Agrigento e Selinunte – A Magnífica Antiguidade Histórica a Oeste da Sicília

Por Adrian Theodor

 

No texto de hoje, continuaremos a visitar a ilha italiana da Sicília, percorrendo mais dos passos de um périplo por sua costa, de Lesta e Oeste. Saímos de Messina, em sua área mais próxima do continente, e agora teremos a oportunidade de conhecer mais sobre Agrigento – ocupada pelos gregos desde o século VI a.C. – e Seliunte – fundada também na Antiguidade Clássica, no século VII a.C..

Dica: Se ainda não leu nossas impressões sobre Messina, não perca mais tempo e leia: Messina e Taormina – o Litoral Oriental da Sicília. Neste texto em particular, você poderá também entrar em contato com Taormina, destino já muito querido entre os viajantes brasileiros para a ilha.

Agrigento

Localizada a Sudoeste da Sicília, a Comuna de Agrigento, capital da Província de mesmo nome, é mais um daqueles territórios italianos de que gostamos tanto, por ser recheada de História. Apesar das destruições empreendidas ao longo de sua história, e das sucessivas ocupações humanas que passaram por lá, a Comuna preserva um intervalo histórico importantíssimo da Antiguidade Clássica, de modo geral, e da ocupação grega durante a formação da Magna Grécia, em específico. Veremos neste roteiro outros pontos de visitação importantes, que não guardam, necessariamente contato direto com o mundo grego, mas certamente esta intimidade com a civilização Helênica é, sem sombra de dúvida, o ponto alto de nossa visita.

O pano de fundo histórico da formação de Agrigento é essencial para uma visita completa à Comuna. Porque, não é apenas dos pontos turísticos que sobrevive um território, sim também da conservação de sua memória, a própria base de sua formação identitária.

E tal painel de recordações, em Agrigento, tem lugar no Período Arcaico da Antiguidade Grega, a partir do século VI a.C., quando esta complexa civilização ocidental, tão vasta quanto diversificada, ocupou seu espaço geográfico, localizado entre dois rios, Hypsas e Acragas (este, inclusive, deu o nome original da Comuna), na costa de um grande penhasco e, por isso mesmo, estratégico do ponto de vista militar. Agrigento se tornou, assim, parte da intensa expansão grega na direção da Península Itálica, no contexto da formação daquilo que ficou conhecido como Magna Grécia. Vigorosamente bélica, a Pólis de Akragas resistiu inúmeras vezes às tentativas de invasão da poderosíssima Cartago, civilização do Norte da África tão famosa por açoitar o Império Romano em variadas ocasiões, nas Guerras Púnicas. Até que, cerca de 175 anos após a sua fundação, a Cidade-Estado grega caiu sob o fogo inimigo, passando a se chamar Girgenti. No século IV a.C., é repovoada por migrantes provenientes de Siracusa, até tombar sob o domínio republicano de Roma, após as guerras que acabamos de citar contra a ocupação Cartaginesa, quando passou a ser denominada Agrigentum, de onde se origina seu nome atual.

Toda essa multiplicidade de ocupações marca até os dias atuais a paisagem da Comuna. Todavia, é a permanência grega que deixou os maiores testemunhos históricos. O conhecidíssimo Valle dei Templi, ou Vale dos Templos, um dos maiores sítios arqueológicos de origem grega de toda a Sicília é, desde 1997, Patrimônio Mundial da UNESCO e também uma das mais intensas expressões da arquitetura dórica na Antiguidade. A conservação, apesar das repetidas tensões militares ao longo de sua história, é uma das marcas italianas quando o assunto é o respeito por suas origens.

Dica: Caso não conheça o Parque Arqueológico de Neapolis, em Siracusa, outro exemplo importantíssimo das ocupações greco-romanas na Sicília, acesse nosso texto sobre o assunto: Catania e Siracusa – Atividade vulcânica e mitologia grega ao leste da Sicília.

A seguir, destacamos alguns dos templos localizados nesta ampla zona arqueológica que merecem sua atenção:

Tempio di Hera LaciniaTempio di Giunone (Templo de Juno): construído no século V a.C. e quase completamente destruído pela invasão cartaginesa em 406 a.C. Apesar de não haver evidências histórias que comprovem a informação, os locais costumam dizer que era aqui que os gregos celebravam suas cerimônias de matrimônio. Além da apreciação visual da arquitetura dórica, o Templo de Juno é uma boa oportunidade para refletir sobre as tensões entre a memória escrita e a tradição oral na construção da história.

Tempio della Concordia (Templo da Concórdia): a própria nomenclatura do Templo é conveniente para uma discussão sobre a construção da memória histórica, pois advém de uma inscrição em latim encontrada próxima do local de culto, também construído no século V a.C.. É um dos templos em melhor estado de conservação, talvez porque tenha sido convertido em templo cristão durante a ocupação romana, já depois de Cristo.

Tempio di Eracle – Tempio di Ercole (Templo de Héracles ou Templo de Hércules): um dos primeiros templos erigidos nesta enorme área arqueológica, dada a importância vital do culto ao seu deus. Foi completamente destruído por um terremoto, mas teve suas oito colunas principais restauradas já no século XX, sob a supervisão do arqueólogo inglês Alexander Hardcastle.

Tempio di Zeus (Templo de Zeus): levantado no século V a.C., após a final vitória de Akragas sobre Cartago, em agradecimento a Zeus. No século XV, o templo desabou, deixando vestígios atuais apenas de sua fundação original. Suas colunas eram acompanhadas por telamões, enormes figuras humanas, do gênero masculino, de cerca de sete metros e meio de altura, representando Atlas, aquele que segura com suas mãos a abóbada terrestre. Atualmente, no sítio arqueológico, apenas um telamão foi restaurado, para que o visitante possa ter em perspectiva a grandiosidade não apenas dessas esculturas antropomórficas, como também da grandiosidade do templo dedicado a Zeus.

Além de todo este espaço arqueológico já apresentado, recomendo que inclua em sua bagagem de experiências alguns templos importantes, como o Tempio di Atena (Templo de Atena), por exemplo. Localizado no Centro Histórico da Comuna, o antigo Templo da fertilidade é atualmente utilizado como local cristão de culto, sediando a Igreja de Santa Maria dei Greci. Apropriado pelos cristãos desde a Idade Média, serve não apenas como lugar de contato do cristianismo com Deus, ou mesmo como ponto turístico. Estabelece uma oportunidade raríssima para uma discussão histórica primordial. Deveriam afinal as construções deixadas por civilizações que já não mais existem serem mantidas conforme o legado de quem as construiu? Ou deveriam os humanos do presente oferecer a eles novos usos e, portanto, novos significados? A ocupação humana é, enfim, sempre uma forma de apropriação e destruição ou portadora de potência transformadora de sentido? Eu não ousaria oferecer uma resposta para tais indagações, porém gosto da oportunidade de pensar sobre elas. E Agrigento parece oferecer palco para um diálogo ímpar sobre o assunto.

Selinunte

Também localizado a Sudoeste da ilha siciliana, Selinunte foi uma Pólis grega, durante a Antiguidade Clássica. Hoje é um imenso parque arqueológico, o maior de toda a Europa. Pertence à Comuna de Castelvetrano, na Província de Trapani. O foco principal de um roteiro por aqui deve ser a visitação histórica, de preferência com um guia especializado. Por isso é essencial que faça o percurso com o bom planejamento de uma agência de turismo especializada, para que possa aproveitar cada centímetro desta verdadeira aula de história e arqueologia a céu aberto.

A primeira impressão do visitante do Parque Arqueológico geralmente é a de perceber a intensa destruição que cerca os edifícios antigos presentes por aqui. E o território devastado é, em si, uma aula importante sobre a passagem do tempo. Selinunte teria sido estabelecida como colônia grega ainda no século VII a.C., por ocupação do expansionismo grego advindo de Megara Hyblea. Entretanto, teria sido transformada em Pólis apenas no século seguinte, com nova ocupação de povos helênicos. Existe certo conflito cronológico nas documentações antigas, mas a origem é certamente grega. A partir daí, fruto de sua posição geográfica, muito próxima dos Cartagineses ao Norte da África e das tensões militares com a vizinha Segesta, foi alvo de constantes tentativas de invasão. Chegou a cair sob o domínio de Cartago, inclusive, sobrevivendo sob sua regência por quase duzentos anos, mesmo após a perda de mais de 16 mil homens na batalha contra o inimigo. Finalmente, no século III a.C., é ocupada pelos romanos, que expulsam Cartago, na Primeira guerra Púnica.

Somente esta bagagem histórica já seria suficiente para compreendermos o grau de destruição que este território estratégico na Sicília sofreu desde a sua origem. A isto, devemos ainda adicionar os intensos terremotos ocorridos ali ao longo da Idade Média, ao longo da ocupação Bizantina, e outros séculos mais de contínuas desapropriações de terra e quase total abandono do cuidado de seus monumentos antigos, até ser atenção especial de restaurações a partir do século XVIII. O que sobreviveu hoje, é extremamente evocativo. É o resultado da perseverança que a história pode ter diante a inexorabilidade da passagem deletéria do tempo. E, paradoxalmente, um sinal de como somos passageiros neste mundo. Seja lá o que fazemos ou em que acreditamos, sempre há uma estrada de chão sob nossos pés, já trilhada por tantas outras pessoas. E, apesar do clichê em forma de reflexão histórica, para mim, caminhar por Selinunte sempre será um sinal de que tudo o que é sólido pode desmanchar no ar, impelindo-me ao movimento, à colheita diária do que tenho a oportunidade de encontrar a cada novo passo, nova viagem, nova memória.

O complexo arqueológico de Selinunte se divide em quatro partes principais: a Colina Gàggera, onde está localizado o santuário de Malophòros; a Acrópole, ao centro do Parque; a Colina Oriental (ou Templos Orientais); e as áreas dedicadas às Necrópoles. Nota-se que grande parte dos templos são identificados simplesmente com letras, sem nome específico, dada a dificuldade em catalogá-los, já que carecem de documentação original que comprovem seus deuses de devoção.

Colina Gàggera (Santuário de Malophòros): na face Oeste da Ilha, encontramos o Santuário dedicado à deusa da fertilidade, Deméter, edificado a partir do século IV a.C. As escavações que o revelaram são datadas do final do século XIX e início do XX, demonstrando tanto suas constantes remodelações, quanto a destruição que sofreu ao longo do tempo. Sua construção provavelmente foi realizada em um local onde já aconteciam cultos ao ar livre. Servia não apenas como Templo politeísta, mas também como estação funerária. Grande parte dos achados arqueológicos do Santuário acabaram sendo transferidos para o Museu de Palermo, capital da Sicília, tais como 12 mil figuras masculinas e femininas em terracota, grandes incensários modelados em homenagem a Deméter ou um baixo-relevo que descreve o sequestro de Perséfone por Hades.

Acrópole: trata-se, claro, da parte mais elevada de Selinunte, destacando desde seus valores simbólicos, como a exaltação de seus cidadãos, até a sua função estratégica, principalmente como posto de observação contra os avanços da inimiga Segesta. Está localizada ao sul do Parque, com uma vista para o mar que certamente deixará marcas de tirar o fôlego em sua memória. A Acrópole foi edificada em uma vasta esplanada irregular, cercada por paredes e torres que, além de evocar a beleza arquitetônica da Antiguidade, demonstra sua preocupação defensiva. Dois eixos perpendiculares abrigavam cerca de seis templos e incontável diversidade de construções menores. Em um dos eixos, erigida no período da ocupação cartaginesa, encontramos uma área de sacrifícios provavelmente dedicada à deusa Tanit, importantíssima na mitologia púnica, juntamente com o deus Baal. Desbravar a Acrópole de Selinunte requer um esforço maior do que a visitação ao restante do Parque, devido não apenas à sua extensão territorial, como também à diversidade de construções ali existentes. Os principais templos localizados no Parque estão ao redor da parte alta da cidade, hoje seu grande centro histórico.

Colina Oriental (ou Templos Orientais): recebem esta nomenclatura devido à sua posição geográfica, a Leste da Ilha. Apesar de não estarem posicionados na área mais importante da antiga Pólis, a Acrópole, possui os templos que melhor representam a grandiosidade de Selinunte. O chamado Templo G, por exemplo, provavelmente dedicado ao culto de Zeus, possuía um peristilo (formação arquitetônica em que um pátio é cercado por colunas) com 46 colunas de 16 metros de altura. A área total do pátio somente é superada pelo famosíssimo Parthenon de Atenas, para que tenhamos uma perspectiva de sua imponência, dentro dos parâmetros da Antiguidade. Sua edificação provavelmente teve início em 580 a.C. e, mesmo após um século, com a destruição da Pólis pelas invasões Cartaginesas, ainda não estava completamente terminado. Todas essas informações, claro, são conhecidas através do estudo das plantas arquitetônicas da época, já que o Templo foi completamente destruído. Todavia, atualmente, os visitantes têm à disposição uma coluna, restaurada no século XIX e que, mesmo sozinha, oferece a ideia solene e majestosa do que teria sido o Templo dedicado a Zeus.

Necrópoles: Selinunte possuía algumas áreas diferentes dedicadas ao sepultamento dos mortos, como era comum na Antiguidade. Ao Norte da Colina Oriental, encontramos Buffa (século VI a.C.), onde foram encontrados vasos de cerâmica com restos de animais, provavelmente dedicados ao sacrifício politeísta, comum no período. A Nordeste da Colina de Mannuzza, pode-se observar uma série de túmulos escavados no tufo, na Galera Bagliazzo (século VI a.C.), assim como a presença de importante mobiliário da época. Ao final do século XIX, pesquisas arqueológicas desvendaram uma escultura, posteriormente denominada Efebo de Selinunte, que hoje pode ser visitada em um museu localizado nas proximidades da Acrópole. A Oeste da Colina de Gaggera, avistamos a necrópole mais extensa da região. Não se tem certeza sobre a origem dos achados arqueológicos da necrópole Pipio Bresciana, pois ela está localizada a uma grande distância da Acrópole, podendo ter sido o destino dos mortos das fronteiras da Pólis. Porém, seus vestígios materiais revelam ânforas provavelmente dedicadas a rituais de cremação.