Arezzo: História Cinematográfica no Coração da Toscana

Por Adrian Theodor

Mais uma vez estamos na Região da Toscana, um de nossos destinos preferidos na Itália. Desta vez, vamos conhecer uma Comunas que merece sua máxima atenção, não apenas pelo cuidado criterioso com sua origem histórica, como por sua riqueza natural e fama cinematográfica internacional: Arezzo.

Nossa estadia em Arezzo encontrou grande infraestrutura hoteleira e excelente atendimento turístico, em um roteiro de dois dias. Recomendamos que visite Arezzo como um dos pontos possíveis para se conhecer a Toscana. Recomendamos que escolha um roteiro que já mostramos aqui neste Blog e que pode muito bem ser somado à Arezzo: A Toscana Desconhecida. Mas as opções são inúmeras por aqui.

Você deverá chegar em Arezzo ou por Florença, Capital da Região da Toscana, ou por Siena. De uma dessas duas cidades, alugue um carro e dirija no sentido da Comuna. Se sair de Florença (o caminho que escolhemos), do Aeroporto Internacional Amerigo Vespucci, o trajeto dará mais ou menos 90Km. Aconselhamos o uso de GPS, para se localizar entre as estradas italianas com destino em Arezzo. Também é possível fazer o mesmo trajeto de trem. Consulte sempre o site da TRENITALIA para saber os melhores horários e valores de passagem. Utiliza-se muito pouco o carro dentro da Comuna e pode ser uma vantagem para quem quer economizar.

Arezzo tem origem etrusca, com registros arqueológicos que datam desde o século IX a.C. E, claro, as visitas históricas são essenciais para se conhecer o lugar. Entretanto, diferentemente de muitas das pequenas comunas italianas, conseguiu, há muito tempo, superar o turismo dedicado ao seu centro histórico. É um dos lugares mais ricos da Toscana e as opções de visita são bastante variadas.

Em nosso caso, dividimos o roteiro por aqui em duas partes, que acabaram acontecendo ao mesmo tempo, sem que percebêssemos: a visita dedicada aos diversos monumentos históricos, religiosos, artísticos e arquitetônicos da Comuna e um passeio por sua riqueza culinária e enológica. Destacamos a seguir os pontos essenciais para se conhecer esta comuna encrustada no topo da colina entre os Vales de Tiberina, Casentino, Valdarno e Chiana.

Piazza Grande – inicie sua caminhada por Arezzo por sua praça principal. Em forma de trapézio, muito inclinada, a praça é cercada por edifícios importantíssimos para a Comuna e de construções que variam historicamente entre a Idade Média e o Barroco. Nossos olhos atentos de cinéfilo se emocionaram ao ver o lugar onde várias cenas do filme A Vida é Bela, de Roberto Benigni, foram filmadas. Se planejar sua estadia para o primeiro domingo de qualquer um dos meses do calendário, terá a oportunidade de conhecer a famosíssima feira de antiguidades que acontece aqui. Ela chega a abrigar mais de 20.000 pessoas e traz artigos de vários lugares do mundo. Já, no penúltimo sábado de junho ou primeiro domingo de setembro, a praça acolhe a Giostra de Saracino, reconstituindo os famosos torneios medievais de lanças e jogos de bandeira. É verdadeiramente uma experiência inesquecível.

Cattedrale dei Santi Pietro e Donato – não deixe de visitar o Duomo da Comuna. Localizada no topo da colina que forma Arezzo, permitindo uma visão externa de 360°, a Catedral existe desde o século XIII, sendo completada apenas no século XVI. É um dos maiores centros culturais e artísticos da Itália, possuindo em seu interior obras importantíssimas para entender a história religiosa não só da Toscana, mas de todo o Velho País. Afrescos de Piero della Francesca, terracotas de Andrea della Robbia e os impressionantes vitrais de Guillaume de Marcillat são apenas alguns exemplos da riqueza que pode ser vista por aqui.

Palazzo Pretorio – caminhe ao menos pela parte externa da sede histórica da Biblioteca de Arezzo, logo depois da Piazza Grande, em seu lado mais elevado. Por aqui, visite o Palazzo delle Logge, obra do século XVI, a maior construção da Renascença presente em Arezzo, construída pelo famosíssimo arquiteto fiorentino Giorgio Vasari.

Dica: Um pouco mais distante, na Via XX Settembre, está localizada a Casa Vasari, idealizada e projetada pelo próprio arquiteto. Se tiver tempo em seu roteiro, vale se deslocar um pouco e fazer essa visita. O salão principal, as obras ali dispostas e o jardim anexo são indispensáveis aos amantes de história, arte e arquitetura.

Monumento a Francesco Petrarca – atrás da Catedral, no Passeggio del Prato, está localizado o Monumento a Petrarca, chamado de pai do Renascimento e um dos primeiros escritores a, através do conjunto prolífico de sua obra, oferecer forma e sistematização à língua italiana. O inventor do soneto tem aqui uma belíssima homenagem. O passeio, muito arborizado, é também uma atração a parte para quem aprecia a natureza. Para conhecer a Casa Petrarca, onde funciona um pequeno museu e a Accademia Petrarca (dedicada aos estudos sobre o poeta), deve-se agendar com antecedência. Geralmente a visita é feita por quem efetivamente estuda com maior profundidade sua biografia e suas obras.

Fortezza Medicea – idealizada desde o século XIV, durante a fortificação da Comuna, e finalmente construída no século XVI, pelos irmãos Giuliano e Antonio da Sangallo, a Fortaleza é um grande exemplo de como a arquitetura foi capaz de superar os desníveis do terreno para estabelecer uma construção completamente murada, em formato pentagonal irregular, com o objetivo de proteção militar contra possíveis invasores. É possível ver a magnitude da Fortaleza já ao lado de fora. E a visita vale não apenas pelas razões históricas óbvias, como também para conseguir ótimas fotos dos arredores de Arezzo.

Museus – detalhar cada museu de Arezzo seria um trabalho bastante árduo, dada a grande preocupação da Comuna com sua preservação histórica. Mas não deixe de conhecer o Museo Diocesano di Arte Sacra – com obras artísticas e religiosas do século XII ao XVI; o Museo Statale D’Arte Medievale e Moderna – com pinturas e afrescos retirados de diversos palácios presentes na Comuna; a Galleria Comunale di Arte Moderna e Contemporanea – com acervo que percorre o período entre guerras até os dias atuais; a Casa Museo di Ivan Bruschi – o criador da feira de Antiguidades localizada na Piazza Grande reúne em seu museu parte de sua coleção, que percorre desde a História Ágrafa até a Antiguidade Clássica; e o Museo Archeologico – com relíquias arqueológicas que se estendem do Paleolítico e Neolítico aos períodos Etrusco e Romano.

Templos Religiosos – dificilmente se consegue decidir qual o maior valor histórico de Arezzo, se os seus museus muito bem curados, ou seus templos católicos que sobreviveram aos séculos de exposição ao tempo. Apesar de não religioso, visitar as igrejas católicas italianas representam para mim, sempre, aulas de história e arquitetura incomparáveis com qualquer texto que eu venha a ler sobre o assunto. Deste modo, não deixe de ver a Chiesa di San Domenico – de fachada irregular e estilo gótico, construída do século XII ao XIV, possui em seu interior o muito bem conservado e famoso no mundo inteiro Crucifixo de Cimabue, pintado em madeira e exemplo belíssimo do Christus patiens (típica obra católica da Idade Média que representa ao sofrimento de Cristo no momento da crucifixão); a Chiesa di Santíssima Annunziata – também obra arquitetônica de Antonio da Sangallo (um dos irmãos que projetou a Fortezza Medicea), possui em seu interior criações importantes de Spinello Aretino, Pietro Subisso, Guillaume de Marcillat e, claro, Giorgio Vasari; a Basilica di San Francesco – local de importância ímpar por abrigar os afrescos com as 10 cenas da Leggende della Vera Croce (Lendas da Verdadeira Cruz), do extraordinário Piero della Francesca. As cenas contam a suposta história da madeira que verdadeiramente teve Jesus pregado no momento de sua morte. E a Chiesa di San Maria della Pieve – exemplo máximo das construções românicas ainda presentes na Comuna, com construção que percorreu os séculos XII e XIV, a Igreja possui esculturas de Domenico Marchionne, além da intrigante Torre do Sino, conhecida como Torre delle Cento Buche (Torre dos Cem Buracos), devido à presença de inúmeras janelas bíforas em sua formação arquitetônica.

Corso Italia – uma das principais vias de acesso da Comuna, a Corso Italia é o seu grande centro comercial. Nossos roteiros nunca trazem foco sobre os hábitos de consumo do turismo para a Itália, mas para quem aprecia viajar e fazer compras, terá por aqui um ponto importante da viagem.

Vinhos – sempre que visitar a Região da Toscana, experimente seus vinhos. É uma parada sempre obrigatória em sua estadia por quaisquer das comunas toscanas. Seu leque enológico é extenso e cabe em múltiplos paladares. Mas procure por adegas e restaurantes que sirvam os tradicionais Chianti Colli Aretini DOCG,  Valdichiana DOC, Valdarno di Sopra DOC, Colli dell’Etruria Centrale DOC, e Cortona DOC. Estando entre essas ofertas, não tem como errar. No texto que indicamos no início, sobre A Toscana Desconhecida, falamos um pouco mais sobre os vinhos da Região. Vale a pena conferir.

Culinária – já mencionamos aqui o Palazzo delle Logge, construção de Giorgio Vasari, na Piazza Grande. Sob esta obra arquitetônica, fica o renomado Restaurante Logge Vasari. Para aqueles que pareciam a alta gastronomia, o Logge é parada obrigatória, ao oferecer ao que é típico em Arezzo uma generosa pitada de requinte. Todavia, recomendamos que procure por aqui muito mais os pratos tradicionais do que os nomes dos restaurantes. Por exemplo, não deixe de provar exemplos da Cucina Povera da Toscana, e seu extremamente sábio uso do pão como base alimentar. Da básica bruschetta de alho à intensa zuppa di cavolo (sopa de repolho), Arezzo não cansa de surpreender os paladares mais exigentes. Procure também pela oferta da massa pappardelle ao molho de lebre ou ao molho de ganso; ou o cozido especial do músculo da panturrilha do gado da raça Chianina, temperado com intenso molho de tomate e especiarias, conhecido como grifi all’aretina. Não deixe Arezzo sem provar sua seleção nobre de queijos, em especial o abbucciato fiorentino, um pecorino típico da região, de produção extremamente controlada, sabor forte e caracterizado por sua casca comestível, que forma uma camada rígida ao redor de cada fatia. Foi uma das melhores experiências gastronômicas que já provei! E, obviamente, o queijo não pode deixar de ser acompanhado por um bom tinto toscano.

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