Messina e Taormina – o Litoral Oriental da Sicília

Por Adrian Theodor

Em nosso último texto sobre a Sicília, convidamos você a um passeio histórico e poético por sobre a ilha. Se ainda não entrou em contato com esta leitura, indicamos a você: “Uma Introdução Poética à Sicília”. Trata-se de uma abordagem um tanto quanto diversa em relação aos textos turísticos mais comuns, destacando experiências relacionadas aos sentimentos que uma viagem à Itália pode despertar, e não meramente apresentando seus principais pontos de visitação.

No texto de hoje, apresentamos um roteiro que é parte de uma série de abordagens sobre a Sicília. Esta série tentará cobrir o território siciliano por inteiro, de leste a oeste, de Messina a Marsala. Nosso périplo, portanto, começa no lado oriental da ilha. Bem-vindos a bordo!

Messina

A Comuna de Messina, na Província de mesmo nome, é geralmente conhecida como a “porta de entrada” da Sicília, por estar estrategicamente posicionada a apenas 3,3 quilômetros do continente, na região mais curta do Estreito de Messina. Respeitando este costume local, iniciaremos nosso caminho pela ilha através de sua “porta”.

A posição estratégica desta Comuna é, inclusive, um dos fatores mais intensos de sua história. Ao longo de sua trajetória até a atualidade, desde a Antiguidade Clássica, Messina foi invadida, retomada, destruída e reconstruída inúmeras vezes. E, claro, além das consequências identitárias que tal processo acarreta nos habitantes deste lugar, uma das características mais intensas daqui é a vibrante variedade arquitetônica.

Diferentemente do restante da ilha, ou mesmo do contexto geral da Itália, a arquitetura de Messina, por exemplo, tem uma grande influência da Art Nouveau da transição entre os séculos XIX e XX. Recomendamos, também, que – se o seu forte não for o conhecimento sobre arquitetura e suas influências na formação da visão de mundo de um povo –, procure em Messina por um guia especializado para te acompanhar por entre as principais construções da Comuna.  Aproveite este tour por pelo menos metade de um dos dias em que ficar por aqui. A riqueza arquitetônica deste lugar é parte indissociável de sua formação histórica.

Agora, como chegar a Messina? Dependerá, evidentemente, de seu ponto de partida. Quem sai do Brasil, geralmente chega a partir do aeroporto de Palermo, na Sicília, após conexão em Roma ou Milão. Por outro lado, se já estiver no Sul da Itália, recomendamos que faça o trajeto a partir da Comuna de Villa San Giovanni, em Reggio Calabria, atravessando o Estreito de Messina. Alugue um carro ainda no continente e percorra o Estreito de balsa. São duas as opções mais comuns utilizadas neste percurso, o serviço privado da Caronte & Tourist ou o público da Bluferries. O caminho leva de 20 a 30 minutos, dependendo das condições climáticas e do tipo de balsa escolhido. Consulte o site das companhias antes de viajar, para consultar opções, horários de saída e valores.

Dica: O caminho entre Villa San Giovanni e Messina, pela balsa, não pode ser desperdiçado. É parte essencial de seu curso turístico pela Sicília; e não apenas um ponto de passagem. Aproveite para fotografar cada quilômetro percorrido. Ao longo do caminho, observe o continente ficando para trás e um novo universo chegando ao horizonte. Estas faixas de transição estão sempre entre minhas preferidas ao longo de meus roteiros de viagem.

Messina possui vasto litoral, a Nordeste da ilha siciliana. E, claro, como não poderia deixar de ser, abriga diversas praias e pontos importantes para visitação e lazer. Entretanto, neste mesmo roteiro chegaremos a Taormina, internacionalmente conhecida por seu badaladíssimo litoral e praias de perder o fôlego. Inclusive é o principal destino de brasileiros que vão para a ilha. Assim, apesar da visão privilegiada que Messina apresenta do continente italiano, recomendamos que, por aqui, experimente o que se pode oferecer de história, arquitetura e arte. Poderemos relaxar ao sol de Taormina ao final de nosso roteiro.

Neste sentido, em Mesina, não deixe de conhecer:

Relógio Astronômico – o Relógio está localizado na torre do sino da Catedral de Messina, ou Duomo de Messina. Foi construído a partir de 1933 e é conhecido como o Relógio Astronômico mais complexo da Europa. Todos os dias, exatamente ao meio dia, o Relógio conta a história da cidade, revelando, em um intrincado movimento de estátuas e engrenagens, um sistema magnífico de engenharia. Cada andar do equipamento tem um significado diverso, mostrado através dos dias da semana, puxados por carroças guiadas pelos deuses pagãos da tradição politeísta romana. Independentemente de quantos dias for passar por aqui, planeje com rigor a sua estadia para que, ao meio dia, esteja à frente desta obra incrível, que mistura arte, história e refinado cuidado tecnológico.

Duomo di Messina – a Catedral da Comuna existe desde o século VI, sendo modificada e reconstruída algumas vezes, seja por questões de ordem natural, seja por consequência de invasões militares. Sua arquitetura também segue as sucessivas influências de diferentes tempos históricos e domínios políticos, passando pelo gótico, barroco e neogótico. Chamam a atenção, contudo, os portais de Polidoro Caldara da Caravaggio; as colunas em espiral de Antonio Baboccio da Piperno; e a estátua da Virgem com Criança, na nave central, de Giovan Battista Mazzolo.

Chiesa dei Catalani – também conhecida pelo seu nome completo, a Chiesa della Santissima Annunziata dei Catalani teve o início de sua construção na Idade Média, a partir do século XII, pelos bizantinos. O que mais chama a atenção neste templo religioso é a intensa mistura arquitetônica que marcou a ocupação territorial de Messina. Há por aqui desde os tradicionais elementos bizantinos, até as transformações espanholas do século XVIII. Assim como uma forte influência da estética árabe, produto das invasões medievais. A igreja parece “enterrada” no solo, pois foi vítima de um terremoto, em 1908, que obrigou um novo nivelamento da rua, três metros acima da construção original.

Madonna della Lettera – o dia 3 de junho é importante para a Comuna de Messina. Esta data celebra o dia em que alguns habitantes da comuna, em 42 d.C, teriam viajado para Jerusalém para conhecer Maria, a mãe de Cristo, após pregação do apóstolo Paulo pela Sicília. Em Jerusalém, após longa peregrinação, os messineses receberam uma carta da Virgem, contendo uma mensagem em hebraico de benção para a cidade e sua população. O culto como ocorre hoje somente se iniciaria no século XV, entretanto, a visita à Madona – representada por uma enorme estátua, localizada na Península da Zona Falcata, após a Chiesetta Santa Barbara –, e o recebimento da carta são elementos vitais para a identidade de Messina desde a Antiguidade. A estátua da Virgem se localiza no topo de um obelisco, e sua base contém a seguinte inscrição, parte da carta de Maria: “Vos et ipsam Civitatem benedicimus”. Significando, em tradução livre, algo como: “Bendizemos a vós e vossa cidade”.

Museo regionale di Messina – existe desde o século XIX, mas precisou ser reconstruído depois do terremoto de 1908. O que se repete após os bombardeios referentes à Segunda Guerra Mundial. Chama a atenção o extenso acervo artístico do museu, que abriga obras provenientes desde o período bizantino até a Idade Moderna. Agora, o que mais atrai turistas do mundo todo para cá é a disponibilidade de duas obras de Caravaggio, a saber: Resurrezione di Lazzaro e Adorazione dei pastori, ambas de 1609.

Taormina

Em um trecho de um pouco mais de 50 quilômetros, pela Strada Statale 114, saia de Messina e percorra a belíssima estrada litorânea até Taormina. Realmente, a visão do Mar Mediterrâneo é constante e, se tiver tempo sobrando e a meteorologia permitir, pare em alguns pontos para admirar este grande cenário que é percorrer de carro o litoral oriental da Sicília. Lembre-se do que acabamos de dizer sobre o caminho ser tão importante quanto o ponto de destino e aproveite.

A Comuna de Taormina é, como já mencionamos anteriormente, um dos pontos mais conhecidos pelos brasileiros que vão para a Sicília. Não é ainda um dos destinos mais buscados pelo chamado “turismo de massa” de quem sai do Brasil, porém é um ponto cada vez mais procurado por aqui. E isto se dá porque a “Pérola do Mar Jônico” possui um litoral que é reconhecido por diversos visitantes como um dos mais belos do mundo, fazendo de suas praias um destino obrigatório para quem aprecia o verão ou para aqueles que desejam conhecer melhor a Sicília.

Dentro deste litoral riquíssimo, destacamos três pontos de parada que são reconhecidos pelos principais frequentadores de Taormina como suas praias mais importantes. Não vá embora sem conhecer:

Praia de Isola Bella – costumeiramente reconhecida pelos viajantes internacionais como um dos locais mais requintados de Taormina. Já foi palco de comerciais para TV, como a Dolce & Gabbana. É uma praia de pequeno porte, principalmente para os brasileiros habituados a um litoral enorme e praias vastas. É daquelas praias tipicamente europeias, com pequenas pedras como assoalho, diferente da areia a que estamos mais acostumados. A dica principal que deixamos é a de que se deve chegar cedo para conseguir um bom lugar na praia, principalmente nos setores públicos (algumas áreas da praia são mantidas por estabelecimentos comerciais, que cobram pelo uso de cadeiras, por exemplo).

Praia de Mazzeo – é também uma praia de solo composto por pedrinhas, como em Isola Bella e praticamente todo o litoral da ilha. Chama a atenção dos visitantes em Mazzeo a temperatura da água, muito mais fria do que se está acostumado no Brasil, mesmo no verão.

Praia de Letojanni – apenas 6 quilômetros a partir de Mazzeo, também tem solo de pedrinhas e é parte da mesma linha litorânea. Os turistas costumam conhecer Letojanni sempre em conjunto com a praia de Mazzeo. Assim como aquela, o litoral é tranquilo, porém o solo oceânico se torna profundo em curto espaço, e a água também é mais fria do que o típico litoral brasileiro. A vantagem por aqui é que as áreas reservadas aos “lidos”, estabelecimentos comerciais, são bem mais acessíveis do que em Isola Bella, o que faz valer a pena para uma estadia um pouco mais longa do que apenas uma passagem de poucas horas.

Agora, Taormina não possui apenas um prestigiado litoral. Há mais por aqui que deve ser investigado pelo turista. Sua ocupação humana, desde a Pré-História e até os dias atuais, deixou por aqui marcas que devem ser reconhecidas pelo turista. Principalmente por aquele ávido por repousar sua atenção sobre os aspectos formativos de um território, ou de uma sociedade humana.

Neste sentido, inclusive, Taormina é a sinédoque da formação siciliana como um todo. Taormina encarna um percurso de ocupações históricas que sintetizam a experiência da ilha como um todo. Desde a Pré-História, até os dias atuais, já passou pelo domínio de sículos, romanos, árabes, normandos e franceses; sempre sendo obrigada a se reconstruir e redefinir sua própria identidade nacional. Até se tornar uma região de turismo internacional de elite, Taormina passou de um domínio para outro do modo extremamente constante, redefinindo estruturalmente sua concepção de mundo.

Em sua história mais recente, principalmente após o século XIX e ao longo do XX, a Comuna foi frequentada por personalidades importantíssimas do meio literário, artístico ou cinematográfico, tais como: D.H. Lawrence, Truman Capote, Tennessee Williams, Jean Cocteau, Elizabeth Taylor, Greta Garbo, entre outros. E, talvez após esta frequência internacional, muito influenciada pelo chamado Grand Tour da juventude europeia, é que Taormina tenha ganhado este status de cidade turística muito ligada aos seus dotes litorâneos.

Entretanto, para que os clichês não sobrevivam e não se perpetuem, recomendamos que você visite e conheça um pouco mais sobre a Comuna:

Teatro Grego – construído na Antiguidade Clássica, por volta do século III a.C., o Teatro Grego de Taormina é o segundo maior da Sicília, sendo superado pelo existente em Siracusa. Na Antiguidade, abrigava séries importantes de apresentações teatrais gregas, tão importantes para aquele período histórico e estudadas por especialistas do mundo todo até os dias atuais. No período romano, sofreu reformas para contemplar a apresentação de lutas entre gladiadores. Foi reformado mais uma vez na época das invasões árabes, quando diversas colunas foram removidas para compor palácios e outras construções diversas. Ainda funciona, recebendo obras musicais e teatrais. É possível visitar o teatro, mesmo vazio, pagando ingresso. Foi escavado na montanha e, também por isso, possui vários níveis de visualização. É possível, depois de subir vários degraus, ver o mar e o Etna de pontos elevados muito privilegiados! Como costumamos dizer, as fotos ficarão incríveis!

Piazza Duomo e Duomo – a Praça da Catedral é ponto central em Taormina, e um giro por aqui é importante para conhecer melhor a Comuna. A visão da Fontana, que abriga o Centauro Bípede com busto de uma mulher, símbolo da Comuna, é marcante. A fonte é também formada por quatro pilares, que sustentam cavalos marinhos, que despejam água em bacias, fechando o ciclo. Também aqui é possível, claro, visitar a Catedral de Taormina, tipicamente medieval, do século XIII, conhecida como “Catedral Fortaleza”, por suas características arquitetônicas próximas do românico. A praça abriga ainda a Porta Catania, do século XV, que dá acesso ao Sul da Corso Umberto, fazendo parte da murada que cerca a Comuna. Igualmente do século XV é o Palazzo Ciampoli. Era usado até pouco tempo como um local de festas noturnas e nightclub, porém, fechado, passa por intenso processo de restauro. Atualmente só é possível visitar a escadaria de acesso e a porta de entrada.

Piazza IX Aprile – é o grande centro da Comuna, com seus cafés típicos, artistas de rua e caminho obrigatório para quem circula pela Corso Umberto. Nomeada em homenagem ao boato sobre a chegada de Garibaldi à Sicília, em 1860 (que só ocorreria em Marsala, um mês depois). Para os sicilianos, à época, Garibaldi seria o símbolo da libertação contra os Bourbon, porém, ao cabo, representou a concretização dos planos do Piemonte para a unificação de todo o território italiano. Uma visita à Praça é muito interessante para que se tenha uma dimensão da vida siciliana e em especial do povo de Taormina. A praça pode também ser visitada para que se conheça a Igreja de São José, construída no século XVII com características tipicamente barrocas. Um verdadeiro símbolo de resistência pode ser encontrado na Praça, ao se visitar a Torre do Relógio, construída no século XII e constantemente destruída, seja por eventos naturais, seja pela ação humana. Todavia, chama atenção o contínuo esforço em sua reconstrução, tão insistente quando exata.

Corso Umberto – é a principal via de acesso da Comuna. É limitada ao sul pela Porta Catania e a ao norte pela Porta Messina. Seu percurso é recoberto por diversas construções históricas, como igrejas, arquiteturas de estilo barroco ou gótico, influências árabes ou normandas, e assim por diante. É como caminhar por uma aula de história a céu aberto. E, claro, a Corso Umberto também possui uma série das principais lojas e departamentos comerciais da Sicília, agradando aqueles que tiverem a intenção de levar algo de volta para casa.

Jardim Público – a Villa Comunale é um dos pontos mais importantes de visitação em Taormina, e muito útil para quem gosta de passar tempo distante do burburinho do centro ou dos cafés. Hoje público, o jardim foi criado por Florence Trevelyan, como parte da decoração de sua própria casa, como era comum em meados do século XIX, principalmente na Inglaterra, seu país de nascimento. Ao longo do Jardim, além de apreciar a vegetação local, é possível contemplar as construções que Florence erigia para vigiar os pássaros, conhecidas por Victorian Follies. Mas não deixe de procurar por aqui a vista oferecida para o Mar Jônico e o litoral de Taormina. Sempre que a vegetação se abrir e surgirem esses terraços para o mar, prometo que perderá o fôlego.