e Romanos, no contexto da Primeira Guerra Púnica, no século III a.C.

Lilibeo (“cidade que olha para a Líbia”, assim chamada à época da ocupação Fenícia) cai então sob o domínio Romano, vivendo um de seus maiores apogeus. Recebe uma magnifica diversidade de vilas e prédios públicos, sedo, inclusive, denominada por Cícero como splendidissima urbs. O esplendor de Marsala se desenvolve durante todo o período Romano, iniciando sua intensa queda a partir das invasões Vândalas já no século V, no contexto da profunda crise que acabaria por destruir todo o Império Romano do Ocidente.

A Comuna passaria, então, ao longo da ocupação Bizantina, por um duro processo de abandono e constantes saques por piratas vindos do Norte da África. A situação somente mudaria a partir do domínio árabe, já no século IX, como parte dos territórios conquistados pelo Império Árabe, que organiza desde o início da Idade Média intenso processo de expansão territorial por todo o Norte da África, Sul da Europa e Oeste da Sicília. Nesta fase em particular, a antiga Lilibeo é denominada de Marsa Allah (Porto de Alá, ou Porto de Deus). O novo porto, além de oferecer o nome que tem a Comuna até os dias atuais, transforma a região no principal ponto de contato comercial do Império Árabe com o mundo Ocidental, trazendo Marsala de volta ao mapa de prosperidade que a caracterizou na Antiguidade, todavia sem mais o brilho intenso que tanto impressionara Cícero. De qualquer forma, a influência árabe, como de costume, alterou o panorama arquitetônico da Comuna, trazendo formações urbanas características dos mouros, como a formação quadrangular de suas ruas e suas fortificações muradas em torno do castelo, centralizado e protegido.

A desocupação árabe faz com que Marsala passe de mão em mão ao longo de toda a Baixa Idade Média. Mesmo as invasões espanholas sob o Reino de Aragão, com sua imponência barroca e a construção de dezenas de igrejas, monastérios e edifícios públicos, não foram capazes de restaurar a antiga glória do Oeste da Sicília. O intenso processo de unificação do território espanhol na Península Ibérica levou a uma concentração excessiva das atenções do Reino no continente europeu, relegando Marsala ao desamparo e negligência.

No século XVIII, Marsala voltaria ao roteiro comercial mundial, no contexto da visita do comerciante marítimo John Woodhouse ao porto da Comuna. A história é cheia de mitos e relatos contraditórios, mas o mais aceito é aquele que declara ter o comerciante chegado ao porto por volta de 1773, com o objetivo de empreender as trocas comerciais habituais entre a Inglaterra e o Oeste da Sicília. Por ali, teria conhecido o vinho fortificado já tradicionalmente produzido pelos locais. John Woodhouse teria ficado aficionado pelo vinho, devido ao seu sabor fortificado, muito parecido com aqueles portugueses e espanhóis que provara na Grã-Bretanha. Suas pesquisas o levaram à produção direta do licoroso, elaborado em uma técnica denominada perpetuum, semelhante ao que ele já conhecia do método solera, do vinho Sherry, em Jerez, na Espanha. A técnica, que proporcionava a elevação alcoólica e do tempo de guarda do vinho, permitiu que fosse embarcado por ele até a Inglaterra, onde fez imenso sucesso. Anos mais tarde, o comerciante teria voltado a Marsala para investir na produção em massa do tinto, tornando-o um dos mais consumidos pelo Norte da Europa em fins do século XVIII e início do XIX. Até os dias atuais, o licoroso Marsala é conhecido mundialmente por sua qualidade superior, tendo o selo D.O.C. (Denominação de Origem Controlada) e sendo utilizado no mundo todo para o consumo direto e para as mais refinadas receitas culinárias.

Para aproveitar a intensidade histórica de Marsala, recomendamos que visite em seu roteiro por aqui os seguintes pontos turísticos:

Praias – apesar de não ser o centro de nosso presente roteiro, é possível que seu agente de viagens inclua a visita de algumas das praias do litoral Oeste da Sicília. Recomendamos que conheça a Lido Marakkaibo, a Lido Torrazza e a Lido Playa Blanca. As três possuem infraestrutura bastante ampla para o recebimento de turistas, principalmente no verão, com espaços destinados às cadeiras na areia e guarda-sol. São também mais semelhantes ao litoral arenoso brasileiro, onde a areia fina substitui o litoral pedregoso típico de algumas regiões da Itália.

Isola di Mozia (Mothia) – como já dissemos, a Ilha de Mothia foi amplamente fortificada e usada como posto militar avançado desde a fundação Fenícia, por seu imenso valor geográfico estratégico. Definitivamente, é, em si mesma, uma síntese da história populacional de Marsala e deve ser ponto obrigatório de visitação quando for conhecer a Comuna. É um daqueles territórios que possui muito mais história do que aparenta sua pequena área. Grande parte de sua trajetória está hoje reproduzida no Museu di Mozia, que definitivamente merece a dedicação de ao menos uma tarde de seu tempo por aqui. Consulte um bom agente de viagens para que a visita seja o mais completa possível.

Saline della Laguna – as salinas da costa de Marsala chamam a atenção não apenas por sua capacidade produtiva de sal marinho (chegando a dez mil toneladas de sal por ano), mas principalmente por ser uma área completamente antropizada, porém com grande cuidado com a preservação natural. As reservas de sal de Ettore e Infersa são especialmente premiadas por serem capazes de produzir sal a partir da exploração humana, mas respeitando completamente o ciclo natural de deposição salina.  Seus vários tanques, cada um com uma função específica, estão entre as passagens mais impressionantes em toda a Sicília. Não deixe de visitar o Museo del Sale (Museu do Sal), por aqui, é possível participar de visitações e atividades específicas, onde somos é capazes de fazer parte do processo de extração salina. Mais uma vez, como destacamos acima, recomendamos a visita com a orientação de um agente de viagens experiente, para que tais atividades possam ser aproveitadas ao máximo.

Chiesa Madre di Marsala – a igreja Matiz de Marsala, ou Duomo di Marsala, dedicada a São Tomás da Cantuária, apesar de ter sua construção iniciada apenas no século XI, com a ocupação Normanda, já mantinha ativo o culto do cristianismo naquela mesma área desde o século II, com os Bizantinos. Foi quase completamente modificada no século XV, sob influência ao mesmo tempo da estética do Renascimento e do domínio do Reino de Aragão, que a ampliou substancialmente. Passou por reestruturação ao longo do século XIX, quando chegou a ser fechada para visitações por motivos de segurança. Foi mais uma vez alterada em seu projeto original já no século XX, sendo reaberta para visitações. Esta verdadeira colcha de retalhos arquitetônica é um resumo histórico importante da história de Marsala, tão abalada por uma diversidade infinita de ocupações humanas, destruições e reconstruções.

Porta Garibaldi – é a entrada principal para o centro histórico da cidade, que servirá de acesso para a maior parte dos pontos turísticos da Comuna. Teria sido por aqui que Garibaldi, no contexto de sua ocupação em nome do projeto nortenho de Unificação da Itália, teria entrado, com seu exército de mercenários, para garantir a pacificação da ilha siciliana, aos fins do século XIX. Logo depois da Porta, encontramos o Quartiere Spagnolo, ou Distrito Espanhol, um quadrilátero que relembra o visitante da época da ocupação aragonesa, a partir dos séculos XV e XVI.

Museo degli Arazzi Fiamminghi – o Museu de Tapeçaria Flamenga é especialmente belo, não apenas pelos objetos em si – oito tapeçarias de origem flamenga, datados do século XVI –, mas pela história que é capaz de contar através da intervenção artística. As tapeçarias narram a ocupação e posterior destruição de Jerusalém, durante a invasão romana e sua subsequente guerra contra os judeus. As tapeçarias são resultado de doação ao Duomo de Marsala no período em que foram constituídas, passando por delicado processo de recuperação a partir da década de 1970.

Estrada do Vinho de Marsala – esta rota Ocidental siciliana do vinho passa pelos principais produtores do já citado (e renomado) vinho fortificado típico da região, o Marsala. Este ícone enológico não apenas da Sicília ou da Itália, mas do mundo todo, pode ser degustado por todo o trajeto, inclusive com visitas guiadas pelas principais vinícolas, como: Florio, Rallo, Lombardo, Donnafugata, Baglio ou Allagna. É possível, ainda, observar no caminho o antigo estabelecimento comercial de John Woodhouse, grande propagador do tinto siciliano. Não sintetiza toda Marsala pela produção de seu vinho, todavia não deixe de visitar esta rota e saboreá-lo em todo seu leque de sabores.