A Grandiosidade Artística dos Museus Vaticanos

A monumental escada em forma de caracol dentro dos Museus Vaticanos

Por Adrian Theodor | Publicado em 27/08/2018

Principalmente para os não católicos, é comum se pensar na Cidade do Vaticano meramente como o lugar onde se estabelece o Papa. Para além deste fato, dificilmente se pensa neste território como um ponto turístico maior do que a peregrinação religiosa. Entretanto, a cidade apresenta mais do que isso. Um grande exemplo é a presença dos Museus Vaticanos e suas 26 salas de exposição, que apresentam um panorama histórico que percorre da Antiguidade Oriental do Egito à Arte Contemporânea.

Mesmo para aqueles não tão atentos às aulas de história, é sabido que o papado romano acumula, desde a Antiguidade Clássica Romana um enorme acervo de obras arte. Inclusive, ao longo do Renascimento, sendo um dos principais patrocinadores dos artistas mais conhecidos do período, como Michelangelo. Deste modo, assumindo ou não a figura de mecenas das artes plásticas, a Igreja Católica, ao longo de mais de um milênio de história, acabou por se tornar uma das maiores colecionadoras de obras artísticas do mundo. E os Musei Vaticani (Museus Vaticanos), que hoje apresentamos, abrigam parte desta história.

Não pretendemos aqui retomar longamente a história do papado romano, tampouco da Cidade do Vaticano. Para os ávidos em saber um pouco mais sobre este panorama, indicamos um de nossos textos para este Blog: “A Cidade do Vaticano – Uma trajetória histórica”, onde tentamos contar, mesmo que brevemente, parte da trajetória deste pequeno território encrustado na Capital italiana de Roma. Assim, apresentaremos apenas um curto guia turístico para os interessados em saber um pouco mais sobre os Museus Vaticanos, percorrendo algumas de suas salas mais importantes, com destaque para a majestosa e belíssima Capela Sistina.

Entrada Principal para os Museus Vaticanos

Entrada Principal para os Museus Vaticanos

Museo Gregoriano Egizio – fundado pelo Papa Gregório XVI, em 1839, o Museu Egípcio conta com nove salas de exposição, abrindo-se em um semicírculo em direção ao terraço do Nicchione della Pigna. Sua grandiosidade expositiva acaba por formar uma aula de história em várias camadas. A primeira, bastante óbvia, advém dos elementos museológicos em si mesmos, provenientes da Antiguidade Oriental egípcia, mostrando-nos um pouco do que estes produziam em sua trajetória na linha do tempo da história da humanidade. Todavia, o que mais chama a atenção é a profusão de obras originárias do contexto do contato entre romanos e egípcios, já na Antiguidade Clássica, uma segunda camada histórica interessantíssima para se conhecer o domínio romano sobre aqueles que eles chamavam de povos bárbaros. Grande parte dos artefatos em exibição foi extraída de épocas diversas do período imperial romano, quando as obras foram retiradas de seu contexto original e utilizadas para embelezar edifícios religiosos ou vilas. Fato que nos leva a uma possível terceira camada de análise, se paramos para refletir em como a musealização é também, de certa forma, uma ode à dominação de uma civilização sobre a outra. A estética, assim, é muitas vezes fruto de um caminho histórico de apropriação cultural. Outras salas também fundadas por Gregório XVI e que podem ser acessadas pelos visitantes são o Museo Gregoriano Profano e Museo Gregoriano Etrusco.

O Nicchione della Pigna

O Nicchione della Pigna

Galleria Lapidaria – formada no século XVIII pelo Papa Clemente XIV, a maior coleção de lápides do Vaticano já mudou de lugar algumas vezes. Hoje está localizada no grande corredor Bramante, que tem este nome em homenagem ao arquiteto que o projetou. A coleção traz lápides que datam desde o século I a.C., num esforço contínuo em se marcar a história do território italiano através do reconhecimento daqueles que formaram sua liderança ao longo do tempo. Poucos historiadores se atentam para a importância das lápides para se narrar a história de um povo, mas elas acabam por oferecer uma importante fonte de conhecimento sobre os povos da Antiguidade Ocidental. A forma como uma civilização lida com os seus mortos, além dos textos deixados em homenagem àqueles que se foram, oferecem fonte riquíssima de informação sobre seus líderes, guerras, classes sociais, relações internacionais, estruturas administrativas, modos de produção econômica e dados biográficos existentes em um território. Os 48 muros da Galleria são essenciais não apenas para a compreensão da dimensão que já teve o catolicismo como estrutura de poder no mundo, como também para aprender um pouco mais sobre uma enormidade de pessoas que por aqui já galgaram caminho. Outras salas lapidárias que podem ser visitadas no complexo dos Museus Vaticanos, apesar de distintas em sua origem expositiva, são o Lapidario Ebraico, o Lapidario Profano ex Lateranense e o Lapidario Cristiano.

A monumental escada em forma de caracol dentro dos Museus Vaticanos

A monumental escada em forma de caracol dentro dos Museus Vaticanos

Stanze di Raffaello – trata-se de um complexo de quatro quartos pintados pelo famosíssimo renascentista Rafael Sanzio de Urbino, sob a encomenda do Papa Júlio II, com o objetivo de decorar seus aposentos privados no Palácio Apostólico. O projeto teve início em 1508, e é um dos pontos mais altos do Renascimento italiano, assim como uma das atrações artísticas mais importantes dos Museus Vaticanos, depois da Capela Sistina. Os quatro aposentos são: Sala di Costantino, destinado às recepções e cerimônias oficiais do pontífice; Stanza di Eliodoro, dedicada às audiências particulares de Júlio II; Stanza della Segnatura, que formava a biblioteca do Papa e seu escritório privado, contendo o famosíssimo afresco A Escola de Atenas; e Stanza dell’Incendio di Borgo, utilizada como centro de reuniões e decisões do tribunal mais elevado da Santa Sé. Esta última câmara não chegou a ser concluída por Rafael, sendo finalizada por seus discípulos, já sob a égide do Papa Leão X. Toda a grandiosidade e beleza são de tirar o fôlego, claro! Mas não se pode deixar de refletir em como todo este complexo retrata uma situação em que a Igreja se aproveitava de seu poder – seja secular, seja religioso –, para se valer de vantagens completamente inacessíveis à população europeia da época.

Escola de Atenas

Escola de Atenas

Appartamento Borgia – o Papa espanhol Alexandre VI, mais conhecido pelo seu nome de batismo Rodrigo de Borgia, foi eternizado pela atuação magistral de Jeremy Irons na série de TV The Borgias, interrompida bruscamente pelos seus criadores do canal Showtime, nos EUA. Apesar dos exageros marcantes da série ao retratar a personalidade do polêmico Papa, seu espaço museológico no complexo dos Museus Vaticanos demonstra justamente os traços hiperbólicos e grandiosos característicos de sua atuação na chefia da Santa Sé Romana. Tratam-se de seis espaços monumentais, utilizados por Borgia como aposentos durante seu papado, e decorados em estuque e ouro maciço pelo renomado pintor úmbrio Bernardino di Betto. Ganham destaque os quartos secretos, destinados pelo papa espanhol para o uso privado e que demonstram o auge artístico do já citado di Betto. Segundo Giorgio Vasari, importantíssimo pintor, arquiteto e escritor italiano do Renascimento, a elaboração de Bernardino di Betto dos aposentos de Rodrigo de Borgia teria seguido da seguinte maneira: “No palácio do Papa, Alexandre VI o fez pintar todos os quartos por onde viveu, e todas as torres dos Borgia. E ele retrabalhara todas as abóbodas com estuque e ouro”.

Museo Chiaramonti – nomeado em homenagem ao Papa Pio VII Chiaramonti, o Museu está localizado na imensa galeria que liga o Palácio do Belvedere aos Palácios do Vaticano. Seu estabelecimento, a partir de 1806, marca um período bastante tenso na história dos Museus Vaticanos. Toda a coleção escultórica presente no Museo Pio Clementino fora tomada por Napoleão Bonaparte, ao final do século XVIII, tornando o acervo romano bastante desfalcado em relação à sua coleção original. Após longo esforço do escultor Antonio Canova, as peças são recuperadas em 1815, no contexto do Congresso de Viena e das restaurações monárquicas europeias. Apesar de todo o regresso político da época, para os Museus Vaticanos, o fim do expansionismo napoleônico foi recebido com boa notícia, deste modo. Canova então arranja novamente a galeria, agora unificando as três grandes artes plásticas: escultura, arquitetura e pintura. Formando, até os dias atuais, com mais de mil exemplares, uma das maiores coleções escultóricas de bustos romanos, que retratavam, além de seus líderes, seus personagens mais influentes.

O corredor dos mapas geográficos

O corredor dos mapas geográficos

Museo Pio Clementino – este conjunto enorme de esculturas clássicas forma o grande núcleo escultórico dos Museus Vaticanos. Foi organizado ao longo dos pontificados dos Papas Clemente XIV e Pio VI, de onde vem o nome do Museu. Ao longo do século XVIII, a coleção de esculturas pontifícias se expandiu enormemente, seja por resultado de escavações arqueológicas empreendidas em Roma e no Lácio, seja por inúmeras doações recebidas pelo papado romano ao longo do período. Sob as influências do Iluminismo, a coleção se transformou ao mesmo tempo em um amplo Museu dedicado ao público em geral e em uma espécie de Museu-Escola dedicado às pesquisas científicas relacionadas à ampliação do conhecimento sobre as origens de Roma, em particular, e da Itália, de modo geral. Sob a direção de Alessandro Dori, um número bastante grande de esculturas foi restaurado por renomados artistas ao longo do tempo, tais como Michelangelo Simonetti e Giuseppe Camporese. Uma parte do acervo tinha sido tomada por Napoleão Bonaparte, como já mencionamos anteriormente, quando tratamos do Museo Chiaramonti, e recuperada após o Congresso de Viena, em 1815, sob a diligente direção de Antonio Canova.

A célebre estátua do Laocoonte, abrigada no Museo Pio Clementino

A célebre estátua do Laocoonte, abrigada no Museo Pio Clementino

Cappella Sistina – certamente, a Capela Sistina é o ponto mais elevado de todas as possibilidades de visita aos Museus Vaticanos. Sobre ela, gostaria de iniciar com uma citação do papa João Paulo II, em sua Homilia de 1994, durante a pregação de uma Missa, após a grande restauração do Último Julgamento:

“Os afrescos que estamos contemplando aqui nos introduzem ao mundo dos mistérios da Revelação. As verdades de nossa fé nos falam aqui de todos os lados. Deles, o gênio humano se empenhava em inspirá-los em formas de beleza incomparável.”

Mesmo para os não católicos, esta citação de João Paulo II é importantíssima para compreendermos o sentido da construção não apenas da Capela Sistina, como de toda a estrutura que hoje compõe a Cidade do Vaticano. Trata-se de um empreendimento religioso. Não qualquer um deles. Mas o ponto de chegada de uma trajetória religiosa que é também uma síntese da história ocidental. Para João Paulo II, assim como para os milhões de fieis católicos ao redor do mundo, a Capela Sistina é uma representação de uma verdade inquestionável, a verdade da fé. Verdade esta intimamente relacionada ao gênio humano renascentista, traduzida em obras sublimes em sua percepção estética. É talvez seja justamente a ambivalência entre a transcendência da fé religiosa e a imanência da genialidade humana o maior valor da arte sacra, dentro ou fora da Cidade do Vaticano.

Nomeada em homenagem ao Papa Sisto IV, a Capela Sistina é fruto da restauração empreendida por ele da antiga Capela Magna, durante os anos de 1477 e 1480. A divisão original da reforma conta com as falsas cortinas e a história de Moisés no lado Sul e nas paredes de entrada; a história de Cristo na face Norte; além dos retratos papais nas duas extremidades. Tudo isso foi executado por uma equipe de artistas, dentre eles Pietro Perugino, Sandro Botticelli, Domenico Ghirlandaio e Cosimo Rosselli. O Céu Estralado do Cais do Teto, assinado por Matteo d’Amelia, assim como os afrescos e as bancas do coro feitas em mármore, são do intervalo entre 1481 e 1482. Foi apenas em 1508, sob a égide do sobrinho de Sisto IV, o grande patrono das artes Papa Júlio II, que Michelangelo Buonarroti é convidado a pintar a parte superior das paredes, as lunetas e o mais famoso teto de toda a história da arte, que apresenta, dentre várias outras metáforas religiosas, nove cenas do primeiro livro bíblico, o Gênesis. As nove cenas principais do teto da Capela representam a Divisão da Luz e das Trevas; a Criação do Sol e dos Planetas; a Divisão da Água e da Terra; a Criação de Adão; a Criação de Eva; Tentação e Expulsão de Adão e Eva; o Grande Dilúvio; além duas cenas relacionadas a momentos cruciais na biografia bíblica de Noé. O magistral trabalho do Mestre renascentista é concluído apenas em 1512, quando Júlio II reinaugura a edificação com uma grandiosa missa solene.

A criação de Adão, Obra Prima Michelangelo, teto da Capela Sisitina

A criação de Adão, Obra Prima Michelangelo, teto da Capela Sisitina

Collezione d’Arte Contemporanea – a hoje vastíssima coleção de arte contemporânea dos Museus Vaticanos é fruto do esforço do Papa Paulo VI em aproximar a Igreja Católica da cultura contemporânea. Reconhecendo o extenso diálogo da Santa Sé com o seu passado histórico, o papa inicia uma série de tentativas em absorver também aquilo que se produziu artisticamente nos séculos XIX e XX. O resultado é uma coleção de mais de 8000 obras contemporâneas, exibidas ao longo de todo o trajeto empreendido no interior dos Museus Vaticanos, desde o Apartamento Borgia até a Capela Sistina. A observação das obras abarca uma visão riquíssima da arte italiana e internacional, que inclui artistas como Van Gogh, Bacon, Chagall, Carrà, Chirico, Manzù, Capogrossi, Fontana, Burri e Matisse. Inclusive, desde 2011, uma sala inteira é dedicada a este último, organizando uma coleção que é fruto da doação incrível oferecida pelo seu filho Pierre Matisse. Contemplar as obras contemporâneas dispostas nos Museus Vaticanos é uma oportunidade única não apenas de analisar de perto o virtuosismo destes renomados artistas, como uma chance única de entender melhor a história dos Museus com o seu público.