Langhe, Roero e Monferrato – a identidade vinícola italiana no Piemonte

Enogastronomia - 27/08/2017
Por Adrian Theodor

Localizado ao Sul da grande Região do Piemonte, o complexo vinícola de Langhe, Roero e Monferrato é produtor dos vinhos mais rebuscados e saborosos não só da Itália, como de todo o mundo. Parte da imensa Planície de Padania, de formação aluvial, relacionada ao desgaste e sucessiva deposição sedimentar da Bacia do Rio Pó, possui morfologia única para a produção de vinhos exclusivos da Itália, como o incomparável e distinto Barolo, ou ainda o gentil e refinado Barbaresco, o aromático Spumanti d’Asti e o tradicionalíssimo Barbera d’Asti.

Uma extensão de mais de 10 mil hectares, que abrange também os territórios produtores de vinho em Langhe, Roero e Monferrato é, desde 2014, considerada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. E, segundo as próprias determinações do órgão para sua inscrição como Patrimônio Mundial, esta região se caracteriza por ser “um excepcional testemunho vivo da tradição histórica do cultivo da videira, do processo de vinificação, de um contexto social e rural, e de uma tessitura econômica baseada na cultura do vinho. Os vinhedos de Langhe-Roero e Monferrato constituem um exemplo excepcional de interação do homem com o seu ambiente natural”.

É bastante comum a relação que se estabelece entre a identidade italiana e sua produção vinícola. Todavia, aqui no Piemonte, evidencia-se a mesma relação como íntima interligação do ser humano com seu meio. A profunda conexão que o italiano possui não apenas com seus costumes históricos milenares, mas com a posse de sua terra. A sensibilidade italiana de sua identidade não se dá pelos trejeitos exagerados com as mãos, como tanto se quer proliferar nas piadas pedestres, porém com as sucessivas camadas históricas de mudança pelas quais passou seu povo, no vai e vem continuo do pisar o suco vermelho do chão a quem ele pertence desde o nascimento.

Permita que este paradigma tão antigo quanto o próprio mundo se fixe em sua mente. A seguir, conheça sete possibilidades imperdíveis que separamos para você em Langhe, Roero e Monferrato:

Nota do Autor: a partir deste ponto, nosso texto tomou por base o artigo de Stefano Brambilla, intitulado: Arte, cultura, sapori, natura: dieci motivi per visitare il bellissimo territorio piemontese, disponível no site do Touring Club Italiano.

1. Produção de vinho e Vinhedos:

Para além da importância piemontesa, separamos seis áreas específicas de produção de vinho, localizadas em 29 Comunas diferentes, que, por sua ligação indissolúvel entre homem e paisagem, possuem hoje relevância para o mundo inteiro.

Recomendamos visitas atentas não apenas aos vinhedos, mas às suas adegas, com a devida degustação. Os vinhos de Langhe, Roero e Monferrato são tão únicos e diversos entre si, que se o seu roteiro por aqui for verdadeiramente cuidadoso tão somente a estas seis áreas vinícolas, sua viagem já terá valido cada centavo investido.

Langa del Barolo – o vinho Barolo certamente é o produto mais famoso de Langhe (foto de capa). Visite o Castelo do Barolo para experimentar e aprender mais sobre o nosso favorito de todos os vinhos do mundo.

Castelo do Barolo – Langhe

Castello di Grinzane Cavour – além de abrigar a sede regional da Enoteca Piemontesa, o Castelo possui um museu etnográfico que dispõe a vida cotidiana culinária na Itália do século XVII ao XVIII.

Castello di Grinzane Cavour – Langhe

Colline del Barbaresco – onde se cultiva uma das uvas mais tradicionais historicamente na Itália (e também por alguns imigrantes do Velho País para o Brasil), a Nebbiolo. Além, claro, das produções de Barbaresco, Barbera e Dolcetto.

Nizza Monferrato – desde 2016, em julho, esta parte da Colina de Langhe, celebra um festival em homenagem a sua produção vinícola. Representa um centro produtor em franca expansão, mais do que dobrando sua capacidade produtiva a cada ano. Espera-se que a produção do vinho Nizza D.O.C.G. supere os 4 milhões de garrafas na safra 2017-2018, consolidando-o no mercado internacional.

Canelli – em Canelli, é possível realizar visitações às catedrais subterrâneas  que abastecem as adegas do Espumante Asti.

Monferrato degli Infernot – são diversas as possibilidades em Monferrato para se ver o Inferno! “Inferno” é o nome tradicional das instalações subterrâneas, de arenito ou tufo, usadas para o armazenamento das garrafas de vinho já prontos para o consumo ou em período de guarda.

Monferrato degli Infernot

2. Asti, Casale Monferrato e Alba:

Se estiver em Asti no mês de setembro, ao terceiro domingo, não deixe de visitar seu Palio, celebração tradicional da Comuna desde a Idade Média, que culmina com uma corrida de cavalos ao redor da Piazza Alfieri. Não é tão grande quanto o Palio de Siena, entretanto é um evento importantíssimo que traduz a alma histórica do lugar. Neste sentido, faça alguns passeios por seus grandiosos monumentos históricos, como a Collegiata di San Secondo, a Catedral de terracota, o complexo medieval da Rotunda de São Pedro e o suntuoso Palácio Mazzetti, sede do Museu Cívico.

Palio de Asti

Casale Monferrato ostenta vistas belíssimas do Rio Pó, que margeia a Comuna. Gosto sempre da ideia de me demorar em suas bordas para algumas fotografias e um bom café. Porém, aproveite também para ver a estrutura inusitada de seu Duomo, com colunas zebradas e teto estrelado em azul. Isto, claro, sem contar o Castelo principal da cidade e a mostra de gesso Bistolfi, com obras importantes do artista local.

Escultura em gesso Bistolfi

Em Alba, visite principalmente o cento histórico, que reproduz a circularidade típica dos burgos medievais. Ao perder-se por ali, não demorará muito para que se depare com pitorescas torres e fortalezas, até que encare a beleza das grandes igrejas, com atenção especial ao Duomo di San Lorenzo, o principal centro religioso da Comuna, e à Chiesa di San Domenico, um dos mais belos monumentos Romano-Góticos de todo o Piemonte. E, claro, não deixe de provar a trufa branca, famosíssima em Alba.

Chiesa di San Domenico

3. Os Castelos:

Apesar de já termos falado um pouco sobre os Castelos presentes na região do Langhe-Roero, destacamos sua importância para este roteiro em particular. Assim como mencionamos no passeio às vinícolas, se a sua viagem se concentrar apenas nos castelos e consequentes entornos, já terá valido a pena.

Destacamos aqui os óbvios Castelo do Barolo, Grinzane Cavour e Casale Monferrato. Além destes, visite ainda o barroco Castelo de Govone e seu esplêndido salão de baile; o Castelo de Serralunga d’Alba, por onde poderá ter vista privilegiada das vinícolas da região e suas inesquecíveis colinas; e o Castelo de Camino e seu lindo pátio construído ainda no século XV.

4. Pequenos Burgos do Interior:

Você também pode visitar os pequenos burgos (em português, talvez, a tradução mais próxima seja “aldeia”, mas, ainda assim, sem precisão), muitas vezes com menos de 15 mil habitantes, que possuem excelência em abrigar turistas do mundo inteiro e, ainda assim, manter sob controle os rígidos critérios de sustentabilidade e preservação histórica.

Conhecidos pela denominação de “países de bandeira laranja”, destacamos para o nosso roteiro,  nove dessas localidades que merecem sua visita. Conheça a isolada Bergolo e seus pátios panorâmicos; Bene Vagienna e seu impressionante anfiteatro Romano; Cherasco, com mercadinhos tradicionais típicos dos vilarejos italianos; Neive e suas ruelas estreitas e arquitetura em tijolo e pedra; Morra, terra do vinho e das avelãs; Barolo e seu maravilhoso vinho (claro, não se esqueça do Museu do Vinho, no interior do Castelo); Grinzane Cavour e seu Castelo cercado por inúmeros vinhedos; Monforte d’Alba e sua praça principal, onde fica o Anfiteatro; e Cocconato, com um Centro Histórico dos mais conservados em Langhe-Roero.

Centro Histórico de Cocconato

5. A Rocha de Roero:

Menos conhecida na região, a Comuna de Roero, na margem esquerda do Rio Tanaro, preserva um ambiente ainda intacto de certas interferências humanas, com colinas que misturam a vegetação original e a produção de vinho. Na paisagem local, interpõem-se rochas, penhascos, colinas, ravinas e encostas, como que emergindo da vegetação ainda pouco alterada pela ação humana, mesmo tendo presente tão intensa produção vinícola.

Para explorar todo o esplendor desta paisagem peculiar, sugerimos que planeje em seu roteiro uma excursão pelo grande Caminho de Roeiro, que segue um percurso desde a Fratura Geológica de Bra até a Cisterna de Asti. Neste trajeto, poderá passar pelas rochas de Pocapaglia, as mais famosas do território, até atingir o já mencionado Castelo de Govone. Se estiver por aqui entre março e abril, poderá desfrutar da beleza do florescimento das Tulipas no parque do Castelo.

6. Culinária local:

A região de Langhe-Roero é uma daquelas sínteses italianas que apreciamos sempre mencionar. Não importa o quão isolado é o território, ou o quão pequeno é o vilarejo, sempre será possível encontrar uma variedade quase infindável de pratos locais para você experimentar. E, numa vastidão vinícola de mais de 10 mil hectares, a escolha pode ser quase impossível. Ao invés de construir um panorama definitivo, destacamos, aqui, apenas nossos preferidos da região.

Em Roccaverano, delicie-se com a Robiola, uma variedade de queijo, feito do leite de cabra, que se tornou uma característica marcante na culinária piemontesa. Em Asti e Alba, experimente o Torrone (ou Nougat, em algumas traduções), feito com as soberbas avelãs do Piemonte. Em Canale, se estiver por aqui no final de julho, poderá encontrar na feira os famosos pêssegos da região, com a pele branca e polpa espessa, deliciosos. Em Monferrato, experimente a Bagna Càoda, molho quente, à base de alho, azeite de oliva, creme de leite fresco, manteiga e anchovas, acompanhado de legumes locais, colhidos na hora. E, claro, não se esqueça das trufas brancas, famosas internacionalmente, da cozinha de Alba.

Bagna Càoda

7. As Termas de Acqui:

Na Província de Alexandria, a Comuna de Acqui Terme possui águas termais e SPA que atraem pessoas do mundo inteiro. Ainda ponto turístico pouco popular no Brasil, é essencial para quem aprecia o contato com os inúmeros benefícios da água à base de enxofre. E, mesmo para aquelas que não se sentem atraídas pelo mergulho sulfuroso ou pelo contato com a argila, podem encontrar em sua visita pontos de interesse.

Fonte do Bollente

Por exemplo, ao visitar a fonte do Bollente, é possível entrar em contato não apenas com a temperatura de 75°C da água, mas com a história romana de seus aquedutos. Não deixe de conhecer também o Duomo da Comuna, com portais datados do século XV, e o tríptico de Nossa Senhora de Monserrat, na Câmara dos Canônicos.

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