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Monreale e Cefalù – Patrimônios da Humanidade ao Norte da Sicília

Arte e Arquitetura - 03/05/2018
Por Adrian Theodor

Há alguns meses, começamos um imenso périplo pela Sicília, iniciando a Leste e caminhando na direção da conquista do Oeste, de Messina a Palermo. Hoje, quase completando o final de nossa jornada, permanecemos ainda na Província de Palermo, caminhando na direção Norte da ilha, chegando à belíssima Cefalù.

Dica: Se ainda não conhece nossas indicações de visita em Palermo, Capital da Sicília, indicamos que leia nosso texto: Palermo – História e Arquitetura da grande Metrópole Siciliana.

Chiesa di San Domenico, em Palermo

Como de costume, indicaremos neste texto uma abordagem histórica de sua visita, destacando aquilo que não se costuma contemplar nos roteiros turísticos mais comuns. A Itália como um todo, e a Sicília em particular, apresenta trajetória histórica ímpar, trazendo, muitas vezes, o berço da própria humanidade. E é esta característica singular que pretendemos sempre trazer aos nossos leitores mais atentos e dedicados. Viajar, para nós da Cenci Turismo, é entrar em contato com a nossa intimidade, guardar na bagagem memórias que tenhas significados profundos. E, sem a compreensão da história que envolve os destinos que indicamos como relevantes, acreditamos ser impossível uma vivência verdadeiramente profunda e memorável.

Neste sentido, acompanhe mais uma vez nossa percepção histórico-biográfica, hoje visitando mais uma síntese das origens históricas das ocupações humanas no Planeta Terra, em Monreale e Cefalù.

Monreale

Monreale é uma Comuna Italiana, com apenas 529 metros quadrados, ao Sul de Palermo, parte da Província que leva o mesmo nome da Capital da Ilha. E, apesar de suas dimensões reduzidas em relação ao que costumamos encontrar na Itália, carrega consigo grande parte da complexa tradição histórica do território Siciliano.

Ao invés de abordar a trajetória histórica de toda a Comuna, escolhemos sua Catedral como mote e ponto de partida. Ao conhecer intimamente a Catedral de Monreale, você será capaz de entender toda a Comuna. De forma geral, os turistas se dirigem para cá como uma extensão à estadia na Capital, mas sempre indicamos que consulte um agente de viagens especializado, para que possa organizar sua vinda para a Sicília com o máximo de qualidade e sem perder nada. Principalmente se estiver em uma viagem em grupo, a grande especialidade da Cenci Turismo.

Catedral de Monreale

História da Catedral

E a Catedral de Monreale retoma a complexidade da ocupação territorial da ilha siciliana, principalmente em sua cronologia medieval. Foi ocupada pelos árabes até o século XI, quando foram expulsos pelos povos Normandos, no amplo contexto do movimento das Cruzadas. E é a partir daqui que chamamos sua atenção para a história da construção da majestosa Catedral Normanda.

No século seguinte, em 1174, o Rei Guilherme II da Sicília ordena a construção de uma Catedral em Monreale, comuna de Palermo. E, apesar de um grande símbolo religioso, a construção tinha por objetivo marcar a passagem de sua Dinastia pela Sicília, e não simplesmente se tornar um local de culto. A passagem Normanda por Palermo é marcada por profunda disputa política em relação aos plenos poderes católicos em terras italianas. E a Catedral de Monreale fez parte dessa história, ao colocar frente a frente, em um evidente embate por mais poder e evidência, o já citado Rei e o Arcebispo de Palermo, Gualtiero Offamilio. Não é à toa, portanto, que a Catedral de Monreale seja construída no mesmo período histórico que a ampliação da Catedral de Palermo, esta, sob as ordens do Arcebispo. A competição entre ambos se manifestou numa competição arquitetônica que acabou permeando boa parte da paisagem siciliana da Baixa Idade Média.

Existem diversas controvérsias sobre a origem do financiamento necessário para a construção da Catedral de Monreale, por Guilherme II, tamanha sua grandiosidade em relação ao restrito erário siciliano no século XII. Mesmo assim, o Rei proporcionou à Sicília uma das maiores construções de toda a Idade Média, no que se refere à extensão de sua ocupação territorial. Chama ainda mais a atenção o curtíssimo intervalo de tempo gasto para que a Catedral ficasse pronta, um pouco mais de 10 anos, a partir do ano de 1174. Mesmo tendo em vista as abismais diferenças entre os estilos arquitetônicos, à mesma época, por exemplo, a Catedral Gótica de Notre-Dame demorou praticamente 80 anos para ser finalizada e, mesmo assim, com mudanças e adaptações e abandonos em relação ao projeto original. O que nos dá a impressão bastante nítida da urgência de Guilherme II em expor seu poder monárquico em Palermo, em relação à ascensão da influência do Arcebispo, seu arquirrival.

Vale lembrar que uma obra arquitetônica desse calibre, pronta em tão pouco tempo, somente pôde ser concluída com um número incomparável de trabalhadores disponíveis para tal empreendimento. Tal exército de mão de obra também não é passível de comparação em relação a outras obras arquitetônicas do mesmo período, dentro ou fora da Europa.

Arquitetura

No que se refere à arquitetura da Catedral, a porção exterior não denuncia sua vastíssima importância arquitetônica. Excetuando-se o pórtico central, modificado a partir do século XVIII e um tanto quanto diferente do conjunto do projeto original; possui duas torres laterais muito semelhantes ao que seria um projeto da arquitetura românica, antes mesmo das inovações góticas características da Baixa Idade Média. Ou seja, estruturas sólidas, com pouca luminosidade, esteticamente simples. Fora a extensão territorial que ocupa, bastante ampla, a Catedral não parece tão grandiosa quando o visitante desatento a olha apenas em sua fachada exterior.

Catedral de Monreale

Agora, é o interior da Catedral que surpreende o visitante logo à primeira vista! E talvez esteja aqui o imenso valor histórico desta obra arquitetônica, considerada Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO.

Cerca de 6400 m² da superfície interna da catedral é recoberta por mosaicos do período Bizantino. Tal estrutura é a maior recoberta por mosaicos em todo o mundo, superando, inclusive, aquelas existentes na Basilica di San Vitale, em Ravenna e na Basilica di San Marco, em Veneza. Um trabalho de tais dimensões nos faz pensar, mais uma vez, na massiva quantidade de mão de obra necessária para que fosse concluído. Certamente, mesmo que uma obra histórica de importância única, é relevante pensar em como a servidão coletiva medieval foi explorada para que ficasse finalmente pronta, com tamanha grandiosidade e em tão pouco tempo. Pensar sobre a História nem sempre é apenas sobre contemplação, sendo também oportunidade de compreender a dura realidade de seus, por assim dizer, coadjuvantes.

Interior da Catedral de Monreale

Entretanto, é inegável a majestade desta cobertura em mosaicos, que conta histórias contidas em três partes diferentes do texto bíblico: Gênesis, diversos trechos dos Evangelhos do Novo Testamento e Apocalipse. Apesar da temática unívoca, ou seja, dedicada à demonstração artística da religião, a composição dos mosaicos não é homogênea, apresentando as diferentes escolas estéticas do período Bizantino. Aqui cabe uma reflexão muito válida sobre o hábito de menosprezar as manifestações culturais medievais, geralmente encaradas como menores em relação ao período posterior do Renascimento. Toda a concepção de arte do Império Bizantino, assim como a própria invenção da revolucionária Arquitetura Gótica na Europa Ocidental colocam em xeque esta visão redutora. Foi a Idade Média, com todas as suas limitações sociais e políticas, aquela capaz de produzir a contemplação quase hipnótica do interior de uma Catedral com o maior painel em mosaicos que o mundo já conheceu. Somente por este motivo o edifício religioso de Guilherme II já merece sua visita.

Dica: Ao visitar a Catedral de Monreale, acompanhe também a vista de seu Claustro Beneditino, o Chiostro dei Benedettini, de construção contemporânea ao do templo Normando, e anexo a ele. Sua construção quadrática, ladeada por pórticos de influência árabe, com 216 colunas cravejadas de mosaicos dourados, é uma experiência capaz de levar o turista de volta ao período de sua edificação. A intensidade dourada de suas colunas, ao nascer ou pôr do sol, manifesta única sensação de harmonia arquitetônica que não se pode perder.

Vista do Chiostro dei Benedettini

Cefalù

Localizada ao Norte da Ilha, mesmo que ainda no interior da Província de Palermo, está Cefalù, um dos locais sicilianos que melhor combina trajetória histórica e paisagens litorâneas de perder o fôlego.

Assim como outras regiões litorâneas da Sicília, Cefalù é cercada por uma trajetória histórica de sucessivas invasões e saques estrangeiros. Fundada no século V a.C., foi tomada pelos Romanos no século III a.C. Passando por domínios bizantino e árabe durante a Alta Idade Média. Finalmente, como já registramos em outros de nossos textos acerca da Sicília, foi tomada pelos Normandos que, a partir do século XI remodelaram completamente as estruturas urbanas da Comuna, mesmo que reaproveitando o que já havia sido construído pelos ocupantes anteriores.

Vista panorâmica de Cefalù

A História do Duomo

Mais uma vez, como acabamos de registrar sobre Monreale, o Rei Rogério II da Sicília, em franca intenção de fazer permanecer seu legado dinástico, é responsável por diversas das reformas urbanas vividas por Cefalù, principalmente a partir do século XII. E, novamente, decide empreender a construção de um Duomo, relacionado, definitivamente, esta Comuna com aquela que acabamos de descrever.

A Catedral Normanda de Cefalù, em diversos aspectos, portanto, conta com percurso semelhante àquela de Monreale. Todavia, o majestoso monumento religioso, por aqui, tem origem um tanto diversa. Apesar de o relato não ter comprovação histórica, ao que parece, ao invés de edificar um templo no contexto de sua rivalidade com o Arcebispo Gualtiero Offamilio de Palermo, Rogério II o teria erguido com base em uma promessa feita em momento de grande tensão. A narrativa medieval conta que o Rei estava em uma tempestade tão grande, que prometera a Deus que, se fosse salvo, construiria um lugar de culto no exato lugar onde pisasse novamente em terra firme. Tal lugar teria sido o litoral de Cefalù, onde o Duomo foi erguido.

Se a narrativa é verdadeira ou não, o fato é que a Catedral está ali, e, juntamente com a de Monreale, forma o circuito Árabe-Normando da Sicília, ambos Patrimônios Históricos da Humanidade, segundo o reconhecimento da UNESCO, em 2015. E, assim como aquela, está entre os templos religiosos mais belos do mundo.

Logo em sua fachada, iniciada em 1131, a Catedral chama atenção. É composta por duas torres, em construção tipicamente bizantina, ordenadas entre pináculos piramidais ao centro, na parte superior. Guarda uma identidade estética muito mais marcante do que se tem a impressão com a fachada de Monreale. Aqui não é possível confundir a peça arquitetônica com uma construção românica, oferecendo, logo à primeira vista, a impressão de uma edificação bizantina da Baixa Idade Média. A fachada passaria ainda por duas reformas, ambas no século XV, adicionando o pórtico de três arcos, que, apesar de marcar a identidade visual contemporânea do templo, não é capaz de alterar a impressão arquitetônica deixada pelos bizantinos.

Catedral Normanda de Cefalù

Seu interior é composto por três naves em forma de cruz latina, intercalados por duas fileiras de colunas, aproveitando a estrutura de algum edifício preexistente, como foi o hábito das reformas urbanas empreendidas neste período em Cefalù. Chama a atenção, novamente, como já mencionamos em Monreale, a composição interna dos mosaicos, mais uma vez muito bem dispostos e empreendidos com precisão. Na extremidade do altar, a abside, está o reconhecidíssimo Cristo Pantocrator, do grego, Onipotente, imenso mosaico bizantino do século XII, marca indelével e perene da Catedral.

Cristo Pantocrator, mosaico bizantino do século XII

Diferentemente de Monreale, contudo, a história de Cefalù não se confunde inteiramente com seu Duomo, possuindo outros pontos de visitação que são essenciais a quem passa por aqui uma temporada turística.  A seguir, destacamos alguns pontos de visitação imperdíveis na Comuna:

Corso Ruggero – a Corso Ruggero é a via principal do Centro Histórico de Cefalù. É ela que, inclusive, te levará à já mencionada Catedral da Comuna. É um passeio importante, também, porque poderá conhecer mais da culinária local, ou parar em um de seus diversos bares para um vinho no fim da tarde, ou mesmo à noite. Sempre recomendo um giro pelas ruas principais dos centros históricos das comunas italianas. É por elas que sentimos os sabores e sons que nos fazem viver o espaço como um local vivenciaria.

Piazza Duomo – para além da visitação ao Duomo, que tanto recomendamos já neste texto, ao explicar seus detalhes tão diversos quanto profundos, a Praça da Catedral é valiosíssimo ponto de encontro turístico nas noites de Cefalù. É possível, inclusive, comer e beber na base das escadarias da própria Catedral. Trata-se de riquíssima oportunidade de se apropriar de forma intensamente diversa de um monumento histórico geralmente visto apenas como ponto turístico diurno e sisudo. Visitar uma cidade diferente é justamente sobre apreciar as também diversas possibilidades de uso do espaço público.

Lavatoio Medievale – como o nome denuncia, tem origem na Idade Média siciliana e servia como ponto de acúmulo da água do Rio Cefalino, compondo parte de sua foz. Completamente escavado na rocha, o lavatório medieval chegou a ser usado até parte do século XX, quando foi desativado. Toda a estrutura em arcos que vemos por ali foi concebida ainda no século XVII, quando a obra de engenharia cobriu parte do Rio.

Detalhe do Lavatoio Medievale

Museo Mandralisca – museu especializado em artefatos arqueológicos, com acervo que acumula vestígios materiais encontrados por toda a Sicília. Essencial para quem aprecia conhecer um pouco mais sobre as origens históricas não apenas dos locais que visita, como da própria humanidade. Destaca-se na coleção do museu um quadro que não faz parte de sua especialidade em arqueologia, o Ritratto d’ignoto marinaio (Retrato de um marinheiro desconhecido), de Antonello da Messina. A história e composição da obra é cercada de lendas, anedotas, exageros e imprecisões. Independentemente desta questão, vale visitar o Mandralisca para visualizar o sorriso indecifrável do tal marinheiro desconhecido, que já chegou a ser comparado ao sorriso da Mona Lisa de Leonardo da Vinci.

Ritratto d’ignoto marinaio (Retrato de um marinheiro desconhecido), de Antonello da Messina

La Rocca – daqueles passeios que são obrigatórios para o visitante de Cefalù. A Rocha pode ser vista de praticamente qualquer ponto da Comuna, e todos que a visitam sobem seus 270 metros, mesmo sob o intenso sol do verão siciliano. Ali de cima será possível fotografar detalhes que não seriam vistos de outro lugar. O caminho não é tão pesado e pode ser feito tranquilamente, mesmo para quem não é acostumado às trilhas. Vale a pena!

Vista aérea de La Rocca

Turismo Litorâneo – claro, não poderíamos deixar de recomendar o litoral de Cefalù. Extensos e planos bancos de areia aguardam ao longo de todo o verão turistas do mundo inteiro. Diferentemente de outras partes do litoral da ilha, com as famosas pedrinhas ao invés da areia a que os brasileiros estão acostumados, Cefalù surpreende. É possível aproveitar a praia de forma espontânea, estendendo sua toalha na areia; ou aproveitando os pontos comerciais que prestam serviço ao turista, o Lido. São diversos espalhados pelo litoral e todos muito eficientes e com preço mais justo do que encontraríamos em Taormina, por exemplo.

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