Catania e Siracusa – Atividade vulcânica e mitologia grega ao leste da Sicília

Cidades Históricas - 22/12/2017
Por Adrian Theodor

Em nosso texto de hoje continuaremos a visitar o Litoral Oriental da Sicília, caminhando agora pelo Sudeste, entre a vulcânica Catania e a mitológica Siracusa.

Catania

Há diversas maneiras de se chegar em Catania, e os turistas internacionais fazem uso de duas principais. Ou chegam de carro alugado, a partir de Taormnia, ou de avião, pela conexão em Roma, principalmente, até o aeroporto de Catania-Fontanarossa. E uma das impressões mais marcantes de nossas viagens pelo Velho País está na chegada de avião em Catania. O Etna recebe o turista com toda a sua imponência e marca a paisagem mesmo antes do desembarque. O Etna é visto pela janela do avião por toda a descida e define o que se verá na visita pela Comuna, um vulcão ativo e toda uma vida ao redor dele. A vista é incrível, mesmo no inverno.

Etna no inverno

É muito comum entre os turistas brasileiros ignorar o valor de um giro por Catania, investindo alto apenas na permanência siciliana nas praias de Taormina. Porém, pensamos que se trata de um erro gravíssimo, fruto de pouco conhecimento em relação à íntima relação que o siciliano tem com o seu próprio território. Catania encarna uma síntese valiosíssima no que se refere à formação da identidade siciliana, muito relacionada com a sua terra. A presença do Etna não é apenas um pano de fundo para uma bela fotografia, mas sim essencial para a visão de mundo do siciliano. Seja na fertilidade do solo que diversifica sua trajetória agrícola, sejam nas marcas negras da poeira vulcânica que tinge a arquitetura barroca do seu pulsante centro urbano, o vulcão é a medida da existência na Sicília. Visite-o, fotografe-o, mas, acima de tudo, tente investir parte de seu tempo e suas atenções em como os habitantes da ilha lidam com a presença constante da pulsação do planeta sob seus pés.

Catania é, também, cercada por profundos contrastes. Simultaneamente, a Comuna possui a tradição histórica de sua comunidade campesina, tão intensa nos textos de Giovanni Verga, por exemplo; e abriga vibrante vida urbana, principalmente noturna e aos fins de semana. Bares, restaurantes, casas noturnas, são atrativos essenciais para quem viaja com o interesse de conhecer o modo de vida urbano de um destino turístico. E, evidentemente, oportunidade única para provar os sabores locais.

Catania é tão pródiga em possibilidades de visitação, que foi muito difícil selecionar apenas alguns pontos importantes, mas, recomendamos aqui algumas paradas obrigatórias em seu roteiro:

Etna – como já dissemos, o Vulcão Etna, o maior ainda ativo em toda a Europa e Patrimônio da humanidade pela UNESCO, marca a identidade de Catania, além de formar impressão definitiva em toda a Sicília. Faz parte não apenas da paisagem como também é personagem da Comuna, estando presente não apenas em suas vidas, como também em inúmeras obras literárias. E esta marca, indelével, também fará parte de você após uma atenta visita. E a melhor forma de conhecer esses mais de 3.300 metros de altitude, é através de passeios disponíveis para suas abundantes crateras abertas para visitação. Não apenas as fotografias ficarão impressionantes, como a experiência, inesquecível.

Vista aérea do vulcão Etna

Caminhada Gastronômica – se possuir um tempinho a mais para fiar em Catania, recomendamos muito que faça um tour gastronômico pela Comuna. Você pode usar um guia especializado, ou conversar com os habitantes locais em busca de dicas valiosíssimas. Contudo, não perca a La pescheria, uma espécie de mercado local onde provará os queijos e as azeitonas típicos, além de uma espécie de azeite que não terá comparação com o que já provou no Brasil. Ao logo da Via Etnea, encontrará uma série insubstituível de comidas típicas que são obrigatórias em sua estadia em Catania: no Bar Savia, experimente os Arancini; e na Padaria Pacini, a melhor Cipollina que já provamos. Na Corso Sicilia, conheça La Fiera, apelido carinhoso para o maior mercado da Comuna, e prove a famosa bebida gasosa, composta por Seltz e xarope do sabor que escolher. Aqui no Brasil, a conhecemos como “limonada italiana”.

Dica: Para quem não conhece! O Arancino é um bolinho típico da Sicília. Alguns estabelecimentos comerciais o venderão num formato parecido com a nossa “coxinha”, mas ele é composto por arroz, mozzarella e ragu de carne. A Cipollina é um salgado de massa folhada, recheado com presunto, mozzarella e molho de tomate.

Barraca no mercado La Pescheria

Piazza Duomo – seguindo o plano comum das cidades italianas, a Praça da Catedral é a principal da cidade. Confluentes a ela, estão a vias mais conhecidas da Comuna, a Via Etnea, a Via Giuseppe Garibaldi e a Via Vittorio Emenuele II. A Catedral, que está localizada na face Sul da Praça, remonta do século XI, todavia sofreu diversas reconstruções posteriores, por ser vítima de grandes terremotos desde a Idade Média (é muito marcante na memória local o grande terremoto de 1693, que destruiu toda a cidade. Praticamente toda a arquitetura local tem a marca da reconstrução necessária após esta massiva tragédia). A construção atual data do século XVIII, e é assinada por Girolamo Palazzotto (responsável pela parte interna) e Giovanni Battista Vaccarini (que desenhou a fachada). A Praça abriga ainda o Museu Diocesano de Catania que, além das obras relacionadas à própria Catedral, possui uma pinacoteca de arte.

Piazza Duomo

Fontana dell’Elefante – ao centro da Praça da Catedral está uma monumental estátua de um elefante, junto a um obelisco e à uma fonte de água, feita em basalto e símbolo máximo da Comuna. Também construída por Giovanni Battista Vaccarini, no século XVIII, a obra representa o período em que Catania teria sido ocupada por cartagineses, no século XII. Todavia, são variadas as explicações sobre a origem do elefante como símbolo da identidade de Catania. Desde a excomunhão de um de seus primeiros construtores, até a relação entre a estátua e a crença popular de que ela aplacaria a fúria das erupções do Etna, as histórias e lendas em torno da obra se confundem ao longo de séculos.

Teatro Massimo Bellini –  a construção do belíssimo Teatro passou por diversas dificuldades de execução. As obras sofreram vários embargos, principalmente de ordem financeira, até que foram concluídas em 1890, recebendo o nome em homenagem ao músico local, Vicenzo Bellini. Sua fachada segue a tradição do barroco siciliano, enquanto a parte interna é muito semelhante a outros teatros de ópera da Europa do século XIX, com arcos longos e forro vermelho em veludo. As pinturas no teto narram as principais óperas de Vicenzo Bellini, e são assinadas por Ernesto Bellandi.

Teatro Massimo Bellini

Teatro Romano – finalmente, cravado no centro da Comuna, estão os escombros do famoso Teatro Romano de Catania, uma verdadeira aula de arqueologia e história a céu aberto. Diferentemente de outras construções semelhantes na Itália ou na Europa, o Teatro não salta aos olhos do visitante comum, justamente por estar mimetizado entre a urbanização de seu entorno. É necessário estar acompanhado de um guia ou perguntar pelas ruas, para enfim encontrá-lo. Construído pelos romanos ainda no Primeiro Século, por cima de um teatro grego preexistente, o Teatro é cercado por uma história de sucessivos saques e destruições. Representando um verdadeiro palimpsesto arquitetônico, foi saqueado pelas invasões bárbaras na Antiguidade e teve suas paredes de mármore devastadas e reaproveitadas para a construção do Duomo, já na Idade Contemporânea. O que sobra hoje é o que foi construído com pedra lavica, de origem vulcânica. E, mesmo assim, boa parte de sua estrutura não fez parte de um sítio arqueológico, sendo utilizada no passado como matadouro, por exemplo. Mesmo destruído, o Teatro é uma aula sobre as ocupações humanas em um território. Cada uma de suas camadas de alteração humana conta uma história diferente, esperando quem a desvende.

Teatro Romano

Siracusa

Ao sair de Catania, poderá chegar a Siracusa de dois modos diferentes. Se estiver com um carro alugado, pegue a Autoestrada Catania-Siracusa, parte da Estrada Europeia E45. Trata-se de um trecho de mais ou menos 67 quilômetros pelo litoral Oriental da ilha. Mais uma vez, como já comentamos sobre o trajeto de Messina a Taormina, o próprio caminho é parte da viagem e a vista do Mar Jônico, ao longo da estrada, deve ser aproveitada a cada fotografia.

A segunda opção se dá para aqueles que preferem não ficar presos ao carro e confiam no eficiente transporte ferroviário da Itália. A TRENITALIA, que já pareceu inúmeras vezes em nossos textos para este Blog, oferece um serviço de trem que liga Catania a Siracusa. Você deve partir da Estação Central de Trem de Catania, a Stazione Centrale di Catania, localizada na Piazza Giovanni XXIII Papa; e chegar até a Estação de Trem de Siracusa, localizada em Piazzale Stazione Centrale. Dali, você deve se encaminhar para o hotel que escolheu para se hospedar na Comuna.

Dica: Deixamos aqui uma dica recorrente em nossos textos. Sempre reserve sua hospedagem com antecedência. E informe-se antecipadamente no site oficial da TRENITALIA sobre os horários e as tarifas dos trens.

Vista de SIracusa

Já estabelecido em Siracusa, é importante conhecer um pouco de sua história. A Comuna foi fundada na Antiguidade Clássica, no século VIII a.C., e é cercada pelos mitos gregos de formação, muito comuns naquele período. Siracusa teria sido erigida por Árquias, um heráclida, descendente do próprio Hércules, sob a guia do Oráculo de Delfos. Árquias causara uma série de conflitos, com indivíduos muito relevantes à época e, claro, alguma porção de divindades da mitologia grega. E, para acalmar o deus Poseidon, viajou para a ilha e fundou ali uma nova cidade, chamada de Siracusa.

Claro, deixando a mitologia de lado, a cidade é fruto de ponto de chegada dos Coríntios à ilha, em busca de água fresca e um ponto de parada para iniciar a invasão e sucessiva ocupação daquele importante território estratégico, durante a formação da Magna Grécia. A formação de Siracusa até o domínio romano no século III a.C. (onde teria ocorrido a famosa batalha em que o matemático Arquimedes teria queimado embarcações romanas no mediterrâneo através de um jogo de espelhos e o reflexo do sol), todavia, se confunde com as crenças metafísicas da mitologia grega. A própria influência da Antiguidade Clássica é o que faz desta Comuna um ponto de chegada essencial para se conhecer a Sicília. História e mito se confundem por aqui, e desvendar ambos é atividade valiosíssima para um verdadeiro turista, sedento por conhecer profundamente o novo território por onde passe seus pés.

Mas deixemos que os principais pontos de visitação desta Comuna magnífica falem por si mesmos. Aqui estão aqueles que não pode deixar de visitar:

Ilha de Ortigia – A Ilha de Ortigia, ligada à Siracusa por um sistema de três pontes, é a parte mais antiga da Comuna, onde sua história se iniciou. É extremamente diversa e importante para Siracusa, por isso a tratamos aqui com tanto destaque. Evidenciaremos, é claro, neste roteiro, os pontos turísticos que não podem ficar de fora de sua estadia por Siracusa, entretanto reforçamos com muita intensidade que faça o percurso por toda a extensão de Ortigia, de preferência com um guia especializado.

Vista aérea da Ilha de Ortigia

Piazza Duomo – tem formato semielíptico e é considerada uma das praças mais belas de toda a Itália. É cercada por fachadas incríveis, de diversas construções importantes, como o próprio Duomo e a Igreja de Santa Lucia de Badia. Contudo, é claro, sua personagem principal é a Catedral mais importante da Comuna, também conhecida como Cattedrale della Natività di Maria Santissima. A Catedral é magnífica, em barroco siciliano, construída sobre um antigo Templo de Atenas, do século IV a.C. Os pilares dóricos ainda podem ser observados em seu interior, mesmo após restauração recente. Essa fusão entre a Antiguidade e a Modernidade tornou a Catedral de Siracusa umas das que mais marcaram minha experiência com a arquitetura religiosa.

Cattedrale della Natività di Maria Santissima

Templo de Apolo – mais um dos exemplos de como a história, na Sicília, tem várias camadas. Assim como o Templo Romano de Catania, o Tempo de Apolo foi construído, claro, na Antiguidade Clássica, no século IV a.C. Entretanto, com o passar do tempo, passou por diversos usos diferentes, até ser identificado como sítio arqueológico, no século XIX e finalmente passar por longo processo de pesquisa e restauro. Já foi templo bizantino, mesquita muçulmana, templo religioso dos bárbaros normandos, e até um centro militar ao longo da invasão espanhola. As colunas dóricas, de sua original época grega continuam em pé, e podem ser vistas com bastante clareza pelo visitante.

Castelo Maniace – construído no século XIII pelo Imperador Frederico II, o castelo está localizado na ponta extrema de Ortigia, como um promontório em direção ao mar. A cidadela é uma construção que impressiona, mesmo para os acostumados com construções desse porte ou arquitetura militar. Recebe este nome em homenagem a um dos primeiros a conquistar a ilha, o greco-bizantino George Maniakes, ainda no século XI. Foi utilizado por povos diversos ao longo da história, passando pelas mãos de bizantinos, gregos, árabes e franceses. Sua última grande restauração foi no século XVIII, após ser bastante danificado por uma explosão. Ele foi então adaptado para o uso de armas de fogo.

Castelo Maniace

Museo Nazionale Di Palazzo Bellomo – o Palácio Bellomo é de origem catalã, construído entre os séculos XIII e XIV, misturando estilos arquitetônicos diversos, tendo o andar superior uma grande influência do gótico, muito característico do quatrocentos. As obras em destaque ali são os dois sarcófagos de governadores da época do domínio de Federico III de Aragão e l’ Annunciazione, de Antonello da Messina, datada do século XV. A visita vale não apenas pelas exposições artísticas, mas também pela própria importância arquitetônica do Palácio.

Dica: a Ilha de Ortigia possui muito mais pontos de visitação do que conseguimos citar neste texto. Reforçamos nossa recomendação de que consiga por aqui um guia especializado e caminhe por tudo aquilo que a pequena ilha pode te oferecer.

Parco Archeologico della Neapolis – já de volta à ilha da Sicília, tem grande destaque em Siracusa o Parque Arqueológico de Neapolis, que encerra uma enorme reserva natural com os achados mais importantes da ilha, estando entre os territórios de arqueologia mais importantes não apenas da Itália como de todo o Mediterrâneo. Por aqui, é importante uma visita guiada por toda a estrutura histórica do parque, mas não deixe de conhecer: o Anfiteatro Romano de Siracusa, provavelmente construído ao final da Era Romana e quase inteiramente escavado diretamente na rocha; a Orelha de Dionísio, em formato de orelha de burro e nomeada assim, segundo a lenda, no século XVI pelo pintor Caravaggio, em memória da tirania de Dionísio, que fazia uso da acústica impecável da caverna artificial para espionar seus presos políticos; o Teatro Grego, o maior da Sicília, construído no século V a.C. e, apesar de, infelizmente, estar bastante degradado pelo tempo, ainda guarda acústica impecável e a parte da estrutura escavada na rocha ainda disponível para espetáculos anuais e visitação turística; e o Tecnoparque de Arquimedes, que, com o slogan “Descobrindo a Tecnologia”, apresenta os avanços tecnológicos do século III a.C., tendo como personagem histórico principal, claro, o grande Arquimedes, aquele que, nos tempos de escola, você aprendeu ter construído o jogo de espelhos que teria colocado em chamas as embarcações dos invasores romanos.

Caverna Orelha de Dionísio

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