Itália: atualização situação Coronavírus

Dicas Cenci - 10/03/2020

Por Giacomo Cenci

A situação ligada à propagação do COVID-19 (mais conhecido como Coronavírus) na Itália está em constante evolução, portanto expomos abaixo algumas atualizações importantes.

As informações abaixo são baseadas somente em fontes oficiais: Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde italiano, European Centre for Disease Prevention and Control, diretores de Hospitais e virologistas, etc.

Quantos casos de infecção existem até o momento na Itália?

Às 18h00 de 09/03/2020 constam 9.172 pessoas infectadas (número total, incluindo as pessoas que já sararam) com o novo Coronavírus na Itália. Destas, 2.936 estão em isolamento domiciliar, 4.316 estão internadas com sintomas leves e 733 estão em terapia intensiva. Oficialmente, 724 pessoas sararam e 463, que apresentavam um quadro clínico comprometido antecedente ao contágio, vieram a falecer.

Os dados estatísticos divulgados no começo do contágio foram confirmados nesse período: 80% das pessoas infectas apresentam sintomas leves ou levíssimos, ou são até assintomáticas; 15% têm problemas sérios, mas curáveis em ambiente sanitário, 5% é grave, devido a doenças pré-existentes. Em nenhum caso o vírus é causa direta da morte, mas configura uma das causas. A idade média dos falecidos é de 81 anos.

Coronavírus 2
Foto via Askanews.it

Qual é a situação no resto da Europa com relação à Itália?

O fato de que, como os especialistas afirmaram no final de fevereiro e relatamos no post anterior, o aumento da incidência de infecções na Itália deve-se a um sistema diferente de controle e gestão do contágio, foi confirmado nesse período. É um fato incontrovertível que na Itália foram feitos muito mais testes em relação aos outros países da Europa.

Os virologistas muito provavelmente tenham conseguido identificar o “paciente zero” europeu, ou seja, a primeira pessoa que, supostamente, contraiu o vírus na Europa e começou a espalhá-lo: se trata de um cidadão alemão, um homem de 33 anos residente em Munique. Ele foi infectado pelo vírus após ter tido contatos com uma colega de trabalho que mora em Shangai. Esta notícia foi publicada por um grupo de pesquisadores alemães no New England Journal of Medicine, no dia 5 de março.

De acordo com um mapa genético publicado no site Netxstrain, que reconstrói uma espécie de árvore genealógica do vírus, o surto teria alimentado silenciosamente a cadeia de infecções a ponto de estar conectado a muitos casos na Europa e na Itália. Tudo isso leva a acreditar que, muito provavelmente, os dados reais sobre os infectados por Coronavírus no resto da Europa sejam mais altos em relação aos oficiais. O problema é que alguns países não estão se demonstrando tão solertes em divulgar os dados sobre os contágios. Em todo caso, citando os países com dados oficiais maiormente significativos, atualmente temos notícias de mais de 1.000 casos de contágios da França, assim como na Alemanha (o jornal Die Zeit em 08/03 publicou o dado oficioso de 1.028 contágios); na Espanha, o Governo fala em aproximadamente 400 casos, segundo a imprensa seriam pelo menos 900.

A Itália é responsável pela propagação do vírus na Europa e no resto do mundo?

Infelizmente, a Itália tem sido alvo de ataques midiáticos imputando ao País de ser a causa da expansão da epidemia no resto do continente europeu e nas outras regiões do planeta. A CNN divulgou um mapa em que a Itália parece ser o foco da epidemia mundial.

Trata-se, evidentemente, de informações sem fundamento. Primeiramente pelos dados citados acima. E também porque, como já comprovamos no nosso artigo anterior, a Itália tem sido o País que mais saiu “à procura” do vírus. Para citar um exemplo, um teste para detectar o Coronavírus nos Estados Unidos tem um custo, para o paciente, que oscila entre USD 1.000,00 e USD 4.000,00, sendo que na Itália é completamente gratuito, pois é feito pelo sistema público de saúde .  

Finalmente, os virologistas chegaram à conclusão de que o vírus percorreu três caminhos para se difundir no mundo inteiro. Afirma Ilaria Capua, diretora do centro One Health da Universidade da Flórida:

O mito de que a Itália espalhou o vírus deve ser dissipado. A partir do epicentro da epidemia na China, o Coronavírus seguiu seus caminhos para se espalhar pelo resto do mundo: um caminho rumo a Europa, um para os Estados Unidos e o terceiro para o Sul, em direção à Coréia e Austrália. Os dados evidentes são de que a dinâmica da infecção na Europa é diferente da relatada até agora.

As sequências genéticas do Coronavírus obtidas na Itália ainda são poucas, mas suficientes, segundo a virologista, para entender que “não foram os italianos que espalharam a infecção”.

O que ainda não sabemos

Uma informação fundamental que ainda não possuímos – essencial para interpretar da forma mais correta os dados – é o que, na assim chamada “estatística médica”, é identificado com o nome de Denominador: o verdadeiro número total de pessoas que até agora foram infectadas.

A virologista Ilaria Capua, em uma entrevista ao jornal italiano “La Stampa” publicada em 04 de março, afirmou que o número real das infecções poderia ser cem vezes maior em relação aos dados oficiais. Portanto, na Itália já teríamos quase 900.000 contatos com o vírus, e não os cerca de 9.000 certificados até agora. E na China falaríamos sobre 8 milhões de pessoas infectadas, não 80.000. Por que tudo mudaria? Por exemplo, porque a taxa de letalidade (calculada dividindo o número de mortes pelo número de casos e depois multiplicando-o por 100) cairia de 3,4% para 0,034%. Assim como a porcentagem de indivíduos que necessitam de tratamento hospitalar ou permanência na UTI muda sempre movendo a vírgula em duas posições.

Por outro lado, se a hipótese de Ilaria Capua fosse verdadeira, teríamos uma propagação muito mais rápida do vírus do que até agora acreditamos. Com o mesmo ritmo, ou um pouco mais rápido, de gripe sazonal. Que nos momentos de pico, na Itália, cresce com centenas de milhares de novos casos por semana, assim como demonstrado pelo Relatório InfluNet.

Isso pode ser assustador, mas, se realmente na Itália já tivéssemos 900.000 infectados e não apenas 9.000, ao mesmo tempo teríamos 891.000 pessoas que, graças aos anticorpos, interromperiam a proliferação do vírus. Ou seja, estaríamos na presença daquilo que na medicina é chamada de “imunidade de rebanho”.

Obviamente são somente hipóteses, que precisam ser confirmadas.

Quais são as novas medidas que o Governo italiano adotou?

Após o Decreto de 23/02/2020, o Governo emanou mais três Decretos, em 01/03/2020, 08/03/2020 (consulte-o na integra aqui) e 09/03/2020, para determinar medidas mais eficazes contra a propagação do Coronavírus.

Com o Decreto de 08/03, o Governo passou a não distinguir mais mais entre “Zonas Vermelhas” – alguns municípios da Lombardia e o município de Vo’ Euganeo, na região Veneto, que correspondiam aos locais onde foram identificados os focos do contágio – e as “Zonas Amarelas”, ou seja, os lugares onde havia um número considerável de pessoas contagiadas.

O Governo identificou uma grande “Zona Laranja” – se assim podemos dizer, pois o Decreto não utiliza essa expressão, embora a mesma seja usada pela mídia e pelos estudiosos para simplificar. Essa zona era composta pelos seguintes lugares, todos pertencentes ao Centro-Norte da península: a região Lombardia toda e as Províncias de Modena, Parma, Piacenza, Reggio Emilia, Rimini, Pesaro e Urbino, Alessandria, Asti, Novara, Verbano-Cuscio-Ossola, Vercelli, Padova, Treviso e Veneza.

A partir da identificação dessa assim chamada “Zona Laranja”, o Decreto determinou medidas restritivas que aplicassem a essa região da Itália e outras válidas para o restante do País.

Agora, com a emanação do novo Decreto, com data 09/03/2020, cujas disposições são válidas até 03/04/2020, o Governo decidiu aplicar as restrições inicialmente previstas só para a “Zona Laranja” para todo o território nacional. Toda a Itália, portanto, é “Zona Laranja”, se assim podemos dizer. Seguem as medidas mais significativas:

  1. É proibido o deslocamento das pessoas dentro do território nacional – ou seja, de um município para outro município, pois a circulação dentro dos municípios é permitida sem restrições – a não ser por comprovadas exigências de trabalho, por motivos de saúde ou em caso de emergência. A circulação das mercadorias é permitida, sempre.
  2. Em todo caso, é recomendado que as pessoas saiam de suas residências somente quando for necessário.
  3. É proibido qualquer tipo de agregação de pessoas em locais públicos ou abertos ao público.
  4. Estão suspensas as manifestações e os eventos abertos ao público, que sejam em locais abertos ou fechados. Essa restrição inclui eventos lúdicos (como cinemas, teatros, etc.), culturais (como mostras, congressos, etc.) e religiosos.
  5. Estão fechados todos os museus e as instituições culturais.
  6. Todas as competições esportivas estão suspensas, a não ser às organizadas por instituições internacionais, mas sem a presença do público.
  7. Estão suspensas todas as atividades escolares, assim como as Universidades estão fechadas.
  8. Os titulares de atividades comerciais têm que se certificar para que seja respeitada, nos estabelecimentos deles, a distância de um metro entre as pessoas.
  9. A abertura dos locais de culto é condicionada à adoção de medidas que possibilitem o respeito da distância de segurança.
  10. As pessoas que apresentam sintomas causados geralmente pela gripe ou em quarentena, pois infectadas pelo Coronavírus, estão proibidas de sair das suas residências. Quem precisar de atendimento médico, precisa ligar para o número de emergência, não pode se apresentar ao Pronto Socorro.  Os hospitais, de fato, são um dos lugares de maior propagação do vírus.
  11. Restaurantes e bares ficam abertos das 06h00 às 18h00 e os mesmos têm que tomar medidas para que seja respeitada a distância de um metro entre as pessoas.
  12. Todas as demais atividades comerciais continuam funcionando regularmente, sempre promovendo o respeito da distância de segurança entre as pessoas.
  13. Durante os finais de semana, permanecem fechados os médios e grandes centros comerciais, para evitar a agregação de um grande número de pessoas em lugares fechados. 
  14. Está proibido o funcionamento de academias, centros esportivos, piscinas, centros termais, etc.
  15. Os idosos e as pessoas debilitadas por doenças pré-existentes são recomendados a não sair de suas residências, a não ser por estrita necessidade.

O Governo italiano quis adotar essa “terapia de choque”, com medidas drásticas, para conter ao máximo a propagação do vírus e pela consequente ameaça de sobrecarregar o sistema de saúde público, levando o mesmo ao colapso.

Ao mesmo tempo, as autoridades estão empenhadas numa campanha para sensibilizar as pessoas sobre o fato de que, se de um lado é necessário que cada um faça a sua parte, respeitando quanto determinado pelas autoridades e adotando as medidas higiênico-sanitárias recomendadas, do outro lado é absolutamente fundamental evitar episódios de pânico, que se revelam contraproducentes e danosos para todos.

Existem restrições no tráfego aéreo, automobilístico e ferroviário atualmente na Itália?

A situação desse ponto de vista está em constante evolução. É claro que, para que as restrições acima especificadas se demonstram eficazes, é necessário atuar com uma forma de controle. Os meios de transporte público dentro da península estão funcionando regularmente, mas as autoridades públicas adotaram e estão progressivamente intensificando medidas aptas a certificar a procedência e o destino das pessoas em trânsito nas estações ferroviárias, nas rodovias, etc., e a verificar que as pessoas se locomovam exclusivamente por conta das circunstâncias excepcionais que permitem a movimentação. O Governo pôs à disposição dos cidadãos um modelo de autocertificação a ser preenchido para motivar o deslocamento.

Os mesmos controles valem para os aeroportos. Algumas companhias aéreas, inclusive, já diminuíram ou cancelaram os voos para os aeroportos de Linate e Malpensa em Milão, até 15/03/2020 ou 03/04/2020, mas a situação muda de hora em hora.

Fontes:

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