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A Cidade do Vaticano – Uma trajetória histórica

Cidades Históricas - 05/08/2018
Por Adrian Theodor
Foto de capa: Givaga

Escrever sobre a história da Cidade do Vaticano é sempre um desafio. Além da longa duração, pois remonta desde a Antiguidade Romana, existem as complexidades críticas relacionadas ao contexto religioso católico, em seus diversos períodos de transformação e revisão. Neste sentido, este roteiro pretende apresentar aquilo que se relaciona diretamente aos aspectos turísticos da questão, retomando a história do Papado romano apenas quando for indispensável para a contextualização do leitor.

A Cidade do Vaticano, como Estado independente e administrado pelo Bispo de Roma, ou seja, o Papa, é concedida pelo Ditador Benito Mussolini em 1929, através da assinatura do Tratado de Latrão. Todavia, a história do Vaticano não começa por aí, e deve retomar o longo e complexo histórico da posse de terras do papado romano, desde a Antiguidade; além do processo de construção de seu templo, a famosíssima Basílica de São Pedro, principalmente após seu ousado plano de reconstrução, já no século XV, elaborado pelo Papa Nicolau V.

Vista aérea do Vaticano

Os Estados Pontifícios

Misturando-se aos mais variados contextos históricos da construção da famosa Basílica de São Pedro, a própria posse de terras da Igreja Católica na Itália (sem contar ao redor do mundo) guarda relações com a Cidade hoje existente, no interior da cidade de Roma.

As tensões entre a força religiosa da Igreja e seu poder temporal, ou seja, político, são milenares, datando desde sua origem, durante a cristianização do Império Romano, que já tratamos aqui, sob a égide do Imperador Constantino. Em 313, ao tornar o cristianismo religio licita, ou seja, ao autorizar o culto dos cristãos em território romano, abre caminho para que, em 380, o Imperador Teodosio, sob o Edito di Tessalonica faça do catolicismo a religião oficial de todo o Império,  sob a nomenclatura de Igreja Católica Apostólica Romana, iniciando um processo histórico que influencia religiosos até os dias atuais, espalhados pelo mundo inteiro.

Mosaico representando o Imperador Constantino

Hoje já se domina o fato de que a famosa Doação de Constantino, no século IV, segundo a qual a nova Igreja, sob a liderança de Silvestro I, teria domínio sobre diversas terras, dentro e fora da Itália, do Ocidente ao Oriente, é um documento apócrifo falso, contestado desde, pelo menos a Idade Média. Mesmo assim, é daqui que a longa ocupação territorial católica tem início. Tendo ou não legitimidade documental, a expansão temporal do catolicismo é um fato histórico consumado, iniciado a partir do Império Romano, e existente até os dias atuais, mesmo que com significativa redução de sua extensão.

A partir do século VIII, já no auge da Idade Média, a igreja Católica tem firmada a oficialidade de seu território europeu. Assume o controle de grande parte dos Estados ao centro da Península Itálica, incluindo toda a extensão do que seria atualmente a cidade de Roma; assim como de parte do Sul da França. O processo de oficialização teve início com a doação das chamadas Terras de São Pedro, pelo então líder do Império Carolíngio, Pepino III, conhecido como Pepino, o Breve; como arbítrio de uma disputa entre a Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Católica Ortodoxa Grega, dominada pelo então ainda existente Império Romano do Oriente, ou simplesmente Império Bizantino. É neste contexto histórico que a posse patrimonial da Igreja passa e ter a denominação de “Estados Pontifícios”, sob o comando dos papas que assumissem o cargo maior da religião católica.

Com variações diversas, um sem fim de contratos de vassalagem com os Estados do Sul da Itália e inúmeros questionamentos, os Estados Papais, ou Estados Pontifícios permanecem mais ou menos como doados por Pepino III até o século XIX, marcando com profundo destaque a relevância da Igreja Católica na Europa, de modo geral, e na Itália, em particular.

Vista panorâmica da Praça São Pedro

A partir da primeira metade do século XIX, a questão dos Estados Papais começa a ganhar novos contornos. A ideia romântica do nacionalismo encobria toda a Europa de conflitos e disputas territoriais. Velhas nações tentavam impor seu domínio sobre regiões que consideravam historicamente suas. O mesmo se deu na Península Itálica. Somente que, por ali, o ideal era o da unificação territorial entre os diversos reinos que então compunham a península. Iniciado pelo Reino Sardo-piemontês, comandado por Carlos Alberto, da casa de Savoia, o processo que levou à unificação da Itália, violento e expansionista em sua essência, atingiria diretamente a Igreja Católica.

De 1848, quando o nacionalismo italiano – representado pela força expansionista do Reino Sardo-piemontês –, inicia o longo processo de unificação dos reinos independentes que formavam o cenário político da Península Itálica; até 1870, quando finalmente Roma, até então sob domínio papal, é conquistada e anexada ao Reino da Itália – formado anteriormente, em 1861, sob a égide de Vittorio Emanuele II –, a Itália é unificada, o território dos Estados Pontifícios constantemente muda de mãos. Resultando na perda completa de seus domínios, mesmo aqueles no interior de Roma, a partir do estabelecimento definitivo da nova Itália. O Papa Pio IX declara a Igreja prisioneira do novo Estado laico e a tensão não seria resolvida até 1929, já durante a ocupação ditatorial de Benito Mussolini, no contexto histórico da ascensão dos regimes fascistas na Europa.

Mapa: limites dos Estados Pontifícios (1845)

Em 1929, o ditador fascista Benito Mussolini, em ampla campanha em prol de angariar apoio popular em tempos de crise, assina com o Papa Pio XI o famigerado Tratado de Latrão, segundo o qual o Estado Italiano reconhece a autoridade papal sobre as terras que compunham o Vaticano, dentro da cidade de Roma; além de oferecer ao papado uma indenização pelas perdas causadas durante o processo de Unificação da Itália. Nasce assim o atual Estado do Vaticano, declarado por Mussolini como inviolável, resolvendo uma questão histórica milenar.

A Basílica de São Pedro

O território onde hoje se localiza a mais importante Basílica do catolicismo foi, na Antiguidade, espaço para a ocupação de diversas residências e jardins aristocratas da alta sociedade imperial romana. No contexto do Governo de Nero, um dos mais controversos imperadores de Roma, chegou a ser o centro dos maiores martírios dos primeiros cristãos, ainda perseguidos pelo Império, antes da romanização do cristianismo, sob Constantino, o que aconteceria somente séculos mais tarde. É após a crucificação de Pedro, um dos 12 apóstolos de Cristo, segundo o relato cristão de época, por voluta do ano de 65, que a história deste lugar começa a ser redesenhada pelos seus contemporâneos, tornando-se relevante para católicos espalhados pelo mundo todo.

A Colina do Vaticano, cerca de 150 metros distante do antigo circo de Nero, dedicado às torturas e execuções dos cristãos, transformou-se em uma necrópole, sepultando diversos dos cristãos que se seguiram ao martírio de São Pedro (ele mesmo fora enterrado ali, segundo relatos de seus contemporâneos), considerado então o fundador do catolicismo. Eternizando a interpretação do texto bíblico de Mateus 16:18: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.

Representação pictórica de São Pedro

A Colina se transformou assim num permanente local de peregrinação cristão, mesmo sob o jugo romano, que os perseguia implacavelmente. Foi somente sob o Império de Constantino, mais de 260 anos depois, que, finalmente, é ordenada a construção de um templo religioso oficial naquele espaço. O Império, agora cristianizado e fundando aquilo que conhecemos como a Igreja Católica Apostólica Romana, investe na construção de uma Basílica, que deveria ser erguida no terreno da antiga necrópole. A construção seguiu os padrões arquitetônicos romanos, dispondo uma grande área interna retangular, dividida entre o salão principal e as salas laterais, oferecendo espaço suficiente para as celebrações religiosas e para o público. Infelizmente, a construção não sobrevive aos dias de hoje, tendo sobrado apenas alguns restos arqueológicos, desenhos, e relatos de época sobre como teria sido a Antiga Basílica de Constantino.

Imagem tridimensional da Antiga Basílica de Constantino

Historicamente, contudo, a Basílica de Constantino passa por um franco processo de deterioração. Apesar do amplo domínio religioso e político do catolicismo na Idade Média, a descentralização política do feudalismo proporcionou também uma fragmentação dos cultos católicos por toda a Europa, impedindo grande investimento na conservação do antigo templo religioso. É importante mencionar, também, o florescimento e intenso desenvolvimento da arquitetura gótica ao longo da Baixa Idade Média, a partir do século XII, trazendo ao catolicismo novas construções religiosas em diversos pontos da Europa. Destacando-se os pináculos arquitetônicos da França, como a Basílica de Saint-Denis, considerada a primeira no novo estilo, iniciada pelo Abade Suger, utilizando, inclusive, os arcos da antiga Basílica de Constantino como referência. Ou ainda a mais famosa de todas, a de Notre-Dame, iniciada também no século XII, sob a égide do Papa Alexandre III e que, até os dias atuais, se considerarmos cada estrutura inserida no projeto inicial, não estaria completamente terminada.

Parte da fachada da Basílica de Saint-Denis

É somente no século XV, já no início da Era Moderna, após intensas crises do catolicismo centrado em Roma (a França chegou a ter seu próprio papado, inclusive, no século XIV, sediado em Avignon), que um projeto sério de reconstrução da antiga Basílica de Constantino, neste momento correndo o risco de desabamento, é organizado. Organizada pelo Papa Nicolau V, a nova concepção da Basílica é desenhada por dois dos arquitetos mais relevantes do Renascimento italiano, Leon Battista Alberti e Bernardo Rossellino.

A obra intencionada por Nicolau V era de grande monta para a época, ocasionando carência de material para seu processo inicial. Deste modo, o papa ordena a demolição do Coliseu, em Roma, para que as pedras do Anfiteatro Flaviano fossem utilizadas na Basílica. Sua morte prematura, apenas três anos após o início dos trabalhos de reforma, interrompe o projeto. Porém, infelizmente, parte da história da Basílica, e por consequência do Vaticano em si, se confunde com a dilapidação de um dos maiores monumentos históricos não apenas da Itália, como do mundo todo. Visitar a Cidade do Vaticano, mesmo atualmente, vale também para se fazer esta reflexão histórica valiosíssima sobre a arquitetura religiosa de modo geral, mesmo não católica. A apreciação estética muitas vezes é resultado de uma apropriação histórica. A construção que se eterniza no tempo é às vezes resultado do que foi demolido. É justamente tal ambivalência entre o sólido e o efêmero que faz da história ciência humana tão importante para os tempos que estamos vivendo, na então chamada pós-modernidade.

Após a morte de Nicolau V, abandonando a Basílica com sua estrutura a apenas um metro de altura e completamente inacabada, as obras seriam retomadas apenas cinquenta anos depois, já no século XVI, pelo Papa Júlio II, que organizou um concurso público entre os vários arquitetos existentes na Itália à época. Muitos desenhos foram enviados ao Papa, alguns aproveitando os originais de Alberti e Rossellino, outros modificando completamente o que já estava pronto. Inclusive, em Florença, na Galleria degli Uffizi, podem-se encontrar vários destes valiosíssimos documentos imagéticos do Renascimento italiano.

Entre esta vasta diversidade artística, é Donato di Angelo del Pasciuccio, conhecido como Bramante, um dos mais influentes arquitetos de sua época, influenciador de Michelangelo, por exemplo, quem assina o novo projeto da Basílica, que acaba por demolir a construção inacabada existente até então. A própria demolição é parte de um contexto biográfico muito significativo no que se refere a Júlio II, já que a ideia era restaurar a Basílica para que ele fosse enterrado no interior de sua estrutura. A reforma, deste modo, não era apenas uma oferta aos crentes católicos, tampouco uma oferenda exclusiva ao Altíssimo, mas sim um modo bastante extravagante de ostentação da própria imagem. Mais uma de nossas reflexões históricas cabe bem aqui. São inúmeros os exemplos em que as biografias dos poderosos se confundem com os monumentos históricos que sobrevivem como parte dos relatos de toda uma época. Castelos e Palácios, por exemplo, no mundo todo, são exemplos máximos desta tensão histórica primordial.

Representação pictórica do Papa Júlio II

Os mais de 120 anos seguintes são dedicados à finalização do projeto de Bramante. Diversos arquitetos são necessários, assim como a direção de outros tantos papas. Outra etapa importante do processo de edificação do templo sagrado acontece ao longo do século XVI, quando a construção carece de recursos financeiros para sua conclusão. O Bispado do então Sacro Império Romano Germânico, importantíssimo financiador da Igreja Católica naquele período histórico, organiza uma nova técnica de arrecadação financeira. A ideia seria aumentar a quantidade das ofertas oferecida à Igreja pelos fiéis. Para tanto, a partir da Alemanha, depois se espalhando por praticamente toda a Europa, a Igreja, aperfeiçoando uma técnica já existente na Baixa Idade Média, começa, de certa forma, a trocar o perdão pelos pecados humanos por ofertas vultuosas à Santa Sé. A venda de indulgências é um dos períodos mais conturbados da História do Catolicismo, já que, fruto de uma agressiva campanha de divulgação organizada pelo frade dominicano alemão Johann Tetzel, acaba por incentivar a explosão de um dos maiores movimentos de contestação à liderança religiosa e política da Igreja Católica em todo o Ocidente, a Reforma Protestante.

A reação severa de Martinho Lutero na Alemanha contra as indulgências ganha corpo, a ponto de se espalhar pelos quatro cantos da Europa, na época, chegando à França e Suíça, com Calvino e, inclusive, rompendo todo um país em sua ligação com a Igreja, formando uma nova religião de Estado na Inglaterra, por exemplo, com a fundação do Anglicanismo de Henrique VIII. Mesmo assim, a Basílica segue sendo restaurada.

Ainda no século XVI, ao longo de toda a comoção instaurada pela Reforma Protestante, inicia-se outra fase importante da obra. Supervisionada pelo Papa Paulo III, a reconstrução é confiada a ninguém menos que o famosíssimo Michelangelo. Assumindo o desígnio essencial de Bramante, com um domo inscrito ao centro de uma cruz ao estilo grego, com transepto e abside cobertos por uma grande cúpula, dentro da essência do estilo arquitetônico renascentista, Michelangelo é aquele considerado o grande responsável por oferecer à Basílica o formato e a estética que ela mantém até os dias atuais. E isso se deve a uma técnica bastante inteligente do multifacetado artista italiano. Para evitar as constantes alterações de projeto que acabavam ocorrendo sempre que um dos arquitetos responsáveis morria e outro assumia seu posto, Michelangelo iniciou as bases construtivas de várias partes do templo simultaneamente. Após sua morte, ainda na primeira metade do século XVI, os arquitetos responsáveis pela Basílica que o sucederam se viam obrigados a manter a projeção de Michelangelo, no lugar de demolir tudo aquilo que já havia sido iniciado anteriormente. Trata-se apenas de mais uma das ideias brilhantes de um dos maiores gênios artísticos já existentes na história da humanidade.

Desenho do projeto de Michelangelo para a nova Basílica

Em um ecletismo entre a arte renascentista e as influências barrocas, finalmente, no século XVII, a Basílica fica pronta. E, com pouquíssimas alterações e restauros, a visão de Alberti e Rossellino, Bramante e Michelangelo, entre tantos outros, existe aos nossos olhos e demais sentidos até os dias atuais. Um verdadeiro monumento histórico, com todas as suas maravilhas e contradições, valioso não apenas em seu sentido religioso imediato, mas para os amantes de história e arquitetura em todo o mundo.

Vista do rio Tibre e da Basílica de São Pedro

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